Maioria recebe entre R$ 100 e R$ 400 pelo tempo gasto avaliando itens de higiene pessoal e cosméticos

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25.jul.2026 às 13h00

Existe um lugar que Rosa Maria Mesquita Rodrigues, 59, conhece quase tão bem quanto a própria casa: as salas de avaliação da ALS (Australian Laboratory Services), multinacional australiana que realiza testes de produtos de beleza para grandes empresas, como Grupo Boticário, L'Occitane e Pierre Fabre.

Há cerca de 20 anos ela participa da avaliação de itens variados, de xampu a rímel e cremes para pernas cansadas. Rodrigues é uma das participantes mais assíduas da ALS, que todo ano recruta cerca de 30 mil pessoas, por redes sociais ou indicação (95% delas mulheres), para realizar 7.000 testes.

A legislação brasileira impede que se pague pelo teste de produtos no Brasil —mas as empresas de pesquisa concedem um ressarcimento pelo tempo dos "voluntários", como são chamados os participantes, além de bancarem gastos de deslocamento e alimentação.

Na ALS, o valor varia de R$ 100 a R$ 400, em média. Mas há casos excepcionais, mais complexos, em que se paga R$ 4.000 ou até R$ 10 mil pelo tempo dedicado a avaliar um produto.

"Vir até a sede da ALS por 60 dias seguidos, testar os efeitos de um dermocosmético, por exemplo, e ficar aqui por horas, é muito mais trabalhoso do que vir uma vez para testar um hidratante", diz Erlandi Lara Salvador Júnior, diretor geral da ALS Beauty & Personal Care, filial brasileira da ALS, com sede em Campinas (SP).

Segundo ele, os voluntários passam por avaliação médica antes de se submeter às pesquisas. Os nomes e marcas dos produtos são mantidos sob sigilo para garantir opiniões isentas.

Movimentando quase R$ 200 bilhões por ano no Brasil, de acordo com a Euromonitor, o mercado de cosméticos e higiene pessoal deve seguir o Guia para Avaliação de Segurança em Produtos Cosméticos, elaborado pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

A agência classifica os produtos de duas maneiras: grau 1 e grau 2. Para os cosméticos de grau 1, a agência exige da empresa dados básicos como composição, modo de uso, rotulagem e finalidade. Após uma análise preliminar do produto, se todas as informações estiverem corretas, a Anvisa libera a comercialização.

Para os produtos de grau 2, é preciso que o fabricante apresente um dossiê completo com estudos de segurança e eficácia, incluindo avaliação toxicológica, que identifica os riscos de uma substância, e testes clínicos —é neste momento que entram em cena as voluntárias da beleza. Se os produtos atenderem todas as exigências, são liberados para venda.

Antes de irem para os testes clínicos, os produtos já foram avaliados internamente pelos fabricantes, com o uso de pele humana reconstituída (in vitro) ou pele impressa em 3D, a fim de evitar os riscos com voluntárias. Há um ano, foi sancionada no Brasil a Lei nº 15.183, que proíbe testes de cosméticos em animais —mas as grandes empresas já não adotavam a prática há anos, por pressão social.

Segundo Salvador, o índice de não conformidade de produtos nos testes de segurança é muito baixo: menos de 1% causa alguma reação alérgica. Já nos testes de eficácia, cerca de 5% não correspondem à proposta, que pode ser avaliada de três maneiras: resultados autopercebidos (quando a voluntária responde a um questionário); testes com médicos ou técnicos da ALS; e testes com equipamentos.

"Uma voluntária pode perceber bons resultados com um antirrugas, por exemplo, mas o produto não passa no teste do equipamento, que faz a medição em micrômetros e identifica o relevo da ruga", afirma.

No Brasil, o terceiro maior mercado do mundo em beleza e um dos mais disputados (são mais de mil marcas só de xampus), os fabricantes usam os testes nas campanhas de marketing, como diferencial competitivo.

"Os claims [declarações de eficácia] nas embalagens servem para atrair a atenção do consumidor e mostrar como o produto se diferencia da concorrência", diz o executivo. Segundo ele, é comum um fabricante testar tanto a eficácia da sua marca quanto a do seu concorrente.