Os Estados Unidos nasceram sob a luz de duas estrelas brilhantes: a Constituição e o primeiro presidente eleito, George Washington. Este é o quarto e último programa dedicado à independência americana

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E o resto é história. É a terra fumar. Dominando a prova, ainda na zona do Chiado. Que faz um filho, fá-lo por gosto. Ai, vinho vermelho, que ao meu corpo fogo de amor. Quer transformar este país numa ditadura. Atente. Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.

Olá, seja bem-vindo a mais um episódio de E o Resto é História com Rui Ramos e João Miguel Tavares. Eu e o Rui temos quase um sorriso de dever cumprido nos lábios. E é só quase, porque ainda falta um programa. Mas estamos quase a chegar ao fim deste nosso empreendimento. Este é o quarto e último programa dedicado aos 250 anos da independência dos Estados Unidos da América. Já falamos da chegada dos primeiros colonos britânicos, da Declaração de Independência, da Guerra de Revolução e hoje chegou a vez de falarmos da Constituição americana, sem dúvida alguma, a mais mítica e estudada constituição do mundo, e de falarmos também da eleição do primeiro presidente dos Estados Unidos da América. Após oito longos anos de guerra, como vimos no último episódio, este é o momento decisivo na construção da nação americana. Revoluções há muitas, descolonizações há muitas, derrubas de regimes também há muitos. O que não costuma haver assim tanto é regimes tão bem-sucedidos quanto os Estados Unidos, e parte desse mérito deve-se precisamente aos dois protagonistas do episódio de hoje. Por um lado, o coletivo de autores que escreveu uma constituição única, que realmente foi escrita, debatida e reescrita por algumas das mais brilhantes cabeças dos últimos 500 anos em termos políticos, os chamados Founding Fathers. E por outro lado, temos também um primeiro presidente eleito, que não era conhecido por ser a mais intelectualmente brilhante das cabeças na sala, mas que tinha uma coragem, uma sensatez, uma estatura moral, um estatuto político e um desprendimento em relação ao poder que eram, de fato, uma absoluta raridade naquela época, para não dizer que não são uma absoluta raridade ainda nos dias de hoje.

Em qualquer época. Rui, eu ia te perguntar que nuvem milagrosa pairou sobre a costa leste do continente norte-americano naquele final do século XVIII, para ter sido possível reunir tanta gente notável num espaço geográfico muito contido entre a Geórgia e o Massachusetts, e num intervalo de tempo tão curto. Como é que se explica isso? Tanta gente tão esperta num espaço tão pequeno.

Sim, os Founding Fathers, os pais fundadores, deixaram essa reputação de gente espantosa bastante merecida. A esse respeito, há uma anedota curiosa de John Kennedy, presidente dos Estados Unidos entre 1961 e 1963. Em determinado momento da sua presidência, Kennedy resolve convocar para jantar na Casa Branca, em Washington, uma série de prêmios Nobel. Vamos dizer, uma dúzia de prêmios Nobel, da física, da química, da literatura, todos eles. E reúne-os, senta-os à volta da mesa de jantar da Casa Branca e depois diz algumas palavras. E começou com esta observação curiosa. Ele diz: "Nunca tanta inteligência esteve sentada à volta desta mesa como desde o tempo em que Thomas Jefferson jantava aqui sozinho." Aquela dúzia de prêmios Nobel. Quer dizer, com o Thomas Jefferson sozinho. Era comparado com o Thomas Jefferson sozinho. O Thomas Jefferson é espantoso, o Alexander Hamilton, o Benjamin Franklin, o James Madison, o John Adams e, claro, o George Washington. Eles são gente extraordinária. Hoje nos espanta quando lemos as coisas deles, os interesses deles, aquilo que eles sabiam. Jefferson ou Franklin são inventores, gente que se interessa por tudo, literalmente tudo, das ciências exatas à literatura, e que têm capacidade de ser interessantes em todas as áreas. Impressiona-nos isso. E de onde é que vem esta elite? Eu acho que quando falamos aqui da colonização da América, percebemos que não era um milagre. Não é apenas um milagre aparecer essa gente. Sim, os americanos em 1776 não são uma grande população, mas são 2,5 milhões, incluindo 500 mil escravos, mas 2 milhões de homens livres. Vivem no campo, 96% vive no campo, dedicado à agricultura, à pastorícia, à caça e à pesca. Mas nós sabemos que são uma população próspera, muito bem alimentada, com uma estatura média muito mais elevada do que a estatura dos países de origem. É um sinal de que eles verdadeiramente são muito bem alimentados. Têm uma taxa de literacia espantosa, sobretudo nas colônias do norte, também falamos aqui disso. O fervor religioso na América converteu-se num nível de instrução impressionante para a altura. No estado da Virgínia, no sul, tem uma espécie de aristocracia de onde vem George Washington ou Thomas Jefferson. São uma aristocracia, são grandes senhores de plantações.

