Vazamento de 420 mil emails expõe dados e vícios da AfD na Alemanha

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José Henrique Mariante

Hackers invadiram os sistemas de email da AfD e disponibilizaram 280 gigabytes de informação reservada do partido de extrema direita da Alemanha para consulta pública. Cerca de 420 mil mensagens e 50 mil documentos expõem, desde terça-feira (20), a comunicação interna da legenda, dados pessoais e espasmos neonazistas.

A legenda, que vive seu auge na política alemã, perto de fazer um governador de estado e se arvorando até a apresentar planos para a União Europeia, confirmou a invasão de um site que hospedava seu sistema e minimizou o ocorrido. Apenas "algumas poucas caixas de email" teriam sido afetadas, declarou um porta-voz.

O pacote, no entanto, reúne mensagens até da colíder da sigla, Alice Weidel. Há uma miríade de materiais sensíveis sendo escrutinados pela imprensa e por ativistas em redes sociais. Extratos bancários, por exemplo, revelam nomes de doadores, tema sensível.

Popular nas urnas, a Alternativa para a Alemanha continua sendo rejeitada pelo establishment. Há duas semanas, por exemplo, a BMW retirou uma oferta de aluguel de veículos ao Parlamento de Saxônia-Anhalt após a Casa eleger um integrante da sigla como presidente.

O conjunto de mensagens espelha de certa forma a controversa trajetória da legenda, iniciada em 2013, durante a crise do euro. O viés eurocético logo abriu espaço para a guinada extremista, notadamente após o advento da política de portas abertas de Angela Merkel, em 2015, e o consequente sentimento anti-imigração.

Entre os muitos episódios relatados nos emails, há uma discussão em torno de um parlamentar nacionalista, Matthias Helferich. O diretório regional no estado de Renânia do Norte-Vestfália elabora um dossiê sobre declarações racistas do deputado, recomendando sua expulsão. No final, ele acaba sofrendo apenas uma suspensão temporária.

Outra lavagem de roupa suja encontrada nas mensagens se refere a Laurens Nothdurft, que fez parte de um grupo neonazista banido em 2009. O diretório da Baviera, dez anos depois, reclama que o funcionário foi encaixado como assessor jurídico no estado.

Sinal dos tempos e da crescente aceitação do partido, Nothdurft agora está cotado para se tornar secretário estadual em Saxônia-Anhalt, que deu quase 44% dos votos à AfD na eleição regional de setembro. Caminha para ser o primeiro governo de extrema direita da Alemanha desde a Segunda Guerra Mundial.

O cotidiano de lidar com espasmos nazistas de integrantes e filiados salta nas mensagens. Em 2025, um dirigente pede a expulsão de um militante que tentou vender uma bandeira com a suástica em uma barraca de campanha por € 40 (R$ 228).

Um ano antes, a saudação em um grupo de WhatsApp, com uma foto de Adolf Hitler anexada, é "o Führer deseja bom dia ao grupo".

O pacote também expõe questões financeiras da AfD. Há mensagens de Weidel, durante as eleições de 2017, lidando com um escândalo de doações ilegais que recaiu sobre o partido. Outra troca de mensagens revela um debate sobre se o fundo partidário poderia ser usado para bancar a defesa jurídica de um dos fundadores da sigla, Alexander Gauland. O parlamentar era processado por injúria racial contra uma integrante do governo federal, de origem turca.

A AfD ensaiou contestar a veracidade das informações, mas logo trocou o argumento, classificando o episódio como "um atentado ao partido e à democracia". A revista Der Spiegel encontrou no pacote solicitações de entrevistas enviadas por seus jornalistas, um forte indício de veracidade.

A publicação, assim como diversos outros órgãos de imprensa da Alemanha, informou que, por interesse jornalístico, está analisando o imenso conteúdo vazado.

Em entrevista a um site especializado em cibersegurança, os supostos hackers envolvidos no ataque declararam que os emails revelarão inúmeras irregularidades financeiras e que o "hacktivismo" é a única resposta à altura do populismo do partido.