Para colunista, relatório da Abin confirma que pressão de Washington já alcançou a disputa brasileira e pode transformar soberania em tema central da campanha.

Por Leonardo Sakamoto, via UOL

A interferência do governo dos Estados Unidos no processo eleitoral brasileiro de 2026 já deixou de ser uma hipótese de bastidor para virar fato consumado. E isso deveria causar calafrios em qualquer pessoa que se diga democrata, independentemente de preferência partidária.

Para a Casa Branca, isso passa obrigatoriamente por substituir governos com autonomia estratégica por parceiros dóceis e subservientes. E é exatamente aí que entra a candidatura de Flávio Bolsonaro.

O plano não visa o bem-estar do povo brasileiro, mas a transformar o país em um quintal obediente e fornecedor de commodities.

Trump gosta de Lula pessoalmente, pois respeita pessoas com poder. Mas uma coisa são preferências pessoais, outra é o business as usual.

A verdadeira dúvida que paira sobre a nossa democracia não é mais se a Casa Branca vai interferir, mas qual será o tamanho e a ousadia dessa mão peluda.

Atuar nos subterrâneos das redes sociais, manobrando algoritmos de Big Techs e direcionando buscas para desgastar o governo, é algo perigosíssimo, alertado exaustivamente por especialistas. Os tarifaços impostos à economia brasileira às vésperas da eleição e as ameaças ao sistema bancário e financeiro nacionais geradas pela transformação de PCC e CV em terroristas são outros patamares de agressão à soberania nacional.

Contudo, a arrogância imperial costuma tropeçar nos próprios pés. Trump é notório por ser um péssimo cabo eleitoral quando intervém de forma descarada fora de suas fronteiras, acumulando derrotas de aliados em locais como o Canadá e a Hungria.

Se a mão peluda pesar publicamente sobre as instituições brasileiras, ela devolverá a Lula o discurso da defesa intransigente da soberania. O presidente poderá, com toda a legitimidade dos fatos, empunhar a bandeira verde e amarela para alertar que a soberania do país corre perigo real.

Restará a Flávio Bolsonaro o constrangimento de se explicar, enquanto seus apoiadores celebram o 7 de Setembro venerando bonecos de um presidente estrangeiro, prontos a bater continência para quem trata o Brasil como colônia.

Vale lembrar que a Polícia Federal investiga se parte dos R$ 130 milhões que ele pediu ao banqueiro Daniel Vorcaro financiaram a articulação da família Bolsonaro junto ao governo dos EUA para gerar tarifaço e pressionar pela liberdade de Jair. O que é traição.

Uma parcela significativa dos brasileiros ditos independentes, que não estão alinhados nem com o lulismo nem com o bolsonarismo, e são os fiéis da balança eleitoral, podem estar insatisfeito com a atual gestão. Mas creem que xingar e atacar o governo é um direito dos próprios brasileiros, não de yankees.