Ex-ministra da Saúde lança livro que reúne memórias e aprendizados da crise da covid-19 e do trabalho de reconstrução do SUS

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Nísia Trindade, ex-ministra da Saúde e presidente da Fiocruz durante a pandemia, compartilha em seu livro “Ainda Há Tempo” memórias e lições de um período crítico. Ela aborda sua gestão, a recuperação do SUS, os avanços na vacinação e na fila de cirurgias, além de debater a preparação do Brasil para futuras pandemias e os desafios da mulher na política.

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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.

Poucas pessoas estiveram tanto no olho do furacão da saúde pública como Nísia Trindade. 

A socióloga carioca de 68 anos esteve à frente da Fiocruz durante a pandemia de covid-19 e, na sequência, assumiu o Ministério da Saúde no governo Lula.

A experiência em um período tão crítico da história recente motivou a pesquisadora – e hoje candidata à deputada federal – a escrever Ainda Há Tempo, livro lançado pela Civilização Brasileira que reúne memórias e lições de uma crise sem precedentes.

A seguir, a autora faz um balanço de sua gestão, explica o trabalho de reconstrução do SUS após o período desastroso de Jair Bolsonaro e analisa quão preparados estaríamos para uma nova pandemia – algo já previsto pelos especialistas.

Com a palavra, Nísia Trindade.

A senhora foi ministra da Saúde de 1º de janeiro de 2023 a 10 de março de 2025. Qual teria sido, em sua avaliação, o maior sucesso à frente da pasta? O primeiro indicador de sucesso foi o aumento da cobertura vacinal. O Brasil figurava entre os 20 países que menos estavam vacinando, segundo os dados de 2022. E, a partir de 2023, lançamos o Movimento Nacional pela Vacinação e atingimos o aumento da cobertura de 15 das 16 vacinas do calendário infantil, além de ter recuperado o certificado de país livre do sarampo. Então, há dados muito concretos que mostram esse sucesso. O segundo movimento que alcançou êxito foi a redução da fila do tempo de espera para cirurgias eletivas. Consegui ampliar para 14 milhões de cirurgias no ano de 2024, realizadas pelo SUS, um recorde histórico.

O que mais avançou? Realizamos a retomada do complexo econômico industrial da saúde, voltado para articular toda a área de produção de vacinas e medicamentos. O Brasil, durante a pandemia, revelou quanto é maléfica essa dependência da importação de produtos de saúde. E nós conseguimos retomar essa política, que hoje é uma estratégia respaldada por uma lei; tornou-se, portanto, uma política de Estado, não só uma política de governo. E nós conseguimos, entre outras importantes realizações, desenvolver a vacina para dengue do Instituto Butantan através de uma parceria para a inovação local e voltar a produzir insulina no Brasil numa parceria entre Fiocruz e Avion. Também construímos outra parceria para desenvolver e transferir a tecnologia da vacina para o vírus sincicial respiratório (VSR), um passo fundamental para o controle da bronquiolite, uma das principais causas de hospitalização em bebês.

Durante o governo Bolsonaro, que coincidiu com a eclosão da pandemia de covid, o Brasil teve quatro ministros da Saúde. Qual a pior herança encontrada no Ministério da Saúde? O Ministério da Saúde estava inteiramente desestruturado e havia perdido a sua condição de coordenador do SUS, que é a sua principal função. Isso é muito grave, uma vez que a pasta coordena, embora a execução das políticas se dá, sobretudo, nos níveis estadual e municipal. Além disso, nós iniciamos o governo com uma emergência sanitária e humanitária por desassistência, numa área em que há responsabilidade direta do Ministério da Saúde e do governo federal, que é a saúde indígena, com a crise entre os yanomami. Também encontramos um programa nacional de imunizações inteiramente fragilizado e a farmácia popular com risco de ser praticamente extinta. A retomada de todas essas ações só foi possível graças ao empenho da minha equipe, sob a coordenação do Ministério da Saúde e o apoio do presidente Lula.

Dos 51 ministros da Saúde que o Brasil já teve, você foi a primeira mulher. Também foi a primeira mulher a presidir a Fiocruz, entre 2017 e 2022. Ao longo da carreira, enfrentou muito machismo e misoginia? Sim, enfrentei muito machismo e misoginia, porque a nossa sociedade é machista e misógina. E é difícil ter mulheres em posições de destaque, mesmo em áreas onde nós somos maioria, como é o caso da saúde, em que há maior número de trabalhadoras, e mesmo de pesquisadoras, a minha área de atuação. Nós vemos claramente essa distorção. É por isso que o feminismo faz parte da agenda da democracia: precisamos ter políticas que favoreçam a equidade até chegarmos à igualdade que precisamos ter. Eu sou muito crítica à frase que diz que a mulher pode ser o que ela quiser. Isso é o nosso desejo, a nossa utopia. Para sermos o que quisermos, é essencial que haja políticas públicas que favoreçam essa conquista.

Daqui a 100 anos, nossos filhos e netos vão falar da pandemia de covid como nós falamos da Gripe Espanhola. Como a senhora acha que, no futuro, vão lembrar da Nísia Trindade? Eu espero que lembrem de mim como alguém que contribuiu para a reconstrução do Sistema Único de Saúde, absolutamente fragilizado durante o governo Bolsonaro e também tensionado pela gestão desastrosa da pandemia no país. Foi por isso, inclusive, que escrevi o livro. Mais do que lembrar de mim, espero que as pessoas não esqueçam que lidar com grandes desafios, como emergências sanitárias, requer vontade política, conhecimento científico e participação social.

Quer dizer que não basta ter recurso financeiro e tecnologia? Um estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS) de 2019 mostrava que um dos países mais preparados para enfrentar uma pandemia seria os Estados Unidos: pela sua possibilidade de produção e desenvolvimento de vacinas e pela sua capacidade de vigilância dado o papel do CDC, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças. No entanto, ele acabou sendo um dos piores países no enfrentamento da pandemia de covid. Isso porque, para controlar uma pandemia, é preciso ter sistemas de saúde fortes e resilientes, e os sistemas universais, como o nosso, são aqueles que fazem isso de forma melhor. E é preciso ter uma orientação política que promova o encontro entre conhecimento científico e medidas de proteç&atild