Nesta edição, é analisada a relação entre Espanha e Marrocos e as implicações da crise migratória em Ceuta. Bruno Cardoso Reis faz um balanço da guerra na Ucrânia e do conflito entre EUA e Irão.

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Está de regresso, depois de umas merecidas férias, o Cinco Continentes, passe de análise geoestratégica histórica da atualidade internacional do historiador Bruno Cardoso Reis. Olá, Bruno. Viva.

Essas férias foram boas?

Sim. E as tuas também. Estão quase a acabar. Agora já estou em semi férias.

Em semi férias, muito bem, mas sempre atento ao mundo, certo?

De férias mesmo, fiquei desatento. Desliguei completamente dessa parte. Mas agora já estou nas tais semi férias, portanto semi atento, vamos dizer assim.

Muito bem. Vamos começar essa viagem pelos Cinco Continentes esta semana pela Ucrânia. Bruno, o conflito neste país europeu vai a caminho dos cinco anos. Quem é que, na tua opinião, está a ganhar e a perder?

Eu acho que quem está claramente a ganhar, infelizmente, são os cemitérios. Dos dois lados temos, neste momento, mais de dois milhões de baixas. A guerra entre a Rússia e a Ucrânia, a guerra da agressão russa contra a Ucrânia, tem sido nos últimos anos o conflito mais mortífero em nível global. Obviamente, em baixas estamos a incluir mortes e feridos, mas, por exemplo, no caso da Rússia, estima-se que talvez meio milhão de mortos. É de longe o conflito mais sangrento em que a Rússia/a União Soviética se envolveu desde a Segunda Guerra Mundial. Depois, quem também está claramente a ganhar são os drones, ou seja, estes novos equipamentos militares, cada vez mais com autonomia, com capacidades várias, drones aéreos, mas também navais e até terrestres, cada vez mais. Isto ao ponto de a Ucrânia, por exemplo, ter criado um ramo a par da Força Aérea da Marinha do Exército só dedicado aos drones. Há poucas semanas a Rússia decidiu fazer a mesma coisa e realmente um dos consensos entre os analistas, que eu também partilho, é que tem sido realmente o sistema de armamento talvez mais importante do conflito, seja na guerra terrestre, cada vez mais criou uma enorme kill zone, uma zona que é muito difícil operar de várias dezenas de quilômetros e cada vez mais também na questão da guerra aérea, nomeadamente com os ucranianos a conseguirem desenvolver drones mais pesados, com mais carga explosiva e de longo alcance também, que têm usado com muita eficácia nos últimos meses. A Ucrânia está a produzir, estima-se, à volta de 100 mil drones por mês. A Rússia anda perto disso, um pouco menos. Esses aspetos são relativamente claros. Agora, em termos de vitória, ou seja, quem é que ganha o conflito, se estamos à beira de uma vitória clara, isso não se pode dizer. E não se pode dizer, no meu caso, infelizmente, por exemplo, em relação à Ucrânia, que me parece que é claramente aqui a parte agredida, que tem o direito do seu lado, que é fundamental também como barreira a uma Rússia cada vez mais agressiva e expansionista em termos da segurança do resto da Europa. Mas realmente, as guerras reais não são como as guerras nos filmes de Hollywood, não ganham sempre os bons. E portanto, aí temos realmente uma situação do que eu chamo um impasse dinâmico, ou seja, nenhum dos dois lados consegue resultados decisivos, seja no campo de batalha, na frente. Por vezes a Rússia parece estar com uma certa vantagem, nalgumas zonas tem uma certa vantagem, noutras alturas a Ucrânia recupera um pouco de terreno, mas são sempre avanços muito lentos, muito difíceis. Na guerra aérea, a Ucrânia recuperou a iniciativa, pareceu estar em vantagem. Agora a Rússia está a beneficiar do fato da Ucrânia não ter interceptores, também como efeito da guerra americana contra o Irão. E portanto, realmente temos aqui uma situação de um certo impasse, mas ao mesmo tempo um impasse dinâmico, ou seja, os dois lados continuam a procurar encontrar novas formas de ser mais eficazes ou de reduzir a eficácia do outro lado. Mas portanto, em relação a essa questão, realmente não é possível dar uma resposta decisiva, embora provavelmente a dimensão política seja aí a mais importante, a política eventualmente interna na Ucrânia, na Rússia e também nos países aliados da Ucrânia.

Por falar em política, Zelensky poderá vir eventualmente a ser apeado, entre aspas, do poder, uma vez que tem agora, Bruno, alguém que o desafia diretamente, como é o caso do antigo ministro da Defesa, Mykhailo Fedorov. O que é que pode acontecer e o que terá Putin mais a temer nesta altura?

