BRASÍLIA (DF) — Poucos temas cresceram tanto na conversa pública brasileira nos últimos anos quanto a saúde mental. E os números explicam por quê. A Organização Mundial da Saúde estima que mais de um bilhão de pessoas no mundo convivam hoje com algum transtor…

BRASÍLIA (DF) — Poucos temas cresceram tanto na conversa pública brasileira nos últimos anos quanto a saúde mental. E os números explicam por quê. A Organização Mundial da Saúde estima que mais de um bilhão de pessoas no mundo convivam hoje com algum transtorno mental, sendo a ansiedade e a depressão as condições mais frequentes e a segunda maior causa de incapacidade de longo prazo. No Brasil, o cenário é ainda mais delicado: o país registra a maior prevalência de depressão da América Latina, segundo a própria OMS.

O retrato interno confirma a urgência. Dados do inquérito Covitel 2023, reunidos pelo Observatório da Saúde Pública, indicam que cerca de 12,7% dos brasileiros convivem com depressão e 26,8% relatam sintomas de ansiedade — com as mulheres desproporcionalmente mais afetadas. No mundo do trabalho, o Instituto Nacional do Seguro Social contabilizou mais de 472 mil afastamentos por transtornos mentais em 2024, um salto de cerca de 68% em relação ao ano anterior e o maior índice em uma década.

Para quem vive em Brasília, esse debate não é abstrato. O Centro-Oeste aparece entre as regiões com maior prevalência de transtornos de ansiedade do país, e o Distrito Federal está entre as unidades da federação com as maiores taxas de afastamento por questões de saúde mental em relação à população. A pergunta que se impõe deixou de ser apenas como falar sobre saúde mental — e passou a ser como cuidar, com qualidade e dignidade, de quem precisa de tratamento.

O que muda com a internação de curta permanência?

Durante décadas, o imaginário coletivo associou o tratamento psiquiátrico a longas internações e ao isolamento. Esse modelo, porém, vem sendo revisto desde a Reforma Psiquiátrica Brasileira, consolidada pela Lei nº 10.216, de 2001, que reorientou o cuidado em saúde mental para a proteção dos direitos da pessoa e para a reinserção social como horizonte do tratamento. Na prática, isso significa buscar o tempo necessário de estabilização — e não a internação prolongada como regra.

É nesse ponto que instituições como a Clínica Ser, referência em cuidado psiquiátrico no Distrito Federal, procuram se posicionar. Em contraposição a modelos que podem prolongar a permanência hospitalar, a proposta da clínica é trabalhar pelo menor tempo necessário à estabilização do quadro, priorizando a ressocialização e o retorno do paciente à rotina o mais cedo possível, sempre com acompanhamento especializado. A lógica é simples de enunciar e difícil de executar: internar pode ser necessário; institucionalizar, quase nunca.

Mais do que uma questão de endereço, estar inserida no tecido urbano ajuda a traduzir a proposta de cuidado defendida pela clínica. A proximidade facilita o contato com familiares, torna as visitas mais acessíveis e aproxima o tratamento da realidade para a qual o paciente deverá retornar. Em vez de representar um afastamento absoluto da vida cotidiana, a internação é apresentada como uma etapa temporária de um processo que busca preservar vínculos e favorecer a reinserção social.

Há também uma dimensão simbólica nessa escolha: tratar a saúde mental dentro da própria cidade ajuda a romper com a ideia de que o paciente psiquiátrico precisa ser afastado da comunidade para receber cuidado. A internação pode interromper temporariamente a rotina, mas não precisa significar o rompimento com a vida que existe fora dela.

Um cuidado que trata a pessoa inteira

Se há um consenso na psiquiatria contemporânea, é o de que transtornos mentais raramente se explicam por uma causa única — e, portanto, raramente se tratam por uma única frente. A resposta a essa complexidade tem um nome: interdisciplinaridade.

Na Clínica Ser, o cuidado é conduzido por uma equipe ampla, que reúne psiquiatras, médicos clínicos, psicólogos, psicólogos de família, profissionais de serviço social, enfermagem, nutrição, fisioterapia, terapia ocupacional, educação física, farmácia, além de arteterapeutas e musicoterapeutas. A ideia é que cada paciente seja acompanhado a partir de um plano terapêutico individualizado, capaz de olhar ao mesmo tempo para o sintoma, para o corpo, para a história e para o contexto familiar.

Esse cuidado se materializa também no ambiente. A estrutura inclui atividades que vão muito além do consultório — academia para atividade física, piscina, espaços de convivência, salas de atendimento individual, familiar e em grupo — e grupos terapêuticos organizados por perfil, como idosos, jovens, dependência química e recortes específicos de público. Para quem não precisa de internação integral, a modalidade de hospital-dia oferece tratamento intensivo e estruturado sem afastar totalmente a pessoa de sua rotina, um formato pensado justamente para preservar autonomia e vínculo social durante a recuperação.

A família como parte do tratamento

Um dos traços que a clínica destaca em sua abordagem é o lugar reservado à família. Enquanto muitos serviços restringem o contato durante a internação, a Ser afirma trabalhar com ligações telefônicas e visitas diárias, aproximando pacientes e familiares ao longo de todo o processo — uma escolha que dialoga diretamente com a diretriz de humanização.

Esse envolvimento não é um detalhe operacional; é parte da estratégia clínica. A literatura em saúde mental é consistente ao apontar o suporte familiar como fator relevante na adesão ao tratamento e na prevenção de recaídas. Traduzir isso em rotina — comunicação frequente, acolhimento dos familiares, participação da rede de apoio — é o que separa o discurso da humanização de sua prática efetiva.

Tratar saúde mental é devolver à pessoa a possibilidade de uma vida plena, com a família ao lado e o mínimo de afastamento possível da rotina. A internação é uma etapa, não um destino. — Dra. Angela Maria Trinidad Albiñana de Mello, CRM 2175 Tecnologia a serviço do cuidado: novas terapias

Ao lado do cuidado humanizado, a Clínica Ser tem investido em recursos terapêuticos mais recentes — um movimento que acompanha a evolução da psiquiatria nas últimas décadas, mas que ainda é pouco disponível na rede local.

A instituição afirma ter inaugurado um espaço exclusivo para a aplicação de escetamina intranasal, indicada em casos de depressão resistente, transtorno depressivo maior e situações que envolvem ideação ou comportamento suicida. Segundo a clínica, a equipe responsável por esse serviço foi capacitada pela fabricante do medicamento, em um modelo de atendimento que busca aliar segurança e acolhimento. A clínica também oferece outras terapias medicamentosas avançadas, como a paliperidona para transtornos psicóticos, além de dispor de sala dedicada à terapia medicamentosa.

Outro recurso disponível é a eletroconvulsoterapia (ECT), apresentada pela instituição como um procedimento seguro e conduzido com acompanhamento especializado, indicado em quadros como depressão grave e catatonia. Vale um esclarecimento importante para o público: todas essas terapias são prescritas e acompanhadas por equipe médica, a partir de avaliação individual, e não substituem a indicação profissional. Nenhum tratamento em saúde mental deve ser buscado por conta própria — o papel da informação é justamente aproximar as pessoas das opções que existem e reduzir o medo que muitas vezes as afasta do cuidado.

Completam esse conjunto a telemedicina, com consultas online que ampliam o acesso, e uma estrutura de suporte que a clínica descreve como disponível 24 horas, com equipe médica e de enfermagem para intercorrências e recursos para transferência segura a ambiente hospitalar quando necessário. Em saúde mental, a segurança física é tão essencial quanto o cuidado emocional.