Anthony Pereira analisa escalada de tensão entre Brasília e Washington, a influência de Donald Trump e Javier Milei na política regional e os riscos que enxerga para a democracia na eleição brasileira de 2026.

Em 2022, a eleição presidencial brasileira foi disputada em grande medida em torno de uma única questão: a sobrevivência da democracia. Anthony Pereira teme que 2026 seja diferente, e que isso, paradoxalmente, seja o maior risco.

Cientista político britânico, Pereira é uma das vozes de maior autoridade sobre o Brasil no exterior. Dirige o Roger Thayer Stone Center for Latin American Studies, na Universidade Tulane, em Nova Orleans, e fundou o Brazil Institute do King's College, em Londres, que comandou por uma década.

Acompanha as eleições brasileiras desde 1989 e escreveu alguns dos livros de referência sobre o país, entre eles Ditadura e Repressão, sobre a legalidade autoritária dos regimes militares do Brasil, do Chile e da Argentina.

A entrevista foi realizada em um momento de tensão aguda entre Brasília e Washington. No mesmo dia, o governo de Donald Trump havia revogado o visto da embaixadora brasileira nos Estados Unidos, mais um capítulo de uma escalada que inclui ataques do secretário de Estado, Marco Rubio, ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e a indicação de um embaixador americano para Brasília feita sem a consulta prévia que o protocolo diplomático exige.

No pano de fundo regional, a viagem de Javier Milei a São Paulo, dias antes, para o lançamento da campanha de Flávio Bolsonaro (PL), na qual o presidente argentino chamou Lula de ladrão, corrupto e presidiário, abrindo uma crise que culminaria na decisão do governo brasileiro de rebaixar o nível das relações diplomáticas com Buenos Aires.

Para Pereira, o episódio diz menos sobre a política externa argentina do que sobre o próprio Milei, dividido entre o presidente que precisa recuperar a economia do país e a tentação de se tornar "a grande estrela global da direita".

Na conversa a seguir, Pereira fala sobre o isolamento diplomático do Brasil, a onda de direita na América Latina, o que uma direita radical internacionalmente articulada tem em comum e no que se divide, e por que, apesar de tudo, ele não é pessimista quanto ao futuro do país.

BBC News Brasil – O governo Trump acaba de revogar o visto da embaixadora do Brasil em Washington. Como o senhor lê essa decisão?

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Anthony Pereira – Acho que a decisão do governo Trump reflete a tendência que eles têm de ver o Brasil por uma lente ideológica, político-partidária, e não pela lente do interesse nacional.

Se tivessem olhado para o Brasil de forma mais estratégica e geopolítica, estariam interessados em minerais críticos, inclusive em terras raras. Estariam interessados em cooperar com o Brasil no combate ao crime organizado. Poderiam ter interesse mútuo na produção de etanol. Poderiam ter interesse mútuo na proteção da Floresta Amazônica.

Mas o que se vê do secretário de Estado, Marco Rubio, são ataques pessoais ao presidente Lula e uma alegação sem fundamento de que o Brasil não estaria negociando de boa-fé com os Estados Unidos. E agora vem essa revogação do visto da embaixadora brasileira.

E não devemos esquecer que o anúncio de Daniel Perez como embaixador dos Estados Unidos no Brasil foi feito sem consulta ao Brasil, o que é protocolo, é tradicional, e não obriga o Brasil a aceitá-lo como representante dos Estados Unidos em Brasília.

BBC News Brasil – Na política de Trump para a América Latina, vê também uma estratégia ideológica?

Pereira – Eu estava falando com um ex-diplomata brasileiro sobre isso. O que ele gostaria de ver do governo Trump, e que não está sendo produzido, é uma política positiva para a América Latina. Ou seja: parar de criticar a China e a presença chinesa nas economias, especialmente na América do Sul, e propor algo positivo. Propor financiamento americano para infraestrutura, dar financiamento por meio dos bancos multilaterais e de bancos estatais, para empresas americanas investirem na infraestrutura de que a região precisa. Competir com a China positivamente.

Talvez um governo no futuro faça isso. Mas o governo Trump, para mim, é muito mais negativo. É um governo que olha para a região como fonte de drogas, de imigrantes, de coisas indesejáveis, e que tem de ser subordinada. É uma política que não víamos desde a época da diplomacia das canhoneiras, no fim do século 19 e começo do século 20, quando os Estados Unidos intervinham militarmente na América Latina para proteger seus interesses.

Não tem efeitos positivos, porque cria reação. Gera a sensação de que não se pode confiar nos Estados Unidos, porque vão impor tarifas contra a sua economia, vão deportar seus cidadãos. Não parece um parceiro confiável. A tendência natural será buscar apoio na Europa, na Ásia, com outros Estados. Mark Carney, o primeiro-ministro do Canadá, foi para mim o expositor mais claro da posição das potências médias: é preciso contrabalançar com política multilateral para conter os danos nessas relações.

Isso é chocante. Se você produz esse tipo de reação no Canadá, que sempre foi confiável, sempre foi amigo dos Estados Unidos, imagine o efeito dessas políticas em outros países.

Foi dito abertamente que eles, a América Latina, precisam muito de nós, e que nós não precisamos deles. Quase se glorificou essa assimetria como uma coisa positiva para os Estados Unidos. Estes não são os Estados Unidos que eu conheço da minha juventude, de quase toda a minha vida até agora. É contraproducente tratar os aliados dessa forma.