Depois de um período movimentado de fusões e aquisições, profissionalização das operações acelerada pela entrada de capital estrangeiro, verticalização e consolidação de grupos, o setor de hospitais privados no Brasil enfrenta mais um desafio: a busca por mai…
Depois de um período movimentado de fusões e aquisições, profissionalização das operações acelerada pela entrada de capital estrangeiro, verticalização e consolidação de grupos, o setor de hospitais privados no Brasil enfrenta mais um desafio: a busca por maior eficiência e sustentabilidade das operações. A adoção de novas tecnologias e a criação de canais de receita têm sido o foco.
“O cenário dos hospitais privados é de ambidestria”, afirma Daniel Greca, diretor de inovação e saúde populacional do Hospital Sírio-Libanês. “Como sustentar e manter o que nos trouxe até aqui com um olhar maior para a eficiência, preservando a qualidade de assistência ao paciente, e como se preparar para o futuro diante das inovações.”
No ecossistema de saúde do Sírio-Libanês, que integra assistência diagnóstica, ensino e pesquisa e frente filantrópica, a proposta é conectar o novo como extensão do negócio principal. Assim, o hospital criou há dois anos o Escritório de Valor em Saúde, que reforça a governança ao conectar resultados clínicos, experiência do paciente e eficiência de custos, de modo a reduzir desperdícios e apoiar a sustentabilidade financeira. “Em 12 meses, a iniciativa registrou um custo evitado de R$ 15 milhões”, diz Greca. A fim de fortalecer a cultura da inovação, deu voz aos cerca de dez mil colaboradores através do Programa Impulso, iniciativa de intraempreendedorismo que estimula a criação de soluções práticas. É o caso do algoritmo de broncoaspiração, um dos projetos escolhidos em 2026, que está sendo escalado.
Com unidades na Bela Vista e Itaim, em São Paulo, e também em Brasília, além de centros de diagnósticos e de especialidades, o Sírio-Libanês se prepara para até março de 2027 inaugurar nova unidade no Morumbi (em São Paulo), que reunirá pronto atendimento, centros de diagnóstico por imagem, oncologia, cardiologia e núcleo de especialidades médicas. “Sucesso na saúde não é volume. É fazer o que a ciência manda, o que o mercado compra e o que o paciente engaja”, afirma Greca.
Maior ecossistema de saúde da América Latina, integrando assistência pública e privada, ensino e pesquisa, o Einstein Hospital Israelita é o retrato da transformação do setor nas últimas décadas. Até o fim dos anos 1990 tinha um único hospital. Nos anos 2000, abriu unidades avançadas, que somam uma dezena. Em 2021, iniciou a parceria público-privada, mais tarde investiu na unidade de medicina esportiva e na adoção de procedimentos de coleta de exames na casa do paciente. “Hoje, temos mais leitos públicos (dois mil) nos nove hospitais que administramos do que no particular (750)”, afirma Eliézer Silva, diretor-executivo de sistemas de saúde do Einstein.
Ele diz que o Einstein investe na qualificação, tendo como pilares sólidos a educação e a inovação. O ecossistema inclui laboratório para desenvolver novos produtos e serviços para o setor; aceleradora de startups, na qual 150 empresas foram incubadas e investidas; escritório de validação e incorporação de tecnologias, além de um braço de educação, com oito cursos de graduação, residência médica e MBA. O diretor informa que em 2027 será inaugurado o Centro de Terapia Avançada em Oncologia e Hematologia “com o propósito de redefinir como o câncer será prevenido, diagnosticado, tratado e acompanhado com uma jornada de cuidado humanizado e integral”. Serão 181 leitos, dez salas de cirurgia, sendo duas para intervenções robóticas e uma híbrida, e quatro bunkers de radioterapia — investimento que superou R$ 1 bilhão.
