Estudo do Inesc sobre as Eleições 2026 aponta desafios na representatividade de mulheres, negros e indígenas, e a hegemonia da direita

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Levantamento exclusivo do Inesc revela que o cenário para a representatividade nas eleições de 2026 é desanimador, apesar de um leve aumento de mulheres e negros. A desigualdade persiste no financiamento de campanhas e na violência política, com partidos de direita dominando as candidaturas.

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O Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) antecipou para a coluna o resultado de um levantamento que fez com o coletivo científico Common Data das candidaturas nestas eleições. O estudo analisa, entre outras coisas, a representatividade, a diversidade e a paridade das candidaturas e foi realizado logo após o término do prazo para registro no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Quem ansiava por mudanças nesse quadro, como eu, se decepcionou. “Também fiquei frustrada”, reconhece, em entrevista exclusiva à coluna, a antropóloga Carmela Zigoni, assessora política no Inesc responsável pelo levantamento. “O cenário não é bom para a representatividade”, diz ela.

De acordo com o levantamento, das 20. 448 candidaturas às Eleições Gerais de 2026, 7. 116 (34,8%) são de mulheres, o que representa um crescimento de 1 ponto percentual na proporção de candidaturas femininas em relação a 2022.

Enquanto para deputada estadual e federal houve um aumento discreto (1,6 ponto percentual e 2,1 pontos percentuais, respectivamente), para senadora ocorreu uma redução de 0,7 ponto percentual em relação às últimas eleições, quando as mulheres representavam 22,7% dos candidatos.

Segundo a especialista, as sucessivas anistias aos partidos políticos que não cumprem as cotas de gênero e de financiamento estão por trás desses números. “Acredito fortemente que esse quadro é fruto da impunidade em relação aos partidos que não cumprem as cotas. Isso vai desestimulando a participação das mulheres”, diz a assessora política no Inesc. “Depois de anos de cotas, chegamos a 30% do Congresso Nacional nas últimas eleições. A mudança está acontecendo, mas de forma muito lenta. Essa questão da representatividade já poderia estar mais superada. ”

RACISMO, VIOLÊNCIA POLÍTICA E SUBFINANCIAMENTO

De acordo com o levantamento, o melhor número é o aumento de candidaturas negras (homens e mulheres) de 35,5% para 49,8%. Já a relação entre mulheres pretas e homens brancos continua “alarmante”: a cada candidatura de mulher preta, há 5,4 homens brancos candidatos, aponta o estudo.

Indígenas e quilombolas também continuam sub-representados. Do total de candidaturas, apenas 0,9% declararam cor/raça como indígena e 1% quilombola. Praticamente metade dessas candidaturas são de mulheres (44% no caso dos indígenas e 48,1% no caso dos quilombolas). “O racismo é muito forte. Ainda existe essa visão retrógrada de que a imagem tem que ser de um homem branco para conseguir voto”, lamenta Carmela Zigoni.

A violência política de gênero e de raça é, segundo ela, outro fator que afasta mulheres e grupos raciais específicos das disputas eleitorais. Apesar de a Lei nº 14. 192/2021 tipificar a violência política de gênero e de raça como crime, protegendo mulheres com mandatos eletivos e candidatas contra assédio, constrangimento, humilhação, perseguição ou ameaça, o volume de casos é imenso, no ambiente virtual ou fora dele, e os mecanismos de coibição desse crime ainda são tímidos, critica a antropóloga.

Em 2025, 175 casos eram acompanhados pelo Ministério Público Federal e, desses, apenas 11% se tornaram processos judiciais, segundo o relatório do Inesc.

O subfinanciamento das campanhas, operadas pelos partidos, e o retrocesso na própria legislação de distribuição de recursos do Fundo Eleitoral e Partidário também desestimulam as candidaturas de mulheres, negros, indígenas e quilombolas.

“Tivemos um crescimento um pouco mais acelerado, em 2018, e de lá para cá estamos tendo uma retração”, aponta Carmela Zigoni. Em 2018, houve, segundo estudo do Inesc, um crescimento de 70% no número de candidatas que se autodeclararam pretas e 23% nas que se autodeclararam pardas em relação a 2014. Um fenômeno que ficou conhecido como efeito Marielle, em referência à vereadora negra Marielle Franco (PSOL-RJ), executada em março de 2018, cuja luta inspirou muitas mulheres a entrarem na política.

Em 2020, o TSE aprovou a divisão dos recursos proporcional ao número de candidatos negros por cada partido. No ano seguinte, em 2021, a Emenda Constitucional nº 111 estabeleceu um incentivo para os partidos, determinando que os votos dados a mulheres e negros para a Câmara dos Deputados contariam em dobro no cálculo para a distribuição de recursos do fundo partidário e do Fundo Especial de Financiamento de Campanha entre os partidos.

Em agosto de 2024, no entanto, houve um retrocesso importante nas regras, segundo a assessora política no Inesc: a redução dos recursos para pessoas negras causada pela retirada da proporcionalidade e fixação de 30% dos recursos do Fundo Especial de Financiamento da Campanha e do fundo partidário destinados às campanhas eleitorais. “Aconteceu o que chamei de ação afirmativa para os brancos”, conta. “Os partidos captam recursos do fundo eleitoral por meio dessas pessoas [negras] e, na hora da repartição, vai para o bolo total do partido, não repassam necessariamente para elas de volta. ” Na prática, o valor sendo fixo e não proporcional reduz o recurso para essas candidaturas.

Resultado: a conta é muito desigual. Homens brancos são os campeões de verbas para financiamento de campanha. “Recebem até dez vezes mais do que uma mulher preta e cinco vezes mais do que os negros em geral”, alerta.

Em 2022, candidaturas de mulheres negras receberam apenas 11,2% do fundo eleitoral, segundo dados do TSE analisados pela Gênero e Número e publicados na plataforma 72 horas, uma iniciativa de especialistas no campo eleitoral, que conta com o apoio de organizações e movimentos sociais. “Precisamos acabar com a impunidade dos partidos que não cumprem as normas relativas a candidaturas de mulheres, indígenas e pessoas negras”, defende a antropóloga.

Como era de se esperar, a violência política de gênero e de raça e o subfinanciamento dessas candidaturas são sentidos no baixo retorno às urnas, tema de outro levantamento inédito do Inesc. A cada dois homens, apenas uma mulher retornou nestas eleições para se candidatar. E a taxa de retorno de homens negros (31%) é o dobro da registrada por mulheres negras (15,5%).

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