Com drones próximos à linha de frente em zonas de alto risco, tropas passam a usar tubulações de gás para deslocar soldados e suprimentos.

Debaixo da terraUcrânia combate em gasodutos subterrâneos e captura tropas da RússiaPor Juliet Manfrin

Dê de presentePrefira a Gazeta no GoogleTropas ucranianas dizeram mais de 30 prisioneiros russos em operação em dutos de gás subterrâneos. (Foto: Reprodução 2º Corpo da Guarda Nacional (Khartiia))Ouça este conteúdo

A guerra entre Rússia e Ucrânia ganhou um elemento tático antes vista na Guerra do Vietnã e na Faixa de Gaza: o combate também está ocorrendo no subsolo. Tropas russas vinham usando gasodutos enterrados a quatro metros de profundidade para se infiltrar no território ucraniano e atacar a retaguarda de seu oponente.

Mas na última semana a Ucrânia concluiu uma operação para caçar os russos dentro de um gasoduto de cerca de 15 quilômetros próximo à cidade de Kupiansk, na frente leste de batalha. A ação resultou na eliminação de ao menos 100 combatentes russos e na prisão de 30.

Em vez de se deslocarem exclusivamente por estradas, campos e florestas expostos ao ataque de drones, soldados passaram a usar os gasodutos desativados para chegar a posições próximas da linha de frente, transportar mantimentos e munições e retirar militares feridos.

A adaptação se explica em um campo de batalha dominado por drones. Os equipamentos aéreos não tripulados, empregados para observar e atacar alvos, tornaram arriscado qualquer deslocamento na superfície. Nesse cenário, estruturas subterrâneas construídas originalmente para transportar gás passaram a funcionar como corredores militares.

O jornal americano New York Times comprovou que esse tipo de combate está se intensificando ao enviar repórteres para acompanhar o combate nos gasodutos em Kupiansk. Os jornalistas classificaram o cenário visto como "pós-apocalíptico" e relataram que o combate ocorre em canos de 1,2 metro de diâmetro e túneis de apoio cavados próximo dessas estruturas.

Os militares não conseguem permanecer em pé dentro dessas tubulações. Mesmo assim, passam períodos prolongados no subsolo, enfrentando condições difíceis e utilizando pequenos veículos elétricos para percorrer os corredores. A estrutura serve tanto para o deslocamento de tropas quanto para o transporte de alimentos, munições e outros materiais necessários à manutenção das posições.

A incrível história do soldado que amputou o próprio pé para sobreviver e foi resgatado por droneEUA aprovam venda de 500 mísseis Patriot à UcrâniaComo gasodutos da Ucrânia viraram rotas de infiltração e batalhas ocultasA infraestrutura de transporte de gás natural que atravessa o território ucraniano ligando a Rússia a países europeus se converteu em um campo de batalha subterrâneo no leste da Ucrânia. A recente "Operação Veles" expôs o uso das galerias de gasodutos como eixos estratégicos de infiltração militar e combate tático na frente de Kupiansk.

Com tubulações de cerca de 1,20 metro de altura, o que obriga os combatentes a se deslocarem curvados, e enterrados a aproximadamente 4 metros abaixo do solo, os dutos oferecem abrigo contra a vigilância e o ataque de drones de superfície, setor em que as forças ucranianas mantêm vantagem tática.

A estratégia russa consistia em utilizar a malha subterrânea para cruzar barreiras aquáticas estratégicas, como o rio Oskil, por baixo d'água, evitando os riscos de uma travessia anfíbia exposta na superfície. Registros do campo de batalha indicam que tropas russas chegaram a empregar pequenos carrinhos e motocicletas adaptadas no interior das galerias para movimentar homens e suprimentos entre as localidades de Holubivka, Radkivka e Mirove, flanqueando posições defensivas.

Ao identificar a rota de infiltração e a reduzida presença russa em determinados trechos, as forças armadas da Ucrânia deflagraram uma incursão direta para dentro dos dutos a partir dos acessos em Mirove e Radkivka, travando combates no interior da tubulação até alcançarem Holubivka.

Os ucranianos enfrentaram os russos com metralhadoras e granadas dentro do gasoduto. Sem conseguir avançar, cortaram as paredes do gasoduto, cavaram um túnel paralelo e novamente cortaram a parede do gasoduto mais à frente, flanqueando a posição de defesa dos russos.

A manobra resultou na captura de prisioneiros e na retomada do controle ucraniano sobre os trechos subterrâneos que ultrapassam a margem do rio.

EUA orientaram europeus a baixar tom em declarações contra a Rússia, diz agênciaResistência das estruturas e impasse táticoA destruição total da rede por meio de explosivos se mostrou inviável por conta da alta resistência da estrutura metálica, cujas paredes superam 1,5 centímetro de espessura de aço, associada à espessa camada de solo. Em vez de explodir os dutos, os ucranianos passaram a implementar táticas de entupimento e bloqueio físico das galerias para impedir novas incursões.

Por sua vez, as tropas russas têm recorrido também à perfuração externa das paredes dos tubos e a escavações laterais na tentativa de desobstruir as passagens, sinalizando o desdobramento de uma guerra subterrânea contínua pelo controle das rotas ocultas no front leste.

Os gasodutos utilizados pelas forças ucranianas faziam parte de uma infraestrutura construída para transportar gás natural entre Rússia e Ucrânia. A interrupção do trânsito de gás russo pelo território ucraniano, em 1º de janeiro de 2025, ocorreu após o encerramento do acordo de transporte com a Gazprom. A decisão colocou fim ao fluxo de gás russo por aquela rota, mas não significa que toda a rede tenha sido abandonada ou esteja sendo utilizada pelas Forças Armadas. A operação militar descrita pelo The New York Times ocorre em trechos desativados nas proximidades de Kupiansk.

Na região, segundo a reportagem, existem aproximadamente 130 quilômetros de tubulações fora de operação. A extensão da rede e sua localização subterrânea transformaram parte dessa infraestrutura em uma alternativa para movimentar militares em uma área onde a exposição ao céu pode representar uma ameaça constante.

A utilização dos dutos não começou com os ucranianos. Tropas russas foram as primeiras a recorrer a essas estruturas durante a guerra, retomando uma prática que lembra o uso de túneis em conflitos anteriores, especialmente na Primeira Guerra Mundial.

No fim de 2025, militares russos utilizaram os corredores subterrâneos para se infiltrar em Kupiansk. Haviam feito o mesmo na campanha de retomada de territórios em Kursk (Rússia).