Com a internet, artistas do interior ampliaram o alcance de suas músicas, mas ainda enfrentam desafios para transformar visibilidade em uma carreira

Com o fim do Rock in Rio, artistas de diferentes partes do país ganharam espaço nos palcos de um dos maiores festivais de música do mundo. A dimensão do evento também recoloca em discussão uma questão que acompanha músicos que estão fora dos grandes centros: é possível construir uma carreira nacional sem sair do interior?

Durante décadas, estar longe de cidades como São Paulo e Rio de Janeiro significava também estar distante de uma parte importante da indústria musical. Gravadoras, grandes estúdios, produtores, veículos especializados, festivais e profissionais responsáveis por conectar artistas ao mercado estavam, em grande medida, concentrados nesses centros. Dados da Pró-Música Brasil apontam que 30% das gravadoras do país estão em São Paulo, evidenciando como o mercado permanece concentrado.

Para quem começa uma carreira em uma cidade do interior, essa distância pode representar menos oportunidades de contato, circulação e visibilidade.

Mas a transformação tecnológica das últimas décadas alterou parte dessa lógica. Hoje, uma música pode ser produzida em uma cidade de médio porte, chegar às plataformas digitais em poucos cliques e alcançar ouvintes em diferentes regiões do Brasil e até fora dele.

A mudança é significativa, mas não significa que as barreiras desapareceram.

O streaming ocupa papel central nesse novo cenário. As plataformas digitais deixaram de ser apenas uma alternativa de distribuição e passaram a integrar a própria estratégia de lançamento de artistas independentes.

Uma música produzida no interior não precisa mais, necessariamente, passar primeiro por São Paulo ou Rio de Janeiro para encontrar seu público.

Os números ajudam a dimensionar o tamanho desse mercado. Segundo dados da Pró-Música Brasil divulgados pela Agência Brasil, o mercado fonográfico brasileiro faturou R$ 3,958 bilhões em 2025, crescimento de 14,1% em relação ao ano anterior.

O resultado colocou o Brasil na 8ª posição entre os maiores mercados de música gravada do mundo, segundo o ranking da Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI).

As receitas digitais chegaram a R$ 3,4 bilhões, alta de 13,2% na comparação com 2024. Segundo Paulo Rosa, presidente da Pró-Música Brasil, o streaming responde por cerca de 83% das receitas do mercado fonográfico brasileiro nos últimos cinco ou seis anos.

Os números mostram que existe um mercado cada vez mais digital e que o acesso à distribuição foi ampliado. Mas existe uma diferença importante entre ser ouvido e construir uma carreira.

É justamente essa diferença que aparece na experiência de duas bandas de Juiz de Fora, em Minas Gerais, que seguem caminhos distintos dentro da música: a Nextage, ligada ao pop, e a Purple Lips, que aposta no rock.

Formada em Juiz de Fora por Borssatt, Cadu, Izzy e Rayo, a Nextage surgiu a partir do concurso de talentos JF Tem Estrela e aposta no pop, dialogando com referências das boybands e da música pop contemporânea.

Para o grupo, estar no interior ainda representa uma dificuldade concreta. A banda reconhece que cidades como Rio de Janeiro e São Paulo concentram uma rede maior de profissionais e oportunidades.

Ao mesmo tempo, os integrantes não enxergam a distância como uma barreira definitiva. Segundo a banda, Juiz de Fora vive um momento de crescimento cultural, com novas oportunidades para músicos e uma expansão do número de estúdios.

A percepção da banda revela uma mudança importante: o interior ainda pode limitar determinadas oportunidades, mas deixou de ser sinônimo de isolamento. A produção pode acontecer localmente, enquanto a divulgação e a distribuição ultrapassam as fronteiras da cidade.

Existe, porém, outro obstáculo menos visível: a própria percepção de quem está começando.

Segundo a Nextage, a concentração histórica de artistas conhecidos em São Paulo e no Rio de Janeiro contribuiu para criar, entre novos músicos, a sensação de que o sucesso necessariamente está em outro lugar.

A banda, entretanto, vê Juiz de Fora como um ponto de partida. Para os integrantes, fortalecer a produção cultural local também pode contribuir para formar público e criar um ambiente mais favorável para novos artistas.

A ideia não é ignorar os grandes centros. Pelo contrário. A Nextage pretende circular por outras capitais e ampliar sua presença nacional, mas sem tratar a mudança de cidade como uma condição obrigatória para começar ou consolidar um projeto.