Aquilo que é hoje óbvio não o foi durante séculos: quando começámos a aprender a ler e escrever; como foram evoluindo os níveis de literacia; e quando teve início o esforço de alfabetização geral?

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E o resto é história. É apenas pomba. Do incêndio em Poiava, ainda na zona dos Chiados. Que faz um filho Falo por gosto É que eu ai, vinho vermelho Troco de corte, pouco de amor Quer transformar este país numa ditadura. Entende? Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.

Olá, seja bem-vindo a mais um episódio de "E o Resto é História" com Rui Ramos e João Miguel Tavares. O ouvinte João Távora enviou-nos uma pergunta sobre o papel da Primeira República no desenvolvimento do ensino e na sua democratização em Portugal. Ele diz que há estudos contraditórios sobre esta matéria, com uns a defenderem que naqueles anos o regime promoveu grandes progressos e outros a afirmar, pelo contrário, que se deu uma estagnação. O João Távora gostava, evidentemente, de saber qual destas visões é a mais correta. Mas Rui, o tema é tão interessante que talvez pudéssemos alargar um pouco o âmbito da pergunta, porque penso que este é um assunto que nunca abordamos de forma direta no programa. E portanto, sem te esqueceres, evidentemente, das dúvidas do João Távora, eu gostava de te colocar uma questão que desconfio que talvez seja mais fácil de fazer do que responder. Como é que os portugueses aprenderam a ler e a escrever? E de que forma é que os níveis de literacia foram evoluindo ao longo da nossa história? E quando é que, já agora, teve início este esforço generalizado de alfabetizar toda a população portuguesa? Foi só na Primeira República?

Não foi. E não foi de todo. Bem, vamos começar por enquadrar o problema, que antigamente se chamava o problema do analfabetismo em Portugal.

Já teve mesmo um nome.

Já houve um problema mesmo.

Se alguma coisa distinguiu a sociedade portuguesa nos últimos 200 anos em relação às outras sociedades da Europa Ocidental, foi o elevado nível de analfabetismo. Nós sabemos que Portugal fica na zona mais analfabeta da Europa Ocidental, que é o sul, a Europa do Sul, que foi sempre mais analfabeta do que a Europa do Norte, mas mesmo na Europa do Sul, já com níveis de analfabetismo grandes em relação à Europa do Norte, Portugal conseguia ser mais analfabeto do que a Espanha, do que a Itália, do que a Grécia. Por exemplo, em 1980, Portugal ainda tinha 17% de adultos analfabetos e a Grécia, que era o segundo país mais analfabeto da Europa Ocidental, tinha 6,8%.

Isso é quase três vezes menos.

Portanto, estávamos no topo da Europa no que diz respeito ao analfabetismo.

Se quiseres inverter a hierarquia e pôr os que estavam no fundo no topo, estávamos no topo.

Ao nível de analfabetismo, éramos os primeiros.

E na década de 20, no fim da Primeira República, 66% dos portugueses ainda não sabiam ler e escrever.

Portanto, está há 100 anos.

A taxa de analfabetismo mais alta da Europa Ocidental e a resposta à primeira dúvida do João Távora é que não a Primeira República, que só durou 16 anos, os vários governos da Primeira República, nunca foi sempre o mesmo regime, houve ali uns intervalos, já falamos aqui disso, mas os governos da Primeira República não resolveram de modo nenhum o problema do analfabetismo. Aliás, foi uma das épocas dos últimos 150 anos em que temos meios para controlar a evolução do analfabetismo, foi uma das épocas em que o analfabetismo menos desceu em Portugal. Portanto, a da Primeira República. Agora, a primeira questão que se pode colocar é: como é que se explica este elevado analfabetismo português? E para perceber isso, temos também que perceber como é que foi feita e que fatores estimularam a massificação da leitura e da escrita na Europa, sobretudo desde o século XVI. Essa massificação da leitura e da escrita, a partilha pela população em geral destas competências que anteriormente eram quase técnicas, eram quase de clérigos, gente que estava associada à escrita e não eram geralmente partilhadas por toda a sociedade. A partir do século XVI, essa massificação da leitura e da escrita não tem a ver com o objetivo de dotar as populações de técnicas que valessem em si, isto é, dizer: "É bom saber ler e escrever, vamos ensinar as pessoas a saber ler e escrever", mas é um meio de integrar as populações, primeiro nas igrejas e depois no Estado. A massificação das técnicas de ler e escrever vem resultado de um outro objetivo, de um outro processo, que é de integração das populações, primeiro nas igrejas e depois no Estado.

E nesse aspeto, a Reforma Protestante foi fundamental, não é?

No norte da Europa. A alfabetização esteve associada à Reforma Protestante e à ênfase que os protestantes puseram no acesso direto à palavra escrita de Deus, isto é, à Bíblia, como meio de quase salvação. É uma alfabetização Muito diferente daquela que nós vamos conhecer nos séculos XIX e XX. É uma alfabetização sem escolas, é na igreja que se faz isso.

Quando diz sem escolas, sem edifícios escolares e sem uma estrutura...

Sem um sistema escolar. É a igreja que faz essa alfabetização, é dentro da igreja, na catequese, é parte da catequese. E é uma alfabetização que hoje diríamos extraordinariamente pobre. Basicamente, é aprender a ler ou recitar determinados textos bíblicos. É isso que as pessoas sabem. Por vezes sabem ler, mas não sabem escrever, porque ninguém lhes ensinou a escrever. Isto no Norte da Europa, por exemplo, na Escandinávia. Há aí uma primeira base da alfabetização que acontece no Norte a partir do século XVI, sobretudo no século XVII e XVIII, e associada à reforma protestante. Depois há uma segunda vaga de alfabetização, essa aí mais geral à Europa e abrange a Europa do Sul. Estamos a falar sempre da Europa Ocidental, o caso da Europa Oriental é especial, não vou agora focar-me nele. Na Europa do Sul há uma segunda vaga de alfabetização que é feita pelos Estados, os Estados Nacionais no século XIX, com dois objetivos.

Só já no século XIX. Estás a dar um salto gigante.

Não, não estou. Estou a dizer que era no século XVII, XVIII, no Norte da Europa e agora no século XIX, no Sul da Europa.