Imagem: capa do livro Vício excessivo em telas. Falta de pensamento crítico. Conteúdo cada vez mais raso. Manipulação da verdade. Destruição de livros. Parece um retrato de nossos dias, mas são tópicos presentes num livro escrito há quase 75 anos pelo autor estadunidense Ray Bradbury e uma das distopias clássicas mais famosas do mundo.

Em Fahrenheit 451, publicado em 1953, os livros são proibidos e queimados. O mais assustador, porém, é como se chegou a esse ponto. No livro, os próprios cidadãos perderam o interesse na leitura. Enxergando uma possibilidade de acabar de vez com o estímulo intelectual, o governo decreta a proibição oficial, mergulhando a população numa alienação estimulada por telas, imagens, cores, notícias manipuladas e entretenimento vazio. Em agosto deste ano foi noticiado que empresas de inteligência artificial estavam usando milhares de livros físicos para treinar suas ferramentas e causando uma destruição em massa dos exemplares, incluindo títulos raros. Os perigos de um futuro 100% digitalizado nas mãos de grandes corporações, sem a presença de livros físicos para atestarem seus conteúdos reais, são óbvios. Se antes soava absurdo e mera ilusão literária, as matérias acenderam um alerta sobre possibilidades vindouras. A importância da palavra escrita para o estímulo do pensamento, imaginação e senso crítico são temas na base do livro, mas a distopia vai além. Num mundo em que as pessoas sentiam preguiça de conteúdos aprofundados, as matérias ficaram cada vez mais resumidas, rasas e superficiais. Eleições e políticas internas e externas são assuntos censurados, cidadãos tomam parte em guerras das quais desconhecem os reais motivos, e, sem os livros, o passado foi apagado, reescrito e manipulado.  Contado pela perspectiva de um bombeiro, defensor e perpetrador desse sistema opressivo, o personagem acorda aos poucos para o choque de defender ideais contrários ao que verdadeiramente acredita, prejudiciais a si mesmo. Preso em um sistema autoritário, ele percebe as dificuldades em se libertar de amarras sociais habilmente pensadas para manter os indivíduos alheios à realidade, arrebatados pelo imediatismo, banalização da vida, falta de interesse no próximo, desejos de consumo e escapes tecnológicos.