Combustível caro, margens reduzidas e volatilidade cambial pressionam operações da empresa no continente

Combustível caro, margens reduzidas e volatilidade cambial pressionam operações da empresa no continente

20.set.2026 (domingo) - 7h00 Priorize o Poder no Google

Uber deixa Nigéria e Uganda, se limitando a só 4 países no continente. Combustível caro, taxas de lucro reduzidas e volatilidade cambial aumentaram pressão sobre a categoria.

Depois de mais de uma década de presença no mercado do país mais populoso da África, a Uber anunciou inesperadamente neste mês a sua saída da Nigéria. A empresa também vai encerrar imediatamente as operações em Uganda, limitando as suas operações a 4 nações no continente: Egito, Gana, Quênia e África do Sul.

Mas, no último ano, a multinacional também encerrou atividades na Costa do Marfim e na Tanzânia, além de ter reduzido sua força de trabalho global em 10%.

A Uber não conseguiu expandir sua presença em grande parte do mercado africano. É forte a concorrência de plataformas rivais como Bolt, inDrive e SafeBoda, que atuam na Nigéria, em Uganda e em outros países da região.

Enquanto isso, em diversos países do continente, motoristas têm reclamado da redução das suas margens de lucro diante da alta dos combustíveis, da inflação e da volatilidade cambial, com destaque para o caso nigeriano.

Na avaliação dos profissionais, o modelo de negócios da Uber, que retém entre 20% e 25% do valor de cada corrida em forma de comissão, deixou de ser sustentável.

Ele contou à DW que uma corrida de 30.000 nairas (R$ 115) da cidade até o aeroporto resulta em uma comissão de 6.000 nairas (R$ 23) para a plataforma.

Samuel Olatunji, motorista da Uber em Lagos, precisará reformular a estratégia de trabalho depois do anúncio da saída da empresa. O profissional de 43 anos diz que agora terá de recorrer a outros aplicativos, assim como centenas de colegas, para manter uma fonte estável de renda.

Nos últimos anos, motoristas como Olamide e Olatunji participaram de greves e protestos contra o aumento dos custos operacionais, as tarifas consideradas baixas, as condições de trabalho e a alta dos combustíveis na Nigéria.

Em 2026, a situação foi agravada pela disparada dos preços nos postos causada pela guerra entre EUA e Israel contra o Irã. Segundo os motoristas, suas reivindicações ficaram sem resposta. Agora, muitos se preparam para um futuro incerto.

A Uber não apresentou uma explicação detalhada para sua decisão. No entanto, a saída veio em um contexto de inflação de 2 dígitos em diversas economias africanas, fenômeno que reduziu o poder de compra de milhões de pessoas e ampliou os índices de pobreza.

Com isso, consumidores também tendem a utilizar menos os serviços de transporte por aplicativo.

Ikemesit Effiong, sócio da consultoria SBM Intelligence, sediada em Lagos, avalia que os custos crescentes com combustível, manutenção de veículos e seguros, somados à desvalorização da moeda nigeriana em relação a 2014, fizeram com que as tarifas aumentassem mais rapidamente do que a disposição ou a capacidade dos passageiros de pagar pela conveniência do serviço.

Ele aponta ainda a um desequilíbrio estrutural: enquanto os custos da Uber estão atrelados ao dólar, a receita dos motoristas depende da naira, moeda que perdeu valor ao longo dos anos.

Esse cenário estreitou gradualmente as margens de lucro, apesar de o mercado nigeriano de transporte por aplicativo ser estimado em cerca de 450 milhões de dólares anuais.

Ele destacou ainda que um dos concorrentes da Uber, a inDrive, opera com um sistema de negociação direta de preços entre motorista e passageiro.

Segundo o analista, isso reduz a dependência de um modelo padronizado e intensivo em capital, que tende a funcionar melhor em mercados mais ricos.

Os mercados da Nigéria e de Uganda apresentam diversas semelhanças. Ambos possuem grandes populações e uma demanda crescente por soluções de mobilidade urbana.

Mas a saída da Uber também representa a perda de um serviço que muitos usuários consideravam seguro e confiável em comparação a alternativas.