Diversificar canais de receita, seja pela oferta de serviços de medicina diagnóstica e consultas ambulatoriais, seja pela via de educação, se transformou em estratégia para garantir sustentabilidade financeira. A escolha do Hospital Alemão Oswaldo Cruz recaiu sobre as parcerias e ganhos de eficiência em pesquisas. “Temos em torno de cem projetos com parceiros como a indústria farmacêutica e praticamente o mesmo volume em análise”, diz José Marcelo de Oliveira, diretor-presidente do Hospital Oswaldo Cruz. “Hoje, 90% da receita vem da assistência, 8% da pesquisa e 2% da educação.”
Inaugurada em outubro de 2025, a nova unidade de pronto atendimento — com investimento de R$ 30 milhões — exemplifica como o Oswaldo Cruz direciona seus esforços. “Além de dobrar a capacidade de atendimento, inova em fluxo, processos e tecnologia, permitindo que mais de 90% das demandas de diagnóstico sejam resolvidas no próprio local, com tempos de espera abaixo de uma hora para casos de baixa complexidade”, diz Oliveira. Segundo ele, entre 2024 e 2025 foram investidos R$ 100 milhões em infraestrutura e equipamentos médicos, principalmente robótica e imagem. Para 2026, a projeção é aportar entre R$ 55 milhões e R$ 60 milhões.
Único hospital fora do eixo Rio-São Paulo integrante do Proadi-SUS, o Hospital Moinhos de Vento, de Porto Alegre (RS), atravessa um dos maiores ciclos de expansão da sua história centenária. “O movimento é sustentado pela integração entre assistência, educação, pesquisa, inovação e tecnologia”, afirma o CEO do Moinhos de Vento, Mohamed Parrini. “Inauguramos o Hospital do Coração em agosto do ano passado, com mais de 6.500 metros quadrados de área e investimentos de R$ 190 milhões.” Após uma década de preparação, foi implantada a Faculdade de Medicina, com aporte de R$ 25 milhões. Para o próximo triênio, a instituição projeta alocar R$ 250 milhões na construção de torre dedicada à educação. “A expansão dará suporte à consolidação do hospital como centro universitário, ampliando as áreas de ensino, pesquisa e profissionais da saúde”, diz Parrini.
Dados da Pesquisa Anahp revelam que os hospitais privados investiram R$ 3,7 bilhões em 2025 — o equivalente a 7% da receita bruta, que bateu R$ 52,86 bilhões. Dos pouco mais de 7.400 hospitais do país, 63% são particulares, englobando instituições com fins lucrativos e entidades filantrópicas. “A pesquisa reflete a disposição em investir menos na expansão de leitos e mais em infraestrutura e tecnologia para ganhar eficiência operacional, otimizar o dia a dia da assistência e garantir a sustentabilidade das operações”, afirma Evelyn Tiburzio, diretora técnica da Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp). “A tecnologia ainda é um universo a ser explorado, estamos apenas no começo. O principal desafio hoje é repensar o relacionamento dos elos da cadeia, novos modelos de remuneração.”
A tarefa, na visão de Marco Antônio Zaccarelli, diretor médico comercial do Grupo Santa Joana — Hospital e Maternidade Santa Joana, Pro Matre Paulista e Santa Maria — não é simples. “Todos os pontos do ciclo de receita têm estrangulamento”, afirma. “A adoção de tecnologia é essencial nessa jornada. Investimos entre R$ 2 milhões e R$ 3 milhões por mês no desenvolvimento e adoção de novas soluções.” Em 2025, o grupo adotou ferramentas de inteligência artificial (IA) na administração e relação com pacientes. “O número de primeiro atendimento de gestantes saltou de quatro mil para 12 mil”, revela. “Somos os primeiros a usar robôs em cirurgias para mulheres, investimos na formação de profissionais da saúde, com cursos de pós-graduação em neonatologia, anestesia obstétrica, entre outros, e até dezembro deveremos abrir o processo seletivo para residência médica em ginecologia e obstetrícia.”
À frente do Sabará Hospital Infantil, referência em saúde infantojuvenil do país, o CEO Felipe Lora afirma que o momento é de união de forças. “Hoje os filantrópicos dividem atenção com os hospitais que têm acionistas. Isso mexe na régua da competitividade”, assegura. “O momento não deve ser de competição, mas de união para desenvolver a saúde




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