Lula e Donald Trump expuseram visões opostas na ONU, mas levaram à Assembleia Geral discursos voltados a seus respectivos eleitores.
Por Leonardo Sakamoto, publicado no UOL
Quem assistiu aos discursos de Lula e Donald Trump hoje, na abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas, viu dois líderes falando para seus eleitores, mas em sentidos opostos: Lula, pelo multilateralismo; Trump, pelo poder do mais forte.
Trump, por sua vez, subiu ao púlpito com seu cardápio habitual de nacionalismo beligerante, apresentando os EUA como uma espécie de xerife do mundo. Defendeu as guerras que começou, como aquela contra o Irã, e mentiu sobre aquelas que jura ter terminado. Disse que a Venezuela é um lugar melhor após a invasão dos EUA e usou o exemplo do país e de Cuba para mostrar que ele pode usar a força militar pelos seus interesses. Demonstrou desdém pelas mudanças climáticas, criticou a migração e promoveu o avanço da inteligência artificial ignorando seus riscos — coisa que a maioria dos donos de Big Techs fazem mais. Para o republicano, a ONU se apresentou não como um espaço de cooperação, mas um símbolo de fraqueza e desperdício de dinheiro americano.
O abismo entre os projetos de mundo é evidente. De um lado, a tentativa de resgatar um pacto coletivo, com foco na desigualdade e nos direitos humanos; do outro, a pregação do America First, em que a força bruta substitui o direito internacional.
Tratar os dois discursos como equivalentes em conteúdo seria desonestidade intelectual. Na forma e no objetivo tático, contudo, há algo em comum: o cálculo eleitoral.
Para Lula, a tribuna da ONU é uma vitrine estratégica para tentar mudar o foco sobre o STF, que impede a discussão sobre programas de governo. O palco internacional oferece o fôlego que Brasília teima em tirar.
Já poucas coisas mobilizam mais o eleitorado de Trump do que a narrativa do herói solitário que enfrenta o sistema global para proteger o trabalhador comum — mesmo que isso não seja verdade.
E se o brasileiro está praticamente empatado com Flávio Bolsonaro por aqui, o Partido Republicano aparece nas pesquisas de intenção de voto em maus lençóis para o pleito de novembro, que pode tirar de Trump a maioria no Congresso.
No fim, a Assembleia Geral funcionou como caixa de ressonância. A diplomacia forneceu o cenário, a iluminação e as bandeiras. Lula e Trump levaram discursos pensados também para circular nas redes sociais e repercutir nas pesquisas de opinião.
Ainda assim, ambos expuseram visões de mundo radicalmente distintas sobre os caminhos que o planeta terá que escolher.



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