Sim, com escravos, que levam uma vida de Fidalgos britânicos. Em Harvard já têm intelectuais no colégio de Harvard e noutras universidades. Há imensas universidades já, colégios universitários, aliás, mas imensas universidades, mais uma vez por razões religiosas, está-se a preparar gente para a religião, mas está a preparar já cientistas, eruditos, etc. Em Filadélfia têm uma grande imprensa livre, têm uma imprensa que publica imensa coisa, têm teatros, etc. Em Nova Iorque e em Boston têm negócios, são dois portos extremamente prósperos, têm negociantes e, sobretudo, há uma densa esfera pública. Cada colónia tem uma assembleia legislativa, um parlamento. No total, estas três assembleias legislativas têm 1400 lugares de deputados.

É muita gente a pensar política.

É muita gente a pensar política e a disputar estes lugares, a discutir estes lugares. Há 37 jornais semanários. As tiragens, sim, hoje não nos impressionam imenso ou talvez agora começassem a impressionar outra vez em papel. Tiragens de 600 exemplos, acho que cada um, mas são jornais que são muito espalhados, lidos por muita gente.

E pela gente que interessa.

Há associações, há clubes. Nos anos de 1770, com o conflito com a Inglaterra, há um ambiente de grande exaltação. Tudo isto cria uma vida pública muito intensa, muito interessante, que atrai muita gente com talento para esta vida pública. Portanto, nós imaginamos que sim, sem a revolução, provavelmente não teríamos ouvido falar da maior parte destes homens. Talvez Benjamin Franklin, que já era uma figura conhecida na Europa como um inventor, mas a revolução e depois a guerra é fundamental para os outros. Por exemplo, há um caso extremamente interessante, talvez até dos mais fascinantes destes Founding Fathers, que é o Alexander Hamilton, que nem sequer tinha nascido nos Estados Unidos, tinha nascido no meio das Caraíbas, tinha ido para os Estados Unidos depois estudar. E ele tem uma carta de 1769 a um amigo. Ele é um indivíduo extremamente ambicioso. Um órfão, praticamente do nada, mas com uma capacidade enorme, que leva a comunidade onde ele nasceu e cresceu a sustentar-lhe os estudos. Isto é, aquele rapazinho impressionou tanto aquela gente que eles enviaram-no para estudar nos Estados Unidos e Hamilton em 1769, com 20 e poucos anos, diz a um amigo: "Eu preciso de uma guerra, preciso que aconteça uma guerra."

Para subir na vida. E é isso que acontece. Em 1765, ele torna-se o principal secretário do George Washington, que imediatamente percebe que aquele miúdo é extraordinário, é um génio de organização, de ideias, de tudo. E aí, sim, lança uma carreira política fantástica, depois como secretário do Washington e depois também como comandante, porque ele também é um ótimo artilheiro, oficial de artilharia, porque é o típico Founding Father, é bom em tudo, é ótimo a escrever, escreve incrivelmente, pensa incrivelmente.

Inventa Wall Street.

É ótimo a organizar bancos, a organizar o Ministério das Finanças, é ótimo em tudo.