Há 190 anos, a 9 de Setembro de 1836, ocorreu a revolução que pôs um ponto final no devorismo, essa degenerescência do liberalismo que colocou o património da Igreja ao alcance de quem estava no poder

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E o resto é história.

É a pera com a arte.

Dominando a quadra, ainda na zona do Chiado. E faz um filho, fá-lo por gosto. Ai, vinho vermelho, que ao meu corpo, pobre amor. Quer transformar este país numa ditadura. Atente. Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.

Olá, seja bem-vindo a mais um episódio de "E o Resto é História", com Rui Ramos e João Miguel Tavares. Se o caro ouvinte é daqueles que se queixam de a atividade política tender a formar grupos dominantes que procuram por todos os meios controlar os recursos do Estado, então fique a saber que a sua queixa não tem nada de novo e que há cerca de 200 anos até ganhou um nome próprio: devorismo. O termo devorismo deriva da palavra devorar, não é difícil de adivinhar, e ganhou um sentido pejorativo. Os tais políticos e grupos dominantes saídos da vitória liberal de 1834, após seis anos de guerra civil, eram acusados de devorarem os recursos públicos através da multiplicação de empregos e de negociatas, como se chamam hoje em dia, como se chamavam também na altura, através das quais o Estado beneficiava quem estava no poder. Segundo Oliveira Martins, o grande historiador, o devorismo é especialmente ilustrado pela lei de abril de 1835, que colocou em hasta pública uma grande parte do patrimônio da igreja, facilitando aos líderes liberais e aos seus amigos o acesso, evidentemente, a esse patrimônio. O fim oficial do devorismo ocorreria a 9 de setembro de 1836, com a Revolução de Setembro, que abriria caminho para a revisão constitucional de 1838. Bom, os ouvintes habituais do "E o Resto é História" já saberão por esta altura que o século XIX português, e não só o português, não é nada fácil de compreender, é muito complexo e que é por isso que o Rui Ramos gosta tanto dele.

Gosto de coisas complexas.

Gosta de coisas complexas, Rui.

Mas que dá para se tornar compreensível.

É isso mesmo. Consegue explicar-nos o que é exatamente o devorismo e como é que ele desembocou na Revolução de Setembro, sem que nós próprios sintamos que os nossos cérebros estão a ser devorados pela complexidade desta história, que cumpre agora redondos 190 anos.

É verdade. Então vamos lá tentar explicar o devorismo, mas de modo que toda a gente fique com o cérebro intacto.

Espero que sim, senão o nosso cérebro começa a se queixar, Rui.

Falaste de 1834, o fim da guerra civil entre aqueles a quem nós chamamos liberais e os miguelistas. Os liberais ganham, maio de 1834, Dom Miguel vai para o exílio. Agora, eu disse aqueles a quem nós chamamos liberais, porque aqueles a quem nós chamamos liberais não tinham todos as mesmas ideias, nem formavam uma congregação política harmoniosa. Vou descrever aqui pelo menos três correntes que são importantes para compreender a história do devorismo e depois da Revolução de Setembro. Entre os liberais havia gente, por exemplo, como aquele que vai ser, na altura ainda não era, mas vai ser o Duque de Palmela. E o Duque Palmela estava contra o Dom Miguel, porque achava que em 1826 o rei legítimo de Portugal era Dom Pedro, não era Dom Miguel, e que, portanto, a rainha era Dona Maria II, a filha de Dom Pedro. Palmela também queria respeitar a carta constitucional dada ao país em 1826 por Dom Pedro, porque lhe parecia uma constituição próxima do modelo da monarquia britânica, que Palmela tinha como uma espécie de exemplo ou de ideal, onde o rei tinha grandes poderes a par do Parlamento e onde o Parlamento estava dividido em duas câmaras, uma Câmara dos Pares, onde estavam os aristocratas, e uma Câmara dos Comuns, onde estavam os deputados eleitos pelo país.

Portanto, essa era uma linha.

Portanto, para Palmela, este modelo britânico era extraordinariamente preferível a qualquer outro modelo. Parecia-lhe que era o modelo da carta. Também lhe parecia que Dom Pedro, em 1826, era o rei legítimo de Portugal e por isso estava contra Dom Miguel. Ora bem, havia outra gente que estava contra Dom Miguel por outras razões, como é, por exemplo, aqueles que não queriam exatamente uma monarquia constitucional como a França, mas queriam uma república.

Já havia muitos republicanos na década de 30 do século XIX.

Já havia muitos republicanos na década de 30 do século XIX, só que tinham consciência de que talvez não pudessem ter uma república como a dos Estados Unidos. Mas podiam ter aquilo que eles chamavam uma monarquia republicana, isto é, um regime onde houvesse um rei, mas esse rei não mandasse nada e os poderes estivessem todos no Parlamento. Aliás, eles achavam que esse regime já tinha existido em Portugal e tinha existido em Portugal entre 1820 e 1823, com a Constituição de 1822. Portanto, esta gente tinha como ideal, estes republicanos tinham como ideal a Constituição de 1822 e a tal monarquia republicana. Os seus principais porta-vozes entre os chamados liberais eram dois irmãos do Porto, Manuel da Silva Passos e José da Silva Passos, eram os irmãos Passos, eram de uma família bastante rica, portanto eram muito abastados, e durante a guerra civil eles tinham estado ligados ao general Saldanha e, portanto, às vezes eram conhecidos como saldanhistas. Quer dizer, era o general Saldanha que estava à frente deles. Mas vamos ver, até agora já temos duas correntes.

Dois grupos que ganharam a guerra, mas que não tinham nada a ver uns com os outros.

Os do Palmela e estes dos irmãos Passos à volta de Saldanha, que são conhecidos como saldanhistas. Repare, o que eles têm em comum? A única coisa que eles têm em comum é ser inimigos de Dom Miguel, mas por razões completamente diferentes. Palmela é inimigo de Dom Miguel porque achava que Dom Miguel tinha violado a legitimidade dinástica e não queria uma monarquia como a da Grã-Bretanha. E os Passos eram inimigos de Dom Miguel porque achavam que Dom Miguel não lhes deixava fazer uma monarquia republicana como em 1822.

Não se fica por aqui.

Claro, porque é o século 19.