Apostas retiram entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da economia do país, devido à redução do consumo, calcula pesquisador da UFRJ. Associações representativas das bets questionam estudo.
Role, Da BBC News Brasil em São PauloPublished 24 agosto 2026Tempo de leitura: 8 minCarregandoCarregandoAlém dos riscos de vício, impactos sobre a saúde e sobre o endividamento e a situação financeira de milhares de brasileiros, as apostas têm um efeito maior, que ultrapassa suas consequências sobre o orçamento doméstico das famílias.
Para mensurar esse efeito, o economista Guilherme Klein, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisador do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da Universidade de São Paulo (Made-USP), calculou o impacto das bets sobre o Produto Interno Bruto (PIB, soma de bens e serviços produzidos pelo país), a arrecadação do governo e a desigualdade.
Segundo o estudo inédito, as apostas retiraram entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da atividade econômica brasileira em 2025, o que equivale a cerca de 0,9% a 1,1% do PIB daquele ano.
"Para dimensionar essa magnitude, a perda estimada corresponde a algo entre 40% e 50% de todo o crescimento da economia em 2025 [que foi de 2,3%] e é cerca de cinco vezes maior que estimativas do impacto do tarifaço americano sobre o PIB brasileiro", compara Klein, no estudo.
Em setembro de 2025, a Secretaria de Política Econômica (SPE) do Ministério da Fazenda estimou o potencial impacto da tarifa de importação de 50% imposta pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros em 0,2 ponto percentual do PIB entre agosto daquele ano o final de 2026.
Em julho, esse tarifaço foi prorrogado por mais um ano e os EUA anunciaram tarifas adicionais de 25% e 12,5% neste ano.
A Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) e o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), entidades representativas do setor de bets, reconhecem "a importância de aprofundar o debate sobre os impactos econômicos e sociais das apostas", mas afirmam que os resultados "devem ser interpretados com cautela".
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Para calcular o efeito das bets sobre o PIB, Klein parte de uma estimativa de transferência líquida de recursos das famílias para as plataformas de apostas.
"Estamos falando basicamente da diferença entre o que é gasto pelas famílias em apostas e o que elas recebem de volta", diz o economista.
"Porque, pela própria natureza do jogo, obviamente o que as pessoas vão receber, em média, é menor do que o que elas pagam."
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Um estudo recente do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda, Finanças, Receita ou Tributação dos Estados e do Distrito Federal (Comsefaz), com base em estatísticas de pagamentos do Banco Central, estima essa transferência líquida de recursos em R$ 62,5 bilhões em 2025.
Esse valor importa, explica Klein, porque cada R$ 1 "perdido" para apostas representa menos dinheiro disponível para o consumo.
A partir desse dado, o pesquisador busca estimar como essa transferência de recursos está distribuída entre as diferentes faixas de renda.
"As pessoas de renda menor gastam proporcionalmente mais da renda delas com consumo", observa Klein.
"Porque a pessoa que ganha pouco acaba tendo que gastar tudo com aluguel, alimentação, vestuário e assim por diante. Então, levamos isso em conta para entender esse efeito agregado."
Com base em outras pesquisas já publicadas, o economista constrói então dois cenários: um em que a maior parte do gasto com apostas vem da faixa de menor renda (até 2 salários mínimos, ou R$ 3.036 em 2025), e outro em que o gasto é mais concentrado nas faixas de renda mais alta.
De posse desses dois cenários, o economista aplica um multiplicador — uma estimativa de quanto R$ 1 a mais ou a menos no bolso das famílias se converte em mais ou menos consumo na economia.




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