Ao apoiar o presidente Lula, coletivos judaicos de esquerda ignoram aumento do antissemitismo e crise histórica com Israel.

Por Bruno Sznajderman

Dê de presentePrefira a Gazeta no Google"Cegueira ideológica": ao apoiar Lula, coletivo judaico de esquerda ignora aumento do antissemitismo. (Foto: EFE/EPA/RAMON VAN FLYMEN)Ouça este conteúdo

O coletivo “Judias e Judeus pela Democracia-SP (JJPD-SP)” optou (novamente) por apoiar Lula na disputa presidencial. A manifestação veio em uma petição pública que citou desde receios com “a frágil democracia que construímos no Brasil” até preocupações com os direitos humanos. No entanto, no documento, os militantes ignoraram o real problema que assola os judeus brasileiros: o avanço do antissemitismo no Brasil.

E esse silêncio não parece ser por acaso: segundo especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo, discursos do presidente e posicionamentos do Itamaraty abriram margem para uma campanha extremada contra judeus brasileiros protagonizada por figuras de extrema-esquerda, sobretudo após 7 de outubro de 2023, quando terroristas palestinos invadiram Israel por céu, terra e mar e assassinaram mais de 1.200 pessoas.

Entre as principais declarações e ações que marcaram negativamente a gestão do petista com a comunidade judaica estão a comparação feita por Lula entre a ofensiva israelense na Faixa de Gaza e o extermínio de judeus no Holocausto, a classificação das denúncias de antissemitismo como “vitimismo” e a falta de esforços do governo pela libertação do refém brasileiro Michel Nisembaum, além da retirada do Brasil da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA), entidade intergovernamental dedicada à preservação da memória do Holocausto e ao combate ao antissemitismo.

Embora coletivos judaicos de esquerda pareçam fechar os olhos, líderes da comunidade judaica vêm denunciando, ao longo dos últimos anos, os impactos causados pelas declarações e ações do presidente, que, em última medida, apontam para a legitimação do ódio aos judeus no país.

A Confederação Israelita do Brasil (Conib), instituição representativa da comunidade judaica nacional, classificou, em mais de uma oportunidade, as declarações de Lula como “antissemitas” e já afirmou que posturas do mandatário "provocam um aumento imediato de ataques contra os judeus".

Segundo dados da própria instituição, entre 2022 e 2024, os casos de antissemitismo cresceram 350% no país, tendo seu maior maior pico registrado logo após os atentados do Hamas em Israel. Em outro levantamento da instituição, realizado com 1.427 judeus brasileiros, 86% disseram considerar o antissemitismo um problema no país, e 22% já declararam ter deixado de se identificar como judeus em alguma situação.

Diante disso, uma dúvida legítima vem à cabeça: o que motiva grupos judaicos a apoiarem um presidente reiteradamente criticado por órgãos nacionais e internacionais por declarações consideradas antissemitas e que vão muito além de discordâncias legítimas com o atual governo israelense?

Para o rabino e professor Micha Gamerman, “essas pessoas têm a falsa impressão de que, pelo fato de o povo judeu ter sido sempre oprimido, sempre uma minoria e sempre ter sofrido preconceitos, elas precisam fazer o mesmo em prol de outras minorias. Elas tentam fazer essa analogia, essa aproximação, mas ela não se sustenta".

Ele diz que, sob a justificativa de apoiar grupos considerados oprimidos, esses coletivos acabam por se aproximar de correntes hostis ao próprio povo judeu e aos valores progressistas que afirmam defender.

“Hoje, vemos claramente um grupo de pessoas que quer a destruição de Israel. Estar com elas é defender a destruição do judaísmo e do povo judeu, e essas pessoas [de coletivos judaicos de esquerda] não enxergam isso. Elas se autossabotam e se autoenganam, acreditando que falam em nome da democracia, quando, no fundo, estão falando em nome do extremismo".

No mesmo sentido, Juliana Katz, graduada em filosofia, judia e coordenadora de delegações do Ministério das Relações Exteriores de Israel, também aponta que é "compreensível que muitos judeus tenham uma sensibilidade particular em relação à defesa de outras minorias e grupos vulneráveis", mas reconhece que "como um grupo que se apresenta como representante da comunidade judaica, me parece indispensável que sejam reconhecidas críticas legítimas à política externa de Lula".

"Quando um político faz uma comparação com o Holocausto ou adota uma retórica que muitos judeus consideram ofensiva e perigosa, quem o apoia precisa explicar por que considera esse apoio necessário apesar disso. A crítica não pode ser apenas formal; ela precisa ter consequências políticas", afirma Katz.

No debate público nacional e internacional, o coletivo Judias e Judeus pela Democracia-SP mergulhou nos mais variados assuntos: fez uma defesa estrita do Supremo Tribunal Federal (STF) durante o julgamento da suposta trama golpista, condenou a megaoperação policial no Rio de Janeiro em outubro do ano passado, posicionou-se a favor do reconhecimento da Palestina e apoiou a decisão do Tribunal Penal Internacional (TPI) de emitir um mandado de prisão internacional contra o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, em 2024.

A entidade, que afirma atuar em defesa dos judeus, parece instrumentalizar essa pauta apenas para defender Lula. Em uma de suas manifestações em defesa do presidente, o grupo definiu o petista como um defensor da "justiça, da democracia, da humanidade e da paz".

Mas, na prática, o mandatário mantém proximidade com pessoas e organizações cujas posições contrariam esses princípios. Uma delas é o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que classificou os ataques terroristas do Hamas de 7 de outubro de 2023 como "brava resistência".

Rio de Janeiro (RJ), 15/10/2023 - Comunidade judaica faz caminhada em apoio a Israel, pela orla de Copacabana. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)Seu governo também manteve relações com figuras extremistas, como Sayid Tenório, militante comunista que chegou a ser recebido por órgãos ministeriais mesmo após zombar de uma vítima do Hamas. Na ocasião, diante da imagem de uma refém judia amarrada e com manchas de sangue na altura das nádegas, Tenório havia debochado: “Isso é marca de merda. Se achou nas calças.”

Extremista demitido por zombar de vítima do Hamas é recebido na Fundação PalmaresNo entorno do Partido dos Trabalhadores, José Genoino, um dos fundadores e ex-presidente da sigla, defendeu o "boicote à empresa de judeus", em janeiro do ano passado. Um mês após a fala na internet, a Justiça deu 48h para a retirada do vídeo.

Hoje, Genoino é afagado pelo presidente Lula, que, em agosto do ano passado, defendeu que o ex-deputado federal voltasse a integrar a direção nacional do PT.