De fato, num conflito prolongado, há uma dimensão que é absolutamente crucial, que é a questão da dimensão da economia de guerra, ter os recursos para sustentar um conflito de elevada intensidade durante anos e anos, conseguir mobilizar pessoas para isso, pagar-lhes, retirar essas pessoas da economia, encontrar quem as substitua, continuar a produzir equipamento, munições, alimentos, etc. Para alimentar esse esforço de guerra. Portanto, a dimensão econômica é crucial, mas a dimensão política, e se quisermos, não do equilíbrio de forças, mas do equilíbrio de vontades, quem é que quer mais resistir, quem é que acha mais que não pode perder, esses aspetos são absolutamente cruciais. E muitas vezes, realmente, o que acontece é que o colapso se dá não propriamente por uma manobra brilhante no campo de batalha, mas pelo colapso, muitas vezes da capacidade de sustentar o esforço de guerra e associado a isso também o colapso do consenso social político em torno desse esforço de guerra. Vimos isso, por exemplo, no final da Primeira Guerra Mundial. No caso da Alemanha, a Alemanha nunca é verdadeiramente derrotada no campo de batalha de forma decisiva, mas o que acontece é que deixa de ter capacidade de sustentar realmente o esforço de guerra e isso depois leva cada vez mais a dissensões, a divergências nas próprias elites alemãs e ao nível também de manifestações depois de insatisfação popular, etc. À partida, nós temos dois casos muito distintos, que é: a Ucrânia tem aqui uma desvantagem que é estar a jogar essa dimensão económica e política não apenas no próprio país, mas também dos seus aliados. E de alguma forma já perdeu um pouco essa batalha num dos aliados cruciais que são os Estados Unidos. Ou seja, a eleição de Donald Trump em 2024 realmente foi uma grande derrota pra Ucrânia, tem significado uma redução muito significativa do apoio militar. Aquele que vem dos Estados Unidos atualmente é muito menor e é pago graças ao financiamento europeu. Aí realmente há o problema de que atualmente continua a existir um consenso amplo na Europa no apoio à Ucrânia, inclusive de setores que aparentemente não se esperava muito isso, como Meloni na Itália. Orbán foi derrotado e, portanto, o novo líder da Hungria, Péter Magyar, também é muito mais simpático pra Ucrânia, mas temos o problema de eleições no próximo ano na França. Le Pen historicamente é pró-russa, agora tem disfarçado, mas Farage na Grã-Bretanha, que é também historicamente pró-russa, embora agora tenha disfarçado e desmentido isso, aparece como segundo nas sondagens a seguir aos trabalhistas, e sobretudo na Alemanha, temos a AFD, que essa continua a ser abertamente pró-Putin. Portanto, aí realmente há uma fragilidade, um risco pra Zelensky. Eu diria que isso é talvez maior do que o risco de colapso da vontade de resistência na Ucrânia. Agora, é verdade, estavas a aludir a isso, temos este caso de Mykhailo Fedorov, do antigo ministro da Defesa, que agora entrou em dissidência aberta com Zelensky, veio falar até da necessidade de eleições, de se pensar nisso pelo menos, não se pode eternizar esta situação de não haver eleições na Ucrânia. Eu acho que ele tem razão.

Ele diz que a democracia não pode ficar presa à guerra.

Não pode ficar exatamente. Eu penso que isso é um ponto válido. Ele também reconhece que não é fácil e que legalmente isso não é possível para já, mas realmente eu próprio tenho referido isso, que é perfeitamente compreensível. Não é justo criticar a Ucrânia por não estar a organizar eleições. Muitos países preveem esta impossibilidade e países como a Grã-Bretanha no tempo de Churchill, na Segunda Guerra Mundial, também adiaram durante anos as eleições, mas realmente adiar isso demasiado vai começar a pôr em questão a legitimidade democrática de Zelensky. Um importante argumento para o apoio à Ucrânia, embora eu acho que não é o único, mas se calhar devia ser o principal, é do interesse do resto da Europa conter esta Rússia muito agressiva e recusar a ideia de que se pode alterar as fronteiras pela força na Europa. Mas a verdade é que isso é muito importante para manter este apoio, que é crucial pra Ucrânia conseguir nivelar um pouco a assimetria de poder enorme em relação a uma grande potência militar, inclusive nuclear, como é a Rússia, um país muito maior, com muitos mais recursos. Portanto, eu acho que há aqui realmente alguma fragilidade maior de Zelensky, mas apesar de tudo, esta contestação a Zelensky não é uma contestação ao esforço de guerra. Aquilo que Fedorov vem dizer é: "Eu eventualmente posso ser uma alternativa". Ele claramente está se a posicionar como uma alternativa a Zelensky, mais dinâmica, mais jovem, mais eficaz no esforço de guerra contra a Rússia. Portanto, não é uma boa notícia para Putin ou pra Rússia, esta possibilidade de alternância política na Ucrânia. Em relação à Rússia, é tudo muito difícil de prever, mas que essa ameaça de alguma forma existe e preocupa Putin, isso é bastante claro, porque se não fosse assim, ele não se tinha dado ao trabalho de agora excluir o único partido da oposição mais ou menos legal que ainda restava e que estava a fazer abertamente uma campanha antiguerra, o YA Bloco, que era um velho partido liberal, e foi excluído por via judicial, obviamente por juízes controlados por Putin, pelo regime, foi excluído das eleições que agora se vão realizar em outubro.

