Ana Paula Maia, finalista do Booker Prize, revela sua escrita peculiar, o processo criativo e o novo livro "O Tenebroso Brilho do Sol"
Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.
Influenciada pelos filmes de faroeste que assistia com o avô, a premiada escritora Ana Paula Maia resume sua literatura como “muito esquisita”. Imagens como porcos abatidos, pistolas e machados são frequentes ao longo da sua obra repleta de cenas “enterrando gente, desenterrando gente, cremando gente”, como disse em entrevista exclusiva à CLAUDIA.
Finalista do Booker Prize, prêmio britânico para literatura traduzida em inglês, com o seu Assim na Terra Como Embaixo da Terra, ela tem agora a sua chamada Saga dos Brutos — composta ainda pelos livros Entre Rinhas de Cachorros e Porcos Abatidos, Carvão Animal e De Gados e Homens — publicada em um box especial pela editora Record.
Nascida em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, ela vive em Curitiba, no Paraná, mas é fascinada pelo Rio Grande do Sul, cenário do seu décimo romance, que lançará no segundo semestre. O Tenebroso Brilho do Sol (Companhia das Letras) é um folk horror que aborda um antigo ritual para os mortos, o “coberta da alma”, em que uma pessoa se veste com as roupas de um ente falecido.
“Gosto do Rio Grande do Sul porque é mais sombrio. É lindo, é mágico, mas ao mesmo tempo tem umas coisas meio soturnas”, explica.
Rabiscando com uma caneta preta enquanto conversava por vídeo com a reportagem e vestindo um moletom com uma imagem de montanhas, a também roteirista (é dela a série Desalma, do Globoplay), recorre inúmeras vezes à imagem para explicar seu processo de escrita: “Para conseguir criar, tenho que subir um pouco. Eu tenho que ir para a montanha”.
CLAUDIA: Você está prestes a lançar um novo livro pela Companhia das Letras. Sobre o que é?
É o primeiro livro situado em um lugar específico, que é o Rio Grande do Sul, no interior. Estou superenvolvida com O Tenebroso Brilho do Sol. É denso. É um folk horror em que trato de uma coisa que tem a ver com o território gaúcho também, a “coberta da alma”. É um rito que pouca gente sabe, preservado na cidade de Osório. Foi trazido pelos imigrantes açorianos. Tanta coisa boa que tem e as pessoas não sabem! Eu fico descobrindo e trazendo para os livros.
CLAUDIA: Uma característica incontornável de sua obra são os personagens que se repetem entre os livros, especialmente Bronco Gil, Edgar Wilson e padre Tomás. Eles se cruzam, surgem em vários livros, têm histórias continuadas. Por que eles persistem?
Porque eles persistem em mim. Os meus personagens me atravessam. Cada um deles é um pedaço de mim, é um alter ego, é um pedacinho da minha essência, da minha alma. Então, alguns passam, mas eu não esqueço deles e outros ficam.
Trabalho hoje em dia com uma trindade que foi se formando. Para mim faz sentido entrar nesse universo místico, porque vejo a literatura assim. É um trabalho esquisito, né? Que função tem a literatura? Se você pensar, é uma função meio estranha. Não é prática. Não é um médico, que te dá um remédio, que te opera.
A literatura tem uma função intimista e mística também. E esses personagens estão comigo há muito tempo. O Edgar Wilson surge no meu segundo romance, vou publicar o décimo. Esses personagens são emanações minhas.
CLAUDIA: Em que dimensão sua esses personagens todos estão refletidos?
Em uma dimensão que não é vista. Minha literatura não trafega por ela. Quando escrevo, vou para um outro lugar, porque acho que a gente vive no porão. A nossa vida, a nossa rotina: acordar, tomar banho, escovar dente, comer, trabalhar, pagar uma conta, se aborrecer no trânsito, perder o ônibus… Isso, para mim, é o porão do mundo.
A gente vive numa colônia penal, ficamos presos aqui, não temos liberdade nenhuma. A gente tem que seguir regras, normas. Você é subjugado por várias coisas. Para conseguir criar, tenho que subir um pouco. Eu tenho que ir para a montanha. Subo para que eu possa ver esse mundo com mais amplitude e aí tenho uma percepção maior.
Completamente. Porque esses personagens vivem dentro de um microcosmos que criei em que as coisas funcionam de um jeito um pouco diferente daqui de fora. Tem coisas que funcionam só ali. Quem sabe aquele mundo não existe de verdade, né? Em algum lugar, em algum outro espaço ou tempo. Mas as coisas funcionam daquele jeito.
O Edgar Wilson é um personagem sobre quem às vezes as pessoas falam assim: “Ele não é um cara bom, mas gosto muito dele” ou “me sinto culpada, me sinto mal por gostar dele”. Ao que digo: “Não se sinta mal”.
A literatura tem um caminho de liberdade, de experimentação. O Edgar Wilson é sombra, Tomás é sombra, Bronco Gil é sombra. Eles vão no lugar mais esquisito. A nossa sombra também se identifica com as outras sombras. E é difícil a gente olhar para ela.
CLAUDIA: Sente alguma cobrança para escrever sobre protagonistas mulheres?
Mais ou menos. Porque eu já estou há muitos anos nessa caminhada e quem já me conhece sabe o que eu faço. Sempre fui assim, sempre fiz essa literatura muito esquisita, que gosta de abater um porco, de pegar uma pistola, de matar alguém na história, de uma faca, de um machado.




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