Preços recuaram com estoques elevados e queda do consumo, enquanto safra brasileira de 2026/27 deve crescer, mas segue abaixo do ciclo anterior.

Compartilhar matériaA produção de laranja e o mercado de suco entra em um ciclo de seletividade econômica, em que apenas produtores profissionais tende a sobreviver. A recomposição dos estoques, a demanda internacional menos aquecida e a queda das cotações reduzem o suporte aos preços, enquanto a estrutura de custos permanece pressionada pelo avanço do greening (doença fúngica que atinge os pomares), pela necessidade de manejo mais intensivo e por relações de troca menos favoráveis para insumos relevantes.

Nesse ambiente, a diferença entre produtores tende a aumentar: escala, irrigação, sanidade do pomar, tecnologia e eficiência operacional passam a ser determinantes para preservar margem e um cenário de preços menos remuneradores. A constatação é da consultoria em agro do banco Itaú BBA.

Do ponto de vista produtivo, o quadro segue condicionado por dois vetores de risco. O primeiro é estrutural, associado ao greening, que continua elevando custos, reduzindo produtividade e redesenhando a geografia da citricultura.

O segundo é climático: embora o próximo ciclo 2026/27 tenda a ser favorecido pela bienalidade positiva e por uma safra naturalmente maior. A materialização do El Niño forte ou muito forte traz maior irregularidade climática com temperaturas elevadas por dias consecutivos, . "Esse efeito, justamente no período crítico de floradas, entre setembro e novembro, prejudica o potencial produtivo antes mesmo do desenvolvimento dos frutos e adiciona incerteza à oferta em um mercado que, apesar dos estoques mais confortáveis, segue exposto a riscos agronômicos relevantes", diz o banco.

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A primeira reestimativa do Fundecitrus para a safra 2026/27, divulgada em setembro, aponta produção de 263,15 milhões de caixas de 40,8 quilos no cinturão citrícola de São Paulo e do Triângulo/Sudoeste Mineiro. O número representa alta de 3,1% em relação à projeção anterior, mas ainda fica abaixo das 295 milhões de caixas produzidas na safra 2025/26. O aumento da estimativa veio principalmente do maior peso dos frutos, favorecido pelo volume de chuvas registrado durante o desenvolvimento da safra.

Mesmo com a revisão para cima, o volume projetado continua distante dos níveis considerados mais confortáveis pelo mercado. O Itaú BBA, em relatório de agosto, trabalhava com uma estimativa de 255 milhões de caixas e avaliava que uma produção próxima de 300 milhões seria mais adequada para recompor estoques e atender à indústria.

A diferença entre as projeções não muda, porém, a principal questão que o banco identifica para o mercado: a menor oferta da próxima safra não necessariamente significa escassez de suco no curto prazo.

Isso acontece porque a safra anterior foi mais volumosa, enquanto as exportações brasileiras cresceram pouco. Na temporada 2025/26, os embarques aumentaram apenas 3,7%, para 805 mil toneladas em equivalente FCOJ (suco concentrado e congelado), com receita de US$ 2,54 bilhões. Ou seja, uma produção que cresceu 27% encontrou uma demanda externa que não acompanhou o mesmo ritmo.

O resultado foi a recomposição dos estoques da indústria, o que pressiona os preços internacionais e reduz a remuneração da indústria e do produtor. O mercado, portanto, entrou na temporada com uma espécie de colchão de oferta, capaz de absorver parte da redução da produção sem provocar, imediatamente, uma nova disparada das cotações.

Em 12 meses até 3 de agosto, a laranja posta na indústria caiu cerca de 30%, para R$ 30,57 por caixa, segundo o Cepea. No mesmo período, o suco de laranja negociado na bolsa de Nova York recuou aproximadamente 40%, para perto de US$ 154,95 por libra-peso.

Correção após queda acentuada

A correção ocorre depois de um período excepcional para a citricultura. Em 2024, a combinação de oferta muito restrita e uma das menores safras das últimas décadas levou o suco a patamares historicamente elevados. A produção mais abundante de 2025/26, porém, mudou a relação entre oferta e demanda e provocou uma forte reprecificação.

O problema é que a queda na commodity ainda não chegou integralmente ao consumidor. Nos Estados Unidos, um dos principais mercados consumidores de suco de laranja do mundo, os preços no varejo permanecem elevados. Em junho, o suco concentrado e congelado era vendido a US$ 4,87 por lata de 473,2 mililitros, um dos maiores valores nominais da série histórica. Para o consumidor americano, portanto, a redução observada na cotação da matéria-prima ainda não se transformou em uma queda equivalente na gôndola.

Esse descolamento ajuda a explicar a perda de consumo. Dados da Nielsen citados pelo Itaú BBA mostram que as vendas de suco de laranja nos Estados Unidos somaram 274,7 milhões de galões nas 52 semanas encerradas em 11 de julho, uma queda de 8,3% em relação ao período anterior.

O recuo foi ainda maior nos produtos mais associados ao suco concentrado. As vendas de suco reconstituído caíram 12,1% em volume, enquanto o concentrado congelado recuou 15,2%. O NFC, suco não concentrado, apresentou queda menor, de 5,2%.

O movimento não é isolado do mercado americano. O diretor-executivo da CitrusBR, Ibiapaba Netto, afirmou recentemente que os preços elevados registrados nos últimos anos provocaram uma redução estimada de 30% a 40% no consumo de suco de laranja. A avaliação ajuda a explicar por que a indústria entrou na nova safra com estoques mais elevados.

Em março, a CitrusBR informou que os estoques brasileiros de suco haviam chegado a 616,46 mil toneladas em dezembro de 2025, alta de 75,4% em relação ao mesmo período do ano anterior. Na ocasião, Netto atribuiu o aumento à “acomodação da demanda em mercados-chave após o período de preços elevados observado na safra anterior”.

A mudança revela também uma transformação dentro do próprio mercado. O consumidor americano não apenas está comprando menos suco: está alterando o tipo de produto consumido. O NFC vem ganhando participação e chegou a representar 68,1% do volume vendido, contra 65,8% anteriormente.

Essa mudança também já aparece nas exportações brasileiras. Na safra 2025/26, o NFC respondeu por 43% dos embarques brasileiros em equivalente FCOJ, mais que o dobro da participação registrada uma década atrás.