O Brasil tem um PIB de cerca de 2,2 trilhões de dólares e uma população de aproximadamente 200 milhões de pessoas. Dividindo uma coisa pela outra, chegamos...
O Brasil tem um PIB de cerca de 2,2 trilhões de dólares e uma população de aproximadamente 200 milhões de pessoas. Dividindo uma coisa pela outra, chegamos a uma renda per capita de uns 11 mil dólares por ano: um país de renda média, nem rico nem pobre. Mas essa média esconde mais do que revela. O Brasil não é um país de renda média. É dois países muito diferentes, um ao lado do outro.
A desigualdade brasileira está entre as maiores do mundo. Os 10% mais ricos ficam com cerca de metade da renda nacional, e os 50% mais pobres ficam com algo em torno de 10%. Vale fazer a conta com esses números.
O Brasil rico. Os 10% do topo são cerca de 20 milhões de pessoas. Se ficam com metade do PIB, têm em mãos algo como 1,1 trilhão de dólares. Isso dá mais de 50 mil dólares por pessoa por ano. É o padrão de renda de um país europeu desenvolvido: Itália, Espanha, França. Dentro do Brasil existe um país rico do tamanho da Holanda, com escolas particulares, plano de saúde, viagens internacionais e padrão de consumo de primeiro mundo.
O Brasil pobre. Os 50% da base são cerca de 100 milhões de pessoas. Com 10% do PIB, ficam com algo em torno de 220 bilhões de dólares. Isso dá pouco mais de 2 mil dólares por pessoa por ano. É a renda de países africanos de baixa e média-baixa renda, como Quênia ou Gana. Dentro do Brasil existe também uma África populosa, com informalidade, baixa escolaridade, serviços públicos precários e trabalho de baixíssima produtividade.
E o Brasil do meio. Os 40% restantes, cerca de 80 milhões de pessoas, ficam com os outros 40% da renda. Dá algo perto de 11 mil dólares por pessoa: exatamente a média brasileira, um padrão parecido com o de México ou China. É a classe média apertada, que vive na fronteira entre os dois Brasis e tem medo de cair para baixo.
A explicação usual é distributiva: impostos regressivos, juros altos que transferem renda para quem tem patrimônio, salário mínimo baixo. Tudo isso importa. Mas há uma dimensão mais profunda, que é a estrutura produtiva.
Países ricos são ricos porque a maioria da sua população trabalha em atividades de alta produtividade: indústria sofisticada, serviços intensivos em conhecimento, tecnologia. O Brasil rico se parece com isso. O Brasil pobre, não. A metade de baixo da população está concentrada em serviços de baixíssima produtividade, comércio informal, trabalho doméstico, bicos e agricultura de subsistência. Não há transferência de renda que, sozinha, transforme 100 milhões de pessoas em trabalhadores de alta produtividade.
É por isso que a desindustrialização precoce brasileira é tão grave. A indústria era o caminho pelo qual o Brasil pobre poderia migrar para empregos melhores, mais estáveis e mais bem pagos. Quando esse caminho se estreita, sobram dois países: um integrado à economia global de alto valor, outro preso na informalidade.
A pergunta central do desenvolvimento brasileiro não é como fazer o PIB crescer 2% ou 3% ao ano. É como trazer o Brasil africano para dentro do Brasil europeu. Isso exige redistribuição, sim, mas exige sobretudo complexidade produtiva: criar empregos sofisticados em escala suficiente para absorver dezenas de milhões de pessoas.
Enquanto isso não acontecer, continuaremos sendo um país com uma Itália e um Quênia dividindo o mesmo território, a mesma bandeira e o mesmo PIB médio que não descreve a vida de ninguém.




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