Kirill Petrenko conduz a orquestra com rigor, energia e carisma
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Bastou o ataque inicial do "Concerto para piano nº1" de Brahms como assinatura: a célebre frase nos violinos e cellos, urgente e carregada, sobre a nota ré grave sustentada e o trinado dos tímpanos, soou coesa e escura: foi como se houvesse uma "capa" protegendo todo o espaço sonoro, onde cada instrumento ocupava um lugar exato. Após 26 anos a Orquestra Filarmônica de Berlim voltou a soar no Brasil.
Trazida pela temporada de concertos internacionais Tucca - Música pela Cura, o espetáculo de domingo (18) na Sala São Paulo –assim como o desta segunda-feira (19)– terá toda a renda revertida para o tratamento de crianças com câncer, nestes que têm sido anunciados como "os maiores concertos filantrópicos do país".
Obviamente assistir a uma apresentação de uma das mais importantes orquestras de toda a tradição musical ocidental, e que carrega consigo uma história centenária modelar de excelência, deveria ser, em si, a garantia de um bom espetáculo; não é certeza, porém, de que o "jogo já estaria decidido". De fato, na vinda a São Paulo há dez anos da Filarmônica de Viena –agrupamento do mesmo quilate– certas obras não foram interpretadas com o acabamento esperado, como se maestro e orquestra não tivessem se dedicado de corpo e alma à preparação da turnê na América do Sul.
Este definitivamente não é o caso da Filarmônica de Berlim nesta temporada. O grupo veio com o seu maestro titular, o russo-austríaco Kirill Petrenko, e mostrou engajamento, concentração e entusiasmo do início ao fim. Petrenko assumiu a titularidade da orquestra em 2019 após um período de 16 anos em que o grupo teve a condução do britânico Simon Rattle. Foi com o antecessor de Rattle, o italiano Claudio Abbado, que a orquestra havia tocado no ano 2000 no Theatro Municipal de São Paulo.
O "Concerto" de Brahms teve como solista de piano o islandês Vikingur Ólafsson, que foi solista da Osesp (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo) em 2024, ocasião em que também apresentou um recital com as "Variações Goldberg" de Bach, compositor que é uma de suas especialidades.
Tendo a qualidade da orquestra alemã para interagir, o pianista pode desfilar cada detalhe de suas ideias musicais. Deu ao segundo tema do primeiro movimento sua característica schumanniana, e foi tão longe quanto possível nas camadas de pianos e pianíssimos, leveza que era respondida pela orquestra sem qualquer perda de homogeneidade e distinção.
Parece que, para Ólafsson, Brahms, ele mesmo, ia se libertando do passado de Schumann e Beethoven, e encontrava o seu estilo pianístico pleno no segundo movimento –um dos pontos altos da noite. Já no "Rondó" final, Petrenko –que antes de assumir Berlim era regente da Ópera Estatal da Baviera, em Munique– tratou as figuras sonoras como personagens de uma história.
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Cerca de trinta anos mais jovem do que Brahms, Richard Strauss, autor abordado depois do intervalo, distanciou-se da música absoluta –a imersão total na linguagem pura dos sons– na direção da fusão entre as artes, cultivando, na esteira de Liszt, a forma do poema sinfônico.
Utilizando-se de inspiração sobretudo literária, os poemas sinfônicos procuram recriar sonoramente –e com independência criativa– obras com as quais dialogam. No caso do "Assim falou Zaratustra" op.30, cuja "Introdução" foi utilizada na abertura do filme "2001: Uma Odisseia no Espaço" (1968), de Stanley Kubrick, Strauss usou como modelo o livro homônimo do filósofo Friedrich Nietzsche.
No "Zaratustra", peça para grande orquestra, o som da Filarmônica de Berlim já era capaz de fortíssimos poderosos, mas sem nunca perder sua aura arredondada de sustentação.
Petrenko rege admiravelmente, e consegue ser carismático sem fazer cena. Em 2023, após um concerto com orquestra, coro e solistas em Berlim –em sua casa, perante o público de sua cidade–, a plateia não parou de aplaudir até que, após a orquestra já ter saído do palco, ele voltasse sozinho para agradecer mais uma vez. Os músicos, visivelmente, tocam com empolgação perante sua condução de "coração pegando fogo e cabeça fria".
Após o fugato que conecta a passagem "Da ciência" com "O convalescente", seção inspirada no 13º discurso da terceira parte do livro de Nietzsche, em que Zaratustra cai estatelado como um morto por sete dias, o efeito das madeiras pareceu de extrema modernidade: as notas são originais de Strauss, mas a interpretação sugere estilos da música pós-tonal contemporânea, com o seu característico mergulho na estrutura da onda sonora. De volta à Brahms, o bis no domingo foi uma esplendorosa "Dança Húngara nº1.




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