Cantora celebra o legado do artista em "Chico 2.0" e revela seus próximos passos na música

Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.

São Paulo, 19 de outubro de 2014. A maior cidade da América Latina enfrentava uma das piores crises hídricas de sua história. O país vivia um dos grandes momentos de incertezas e mudanças políticas. Quinze mil pessoas se reuniam no Parque do Ibirapuera para prestigiar a homenagem da Revista Trip aos 70 anos de Chico Buarque. A banda Aláfia sobe ao palco para sua apresentação. E, enquanto a vocalista Xênia França entoava a clássica música Construção, os céus resolveram contrariar todos os meteorologistas para dar uma pausa a uma das maiores secas que atingiram a capital paulista.

Assim nasceu a relação da voz de Xênia com as composições atemporais de Chico. Agora, o público pode conferir mais um capítulo dessa história com o lançamento do álbum Chico 2.0. “Anos depois, ser convidada novamente para participar de uma homenagem ao Chico, depois de ter vivido aquela primeira experiência, ainda que indireta, parece fechar um arco narrativo muito bonito na minha carreira”, conta a cantora.

Ao lado de nomes como Dexter, MC Livinho, MC Cabelinho, Budah, Júlia Mestre, TZ da Coronel, Don L, VANDAL, Tasha & Tracie, Grag Queen, Bela Maria e Maurício Pazz, ela participa do projeto que traz as obras de Chico Buarque em novas leituras, com faixas que transitam por rap, trap, funk, R&B, samba, soul e nova MPB.

“Como artista e como pessoa, é um sonho ser convidada para gravar essas músicas. Saber que, em algum momento, ele ouviu o meu nome já é um grande privilégio”, declara.

Dessa vez, Xênia interpreta as músicas Olê, Olá e Cálice. “Eu nem imaginava como seria, por exemplo, Cálice em uma versão trap. E ficou muito bom. A interpretação do Cabelinho também ficou muito legal. Mas acho que, na hora, acontece alguma coisa em que você entra na música, quase como um rio. A música é um rio, é só entrar nela.”

E, para muitas pessoas, ainda pode surgir o questionamento: com tantos bons compositores atualmente, por que revisitar músicas lançadas há mais de  50 anos? Para esse tipo de pergunta, Xênia traz uma resposta direta.

“É muito importante reverenciar os mestres, cantar aqueles que pavimentaram o chão da nossa cultura e da nossa música. Nos meus discos, sempre regravo alguma música de algum mestre. É importante porque vamos levando essa informação para frente”, pontua.

Para ela, homenagear artistas como Chico Buarque também é uma forma de preservar a memória cultural de um país que, muitas vezes, parece ter dificuldade de olhar para a própria história com a importância que ela merece.

“A força do trabalho deles é tão grande que talvez nem precisasse disso, mas o Brasil é um país que tem uma questão séria com a memória. Por isso, acho muito importante essas iniciativas de revisitar, homenagear e continuar essas obras. É quase um exercício de transformar esses artistas em instituições”, completa.

Mas, se revisitar Chico é uma forma de olhar para os caminhos que já foram abertos na música brasileira, a trajetória de Xênia também fala sobre a coragem de criar um caminho próprio. Ao longo da carreira, a artista construiu uma identidade que não se encaixa com facilidade em fórmulas prontas, transitando por diferentes sonoridades, referências e formatos sem abrir mão de uma assinatura muito particular.

Para ela, esse processo nunca foi simples. “Acho que é um desafio atrás do outro. E os maiores, para mim, são os internos”, reconhece. “De modo geral, todas as pessoas vivem com algum conflito, alguma dessincronicidade interna. Mas existe também uma falta de cartilha, uma falta de bússola. A gente vive em um país em que, para mulheres negras, existem poucas ou quase nenhuma referência de pessoas que conseguiram trilhar o próprio caminho.”

A cantora observa que, no Brasil, ainda são poucas as artistas que conseguem seguir exatamente aquilo que desejam ser, sem precisar se encaixar em clichês ou estereótipos. Por isso, sustentar uma identidade própria também envolve atravessar dúvidas constantes.

“Eu não posso ser hipócrita e dizer: ‘Sempre fui maravilhosa e sempre acreditei em mim’. Acho que a força de quem eu sou vem da própria música. Coloquei meu direcionamento e meu foco nisso, e a força da própria música foi me mostrando o caminho”, revela.

O grande ponto de virada veio quando decidiu assumir a carreira solo e viver da própria música. Carreira essa que já lhe rendeu um Grammy Latino, em 2023, na categoria Melhor Álbum Pop Contemporâneo em Língua Portuguesa, com o seu segundo álbum de estúdio, Em Nome da Estrela, além de outras duas indicações.

“Essa mudança aconteceu porque, a partir dali, estava tudo no meu nome. Eu teria que criar e sustentar essa pessoa, ser minha própria mãe, minha bússola, minha professora. E meu trabalho sempre me mostrou do que eu era capaz”, diz.

Se cada trabalho funciona como um retrato do momento, Xênia já começa a investigar qual imagem deseja construir daqui para frente. Depois de atravessar essas diferentes fases da própria identidade artística, ela olha agora para um território ainda mais íntimo: a feminilidade.

“Eu me considero uma alquimista de mim mesma. Estou sempre muito curiosa sobre mim e nunca estou completamente contente com o lugar em que estou, porque quero continuar melhorando. E não digo necessariamente melhorar como artista, e sim de melhoramento interno, de não sucumbir ao meu próprio caos, à minha própria escuridão, de não me tornar um ser autocondescendente. Quero permitir que o meu melhor acenda e deixar esse potencial que ainda está por vir como prioridade do meu caminho”, compartilha.

Esse mergulho é o que deve atravessar seus próximos trabalhos. “Estou em um processo muito grande de investigação da minha feminilidade, da minha presença neste mundo como mulher, no âmbito do afeto e do erótico. Com todo o acesso à tecnologia, somos testemunhas e também alvos de uma violência contra o feminino”, analisa.

No fim, todo esse trabalho pessoal com a música segue sendo o lugar onde Xênia organiza suas perguntas, atravessa suas inquietações e transforma experiência em linguagem. “Meu trabalho, desde o primeiro disco, vem se definindo dentro dessa ótica existencialista. Meu grande exercício na vida é existir da melhor maneira que consigo”, avalia. “Quanto melhor eu estiver me sentindo comigo, quanto mais conseguir me aceitar e apaziguar esse oceano que existe dentro de mim, melhor vou conseguir me entender e fazer um trabalho que represente quem sou naquele momento”, conclui.