Projeções apontam que o Partido Republicano perderá o controle da Câmara no dia 3
As eleições de meio do mandato presidencial de Donald Trump, na próxima terça-feira (3), são aguardadas como as mais importantes dos Estados Unidos neste século e observadas atentamente pelos demais países em busca de sinais de um provável enfraquecimento dos poderes concentrados na Casa Branca desde 21 de janeiro de 2025. Há quem aposte que as “midterm elections” marcarão o início do fim da era Trump, que já dura mais de dez anos.
“As midterms servem como uma maneira de sinalizar a satisfação ou insatisfação do eleitorado com o presidente. Geralmente, nessas eleições, o que está em jogo não é nada muito dramático. A Presidência permanece com a mesma pessoa”, afirma o historiador Alexander Keyssar, professor da Harvard Kennedy School. “Desta vez, na minha opinião, há muito mais em jogo”, avalia o historiador, de 79 anos e vasto conhecimento sobre o processo eleitoral dos EUA.
O poder da Câmara será suficiente para revelar escândalos aos quais é difícil sobreviver” — Mark Weisbrot Estarão em jogo todas as 435 cadeiras da Câmara de Deputados, com mandato de dois anos, e 35 vagas (cerca de 1/3 do total de 100) no Senado, para mandato de seis anos. Além disso, serão eleitos 36 governadores (18 em Estados onde atualmente o chefe do Executivo é republicano e outros 18, por democratas).
Tudo indica que haverá um rearranjo de forças que tende, de acordo com as previsões feitas a partir de pesquisas de intenção de voto, a enfraquecer os poderes quase imperiais de Trump 2.
O empresário e ex-apresentador do programa de televisão “O Aprendiz” retornou a Washington em 2025 com ampla maioria no voto popular, no Colégio Eleitoral, na Câmara e no Senado e crescente influência sobre a Suprema Corte.
Por motivos como a guerra contra o Irã e a consequente inflação, sobretudo dos preços dos combustíveis, que tiveram alta de mais de 30% desde março, a popularidade de Trump vem caindo sistematicamente. Já chegou à casa dos 36% neste mês de outubro, o patamar mais baixo de seus dois mandatos. O alto custo de vida, que foi o mote da campanha de Trump contra Biden e depois sua vice, Kamala Harris, em 2024, voltou-se contra ele, com o Partido Democrata apropriando-se da palavra “affordability” (capacidade de pagar) para lhe fazer oposição.
Mesmo em pontos antes considerados fortes para Trump, como a política de imigração, a maioria dos americanos agora acredita que o governo dele foi “longe demais” nas deportações em massa e na violência da polícia de controle da imigração (ICE), que resultou em mortes de civis.
Os agregadores de pesquisas apontam tendência de vitória do Partido Democrata na disputa pela Câmara. E o modelo de projeção do estatístico Nate Silver, há décadas considerado uma autoridade na consolidação de dados de pesquisas eleitorais nos EUA, bota acima de 70% a probabilidade de o Partido Republicano perder maioria no Senado.
“Se as eleições ocorrerem aproximadamente como as pesquisas estão prevendo, será o fim da Era Trump”, disse Silver, editor do Silver Bulletin, no programa de entrevistas “The Ezra Klein Show”, videocast do New York Times. Silver estima que, caso as previsões se confirmem, Trump será um “super pato manco” a partir da noite eleitoral.
Pato manco, ou “lame duck”, no jargão da política, é o presidente que ainda tem mandato a cumprir, mas perdeu a força política para fazer aprovar sua agenda. No sistema de pesos e contrapesos (“checks and balances”) desenhado na Constituição dos EUA, essa é a situação em que o Legislativo consegue limitar os poderes do chefe do Executivo. A Suprema Corte, tolerante aos avanços de Trump no atual mandato, também pode refluir em um novo contexto político.
As pesquisas já estiveram erradas, particularmente ao subestimar o voto trumpista em eleições anteriores, com destaque para 2016, quando sua vitória (no Colégio Eleitoral, mas não no voto popular) sobre a ex-secretária de Estado Hillary Clinton surpreendeu o mundo. Por isso, as previsões estão sendo tomadas com uma boa dose de cautela.
O sistema democrático foi enfraquecido. Levará muito tempo para reconstruí-lo” — Alexander Keyssar Mas o fator considerado realmente imprevisível é a reação que Trump poderá ter diante de resultados desfavoráveis.
Em 2020, então presidente, Trump recusou-se a aceitar a derrota para Biden. Ele insuflou protestos de apoiadores seus que tomaram o Capitólio no dia 6 de janeiro de 2021 com o objetivo de impedir, pela força, a diplomação de Biden e Kamala Harris.
“Há uma forte possibilidade de que, se os democratas estiverem à frente na apuração, o governo Trump tentará contestar os resultados de alguma maneira”, acredita Keyssar. Para o historiador, está menos claro se haverá alguma consequência real desses protestos, passados os primeiros dias. “Não creio que uma crise institucional seja provável, mas acho que não está fora de cogitação”, pondera Keyssar.
Em seu segundo mandato, Trump acelerou, e muito, o ritmo de emissão de ordens executivas. Em menos de dois anos, elas já atingiram a marca de 288, até o final de setembro. O cômputo do mês de outubro ainda não foi fechado. Em comparação com um total de 220 (média de 55 por ano) na primeira gestão de quatro anos, iniciada em janeiro de 2017-2021, é um aumento que revela uma mudança na forma de governar, o que pode levar também a acusações de abuso do Poder Executivo.
“Há uma coisa incomum nos Estados Unidos, que é o poder do Congresso sobre política externa, que é maior que na maioria dos países da Europa e da América”, diz o economista Mark Weisbrot, co-diretor do Centro de Pesquisa Econômica e de Políticas Públicas (CEPR, na sigla em inglês), em Washington,
O Congresso dos Estados Unidos esteve próximo de aprovar leis que restringem os poderes do Executivo em relação a assuntos bélicos, notadamente após a captura do então presidente da Venezuela Nicolás Maduro, em janeiro, e após o início da guerra contra o Irã, em 28 de fevereiro, mas os parlamentares trumpistas conseguiram evitar derrotas. Com uma nova configuração do Legislativo, será difícil manter esse quadro de paralisia.
O mais grave que pode acontecer a Trump, e nesse caso bastaria a derrota na Câmara, é que o Partido Democrata assuma o controle de comitês de investigação e sejam reabertos casos como o dos arquivos de Harvey Weinstein, além de novas frentes de apuração sobre denúncias de corrupção contra Trump.
“O poder investigativo da Câmara será suficiente para revelar para revelar escândalos aos quais um presidente não é capaz de sobreviver. Já aconteceu no passado”, diz Weisbrot, que acompanha de perto a atuação do Congresso, especialmente a estratégia dos democratas.
Para recuperar o controle do Senado, o Partido Democrata terá que vencer disputas apertadas em Estados onde Trump venceu com margem de mais de dez pontos percentuais em 2024, como Texas, Ohio, Iowa e Alasca. Se isso acontecer, é possível que a sinalização do fim de Trump fique realmente clara.




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