Muito bem. Vamos rodar o globo, Bruno, vamos focar-nos no Médio Oriente. Estão esgotados os 60 dias do memorando assinado em junho e que previa o fim deste conflito iniciado em 28 de fevereiro, este conflito entre o Irão e os Estados Unidos. Que balanço se pode fazer destes seis meses de conflito ou de guerra? E já agora, os Estados Unidos têm uma estratégia clara e quem te parece que a história e a geoestratégia favorece?

Bem, eu acho que o balanço que se pode fazer é nenhum dos objetivos enunciados por Trump quando iniciou o conflito, e que portanto podem ser vistos como as suas prioridades estratégicas, embora muito contraditórias, nenhuma foi alcançada, ou seja, o regime não foi derrubado, foi um dos objetivos inicialmente anunciados. Também não se chegou a acordo com esse regime, esses objetivos eram contraditórios, mas a questão do nuclear não está resolvida e, sobretudo, temos uma nova questão, que é o resultado da geografia, da geoestratégia objetivamente favorecer o Irão. Temos este problema enorme no Estreito de Ormuz, que por muito que Trump venha declarar território americano ou que é seguro e que está aberto à navegação, a verdade é que não é território americano, isso legalmente não faz nenhum sentido, seja em termos de lei internacional, seja até da própria lei interna americana. O presidente não pode simplesmente declarar um pedaço de terra como americano, obviamente, no mínimo o Congresso americano teria de aprovar isso também. E, portanto, do lado americano, o que temos é uma guerra sem uma estratégia coerente, sem uma estratégia realista. Por exemplo, esta ideia de derrubar o regime, bem, isso poderia ser um objetivo bastante apetecível, até do ponto de vista de aparentemente muitos iranianos que ainda no início deste ano morreram aos milhares pra tentar derrubar o regime. Mas nunca se fez uma mudança de regime simplesmente com uma operação aérea. Não existem precedentes na história pra isso. E portanto, os Estados Unidos não parecem ter uma estratégia e têm este problema, que é a geografia, o estreito, um estreito que nalgumas zonas tem poucas dezenas de quilômetros, favorece o Irão, ainda por cima com as novas tecnologias militares, por exemplo, os drones, que são grandes niveladores de poder e que, tendo em conta aqui as curtas distâncias da costa, os curtos tempos de reação, tornam muito eficaz a utilização desse tipo de meios para ameaçar a navegação e basicamente com isso evitar que grande parte das companhias de navegação mais sérias queiram arriscar navios, homens, tripulantes, de fato, numa zona de guerra. O Irão realmente tem uma estratégia mais clara, que é basicamente o regime iraniano, que é basicamente resistir a todo o preço Prolongar o conflito, aumentar os custos econômicos para os Estados Unidos e a nível global do conflito, utilizar desse ponto de vista a própria geografia, lá está o Estreito de Ormuz, a proximidade a uma série de países que são cruciais para o mercado energético global. E eu diria que desse ponto de vista, o regime iraniano tem uma estratégia bastante mais clara, que tira partido também desta lógica de guerra assimétrica, em que os Estados Unidos têm que defender a todo o tempo o Estreito de Ormuz e as águas envolventes e os países aliados do Golfo. O Irão só tem que conseguir atingir algumas vezes ou navios, ou instalações, ou bases norte-americanas para ir arrastando o conflito com realmente enormes custos, inclusive também políticos para Donald Trump. Os iranianos também sabem que vai haver eleições agora em novembro e que esta guerra é muito impopular nos Estados Unidos.

Entretanto, Bruno, Arábia Saudita, Turquia e Paquistão, países com perfil e ambição para serem potências regionais, assinaram em Meca um acordo de defesa conjunta. O que prevê esse acordo e que impacto poderá ter ele na geopolítica?

Acho que é significativo, desde logo, ter sido assinado em Meca e também nesse contexto temporal.

Cidade santa para o Islão.

Exatamente, ou seja, a capital da Arábia Saudita não é Meca. Meca, se quisermos, é a capital religiosa do conjunto do Islão, mas a capital política é Riade, portanto, aí seria natural que fosse assinado um acordo de defesa.

Portanto, há aqui um simbolismo, na tua opinião.

Há um simbolismo, esta ideia de uma espécie de eixo sunita, de eixo islâmico, que aliás está presente no próprio texto do acordo. O rei da Arábia Saudita é apresentado como o guardião dos lugares santos do Islão, geralmente é aliás o primeiro título sempre que aparece. E para o caso de haver dúvidas, também eles foram todos rezar à Caaba, ao grande centro religioso de peregrinação islâmica em Meca.