Rodovia na República Tcheca revela assentamento celta com moedas de ouro, âmbar, oficinas e sinais de comércio de longa distância.

Uma rodovia planejada no nordeste da República Tcheca acabou revelando um assentamento celta de proporções inesperadas. Sob o trajeto da futura D35, arqueólogos encontraram moedas de ouro e prata, âmbar, joias e oficinas que apontam para um importante centro comercial de cerca de 2.200 anos.

O sítio foi identificado em 2023 durante levantamentos arqueológicos preventivos realizados perto de Hradec Králové. As escavações, conduzidas antes da construção da rodovia, continuaram pelos dois anos seguintes e revelaram uma concentração incomum de estruturas e objetos antigos.

Participaram da pesquisa especialistas do Museu da Boêmia Oriental, da Universidade de Hradec Králové e da organização Archaia Praha. Segundo as instituições, o local provavelmente continuaria escondido sem a investigação obrigatória do terreno destinado à nova estrada.

O assentamento ocupava aproximadamente 25 hectares, dimensão muito superior à de muitos sítios da Idade do Ferro conhecidos na região. Seu período de maior atividade ocorreu no século II a.C., durante a cultura La Tène, tradicionalmente associada aos povos celtas da Europa.

Miroslav Novák, chefe do departamento de arqueologia do museu, classificou a descoberta como de importância europeia. Para o pesquisador, seu potencial pode ser comparado ao de grandes centros conhecidos no Médio Danúbio e no sul da Alemanha, embora o local não possuísse muralhas.

Os arqueólogos recuperaram moedas celtas de ouro e prata, matrizes usadas na cunhagem, fragmentos de espelhos, vasos metálicos, contas de vidro e joias. Também apareceram fundações de moradias, cerâmicas, ferramentas e vestígios de diferentes áreas de produção.

A equipe reuniu cerca de 22 mil sacos de achados, segundo a Universidade de Hradec Králové e o Museu da Boêmia Oriental. O material inclui objetos cotidianos e coleções de adornos, formando um dos maiores conjuntos arqueológicos já recuperados na Boêmia.

A presença de âmbar vindo da região do Báltico reforça a ligação do assentamento com rotas comerciais de longa distância. Tomáš Mangel, da Universidade de Hradec Králové, afirmou que os achados permitem associar o local a um dos ramais da chamada Rota do Âmbar.

As moedas, os materiais importados e as oficinas indicam que a comunidade não vivia isolada. Mercadores e artesãos provavelmente conectavam a Boêmia a outras áreas da Europa, transportando matérias-primas, produtos de luxo e conhecimentos técnicos por uma ampla rede de intercâmbio.

Os pesquisadores ainda analisam quem ocupou o assentamento e por que ele desapareceu por volta do século I a.C. A ligação com os boios, povo celta tradicionalmente associado ao nome Boêmia, é considerada possível, mas não foi comprovada de maneira definitiva pelos vestígios encontrados.

Sem sinais claros de destruição militar, fatores econômicos, sociais ou ambientais podem ter provocado o abandono. Agora, cada moeda e fragmento precisa ser catalogado. Acompanhar essa investigação é essencial, pois o tesouro sob a rodovia ainda pode reescrever parte da história celta na Europa Central.