Bandeira ainda carrega status, mas a pontuação e os benefícios levantam dúvidas sobre os objetivos da marca no país

A American Express construiu sua reputação no mercado de cartões de crédito em torno de exclusividade, prestígio e serviços diferenciados. No Brasil, porém, o peso da marca não garante o melhor retorno aos clientes há muitos anos. A pontuação, as anuidades e as condições de acesso os tornam cada vez menos atraentes e levantam dúvidas sobre a capacidade da bandeira de competir com Visa  e  Mastercard.

A análise dos cartões da Amex mostra como a imagem de luxo pode sobreviver mesmo quando os números deixam a desejar.

Os produtos de entrada têm dificuldade para justificar a própria existência no mercado brasileiro, enquanto o principal cartão premium oferece uma pontuação pouco competitiva e limitações no acesso a salas VIP em aeroportos. O Centurion, por sua vez, preserva a exclusividade da marca, mas atende a um público restrito demais para resolver os problemas dos demais produtos.

O American Express Green oferece uma recompensa pífia em troca da fidelidade do cliente. Um ponto por dólar gasto é pouco para um cartão que precisa disputar espaço com concorrentes que oferecem pontuações superiores e benefícios adicionais. A ausência de um limite preestabelecido de compras — característica da Amex — é sempre um problema, e a validade indeterminada dos pontos é interessante, mas insuficiente para compensar a falta de vantagens competitivas.

O Gold melhora a pontuação, mas continua sem apresentar um diferencial convincente. Para alcançar 1,5 ponto por dólar em compras nacionais, o cliente precisa gastar pelo menos R$ 2.500 por mês. Mesmo na faixa máxima, o cartão acumula menos pontos que o The Platinum Card.

A diferença aumenta nas compras internacionais, nas quais o Gold oferece 1,8 ponto por dólar, ante 3 pontos do produto superior. Por que, então, escolher o Gold se um Nubank Ultravioleta ou C6 Carbon já entregam muito mais?

A comparação com os Estados Unidos ajuda a entender o tamanho do problema brasileiro. Lá, a American Express construiu propostas mais diferenciadas para os cartões pessoais. O Green oferece três pontos por dólar em restaurantes, transporte e viagens. O Gold acumula quatro pontos em restaurantes no mundo todo e em supermercados americanos, além de oferecer pontuação adicional em determinadas despesas de viagem. O Platinum concentra sua proposta em viagens, com cinco pontos por dólar em passagens aéreas elegíveis e hotéis pré-pagos reservados pelo portal da empresa, além de uma ampla rede de salas VIP.

Essa divisão dá aos produtos funções mais claras. O Gold americano recompensa despesas recorrentes com alimentação, enquanto o Platinum privilegia quem viaja com frequência e consegue aproveitar seus benefícios. O Green também tem uma proposta identificável, com pontuação reforçada em transporte, restaurantes e viagens. A própria Amex posiciona seus cartões de acordo com esses diferentes perfis de consumo.

No Brasil, inexiste essa diferenciação. O Green entrega uma pontuação básica, enquanto o Gold melhora o acúmulo sem reproduzir a vantagem oferecida pelo produto americano em categorias específicas de consumo. Os cartões não precisam ter regras idênticas em todos os países, mas a comparação expõe uma diferença comercial relevante: nos Estados Unidos, cada produto tem uma proposta mais definida; no Brasil, Green e Gold dependem muito mais do nome estampado no cartão do que de vantagens concretas.

Há também uma diferença estrutural. Nos Estados Unidos, a American Express atua diretamente como emissora e bandeira de seus cartões pessoais. No Brasil, os cartões analisados são emitidos pelo Bradesco  sob licença da marca. Essa distinção ajuda a compreender os modelos de operação, mas não elimina a questão central: o consumidor brasileiro recebe uma proposta de valor competitiva ou paga pelo prestígio de uma marca que entrega menos do que poderia?

O The Platinum Card é o produto que mais poderia fazer brilhar os olhos dos clientes de alta renda, mas oferece uma pontuação comum entre cartões considerados intermediários no mercado: 2,2 pontos por dólar em compras nacionais e 3 pontos no exterior.

Para um cartão destinado a um público com renda mensal em torno de R$ 20 mil, há alternativas mais competitivas. Hoje, Bradesco e Amex oferecem poucos diferenciais capazes de tornar o The Platinum Card uma escolha atraente diante dos concorrentes. A pontuação nacional é tímida para a categoria, enquanto os 3 pontos por dólar no exterior representam uma taxa no limite do aceitável, mas insuficiente para transformar o cartão em referência no segmento premium.

O produto pode ser interessante para quem viaja ao exterior com frequência, sobretudo para a América do Norte, graças ao acesso às salas VIP próprias da Amex em aeroportos. No Brasil, também permite utilizar lounges da rede Bradesco Cartões e espaços selecionados da W Premium Lounges.

O acesso a salas VIP se tornou um dos principais atrativos dos cartões premium. Nesse quesito, o TPC fica atrás de concorrentes que oferecem acessos ilimitados a determinadas redes de lounges, conforme as condições de cada emissor. Apenas a versão metálica do cartão inclui dois acessos gratuitos por ano à rede Priority Pass, sem oferecer pontuação superior à versão convencional.

Cartões como Caixa Ícone, BB Altus Liv, Santander Unlimited e Itaú Personnalité The One também disputam esse público com propostas de acesso a salas VIP mais amplas. 

O The Platinum Card ainda pode compensar para quem aproveita os benefícios de viagem, utiliza os lounges disponíveis e usufrui dos serviços associados à bandeira. Para quem prioriza o acúmulo de pontos ou procura maior liberdade de acesso a salas VIP, entretanto, o cartão tem dificuldade para justificar sua posição. O nome Platinum sugere uma experiência superior, mas a pontuação e as limitações dos benefícios não acompanham essa expectativa.

O Centurion é o cartão que melhor representa a imagem de exclusividade cultivada pela American Express. Restrito a clientes de altíssimo patrimônio e oferecido mediante convite, ele acumula 5 pontos por dólar gasto no Brasil e 7 pontos no exterior. A transferência de pontos para companhias aéreas e redes hoteleiras na proporção de 1:1 também constitui um diferencial importante.

O cartão oferece acesso ilimitado às salas VIP da rede Priority Pass, com direito a até 12 acompanhantes por visita, além dos lounges próprios da American Express e dos espaços elegíveis do Bradesco. A pontuação e os benefícios ajudam a sustentar uma proposta voltada a clientes que movimentam valores elevados e valorizam serviços personalizados.

Contudo, o Centurion pertence a outra categoria de produto. Sua proposta atende a um público para o qual exclusividade, conveniência e atendimento diferenciado costumam ter peso maior do que o custo anual. 

O Centurion, portanto, não serve de justificativa para as fragilidades do restante da linha. Sua pontuação superior não resolve o problema do Green e do Gold, assim como seus benefícios não eliminam as limitações do The Platinum Card. A American Express consegue preservar uma imagem de luxo entre clientes de altíssimo patrimônio, mas isso não significa que seus demais produtos sejam competitivos.