Na primeira parte da entrevista de estreia do Que Dia, ator fala de carreira, Shakespeare e fé; a segunda sai em breve na coluna
Thiago Lacerda chegou à televisão muito jovem, quando ainda descobria o próprio ofício. Quase trinta anos depois de entrar pela primeira vez num estúdio de televisão, ele volta às novelas trazendo no corpo tudo o que viveu longe delas: o silêncio do teatro, a inquietação da literatura e as perguntas que só o tempo sabe fazer. Veja:
Nesse caminho, ele já foi o jovem Matteo, que saiu de Terra Nostra para entrar na memória afetiva do Brasil. Enfrentou as dúvidas de Hamlet, a ambição de Macbeth, o absurdo de Camus e o Jesus profundamente humano de Saramago — num Brasil em que há igrejas que transformam Jesus em instrumento político para desumanizar o outro. Viveu heróis, homens feridos e figuras da nossa História. Fora de cena, descobriu também que cultivar a terra, o lúpulo e a própria cerveja pode ser outra maneira de criar.
Hoje, mais do que percorrer uma carreira, quero conversar sobre aquilo que ficou depois de tantos personagens: o que o ofício transformou nele, o que a vida ensinou ao ator e quem é o homem que retorna agora à televisão. Thiago Lacerda deu a entrevista a ao programa semanal Que Dia, apresentado por este colunista. A ideia do programa é que gente traga os nomes mais importantes da literatura, da teledramaturgia, da MPB, sempre uma vez por semana. Abaixo o primeiro treco dessa conversa que será dividida em duas partes.
Coluna – Thiago, Por Você marca sua volta à televisão aberta depois de três anos muito dedicados ao teatro, ao cinema e ao streaming. Você disse que voltou a um lugar onde se sente em casa. Mas quem voltou é o mesmo ator que saiu? O que esses três anos fora da rotina de uma novela mudaram na sua maneira de atuar diante de uma câmera?
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles Tiago Lacerda – Esse tempo fora da TV era um tempo previsto e combinado que precisava acontecer e aconteceu de forma muito natural. Encerrei um ciclo de mais de 25 anos na TV, numa relação que eu conhecia muito bem, numa casa que me acolhe no início da minha jornada profissional. Por isso, essa referência à casa. Essa ideia de que, desde o começo da minha jornada de trabalho – a minha jornada contando histórias -, eu estou, de alguma maneira, envolvido com a emissora, contando histórias ali, naquele espaço, entre aquelas pessoas, para aquele público.
O encerramento de ciclo exige um momento de estranhamento normal. Então, apesar de ser um processo natural, conhecido e previsto, foi um tempo de tentar entender algumas coisas, especialmente o que aconteceu nesses 25 anos que estavam se encerrando ali, naquele momento de transformação e para onde olhar nos próximos anos para a frente.
Esse tempo todo longe da TV foi um tempo de bastante reflexão, de muitas coisas acontecendo ao redor. A pandemia, que coincide mais ou menos com essa época, me trouxe muitas coisas naquele momento de clausura, muitas coisas sobre o meu trabalho.
A pandemia me deu dois monólogos, então foi também um tempo de me dedicar a outras necessidades artísticas. Nesse sentido, a pandemia e o pós-pandemia trouxeram muito esse momento de poder voltar às novelas, poder voltar às novelas pelas mãos do André, que é um grande parceiro, que me fez o convite, voltar às novelas com um personagem tão interessante, tão humano quanto o Gabriel. Voltar às novelas com uma boa história, com um bom elenco, com uma equipe que se conhece. Tem sido muito significativo para mim esse recomeço de ciclo, esse recomeço até mesmo de história dentro da própria emissora e tudo mais, num outro formato de uma outra maneira. Mas, tudo isso enriquece a gente, né, Mateus?
O que eu faço é, na verdade, um acúmulo das minhas vivências, das minhas experiências. Acho que todo esse processo de transformação traz amadurecimento e traz amadurecimento artístico também, que passa um pouco por essa reflexão sobre a minha carreira na TV e por esse trabalho todo, com as peças, com os monólogos que a pandemia trouxe, com a minha maneira de trazer a minha contação de história proteatro e toda a importância que o teatro tem na minha carreira. Agora, com o streaming, nesse momento também eu estive fazendo uma história que me interessava muito, já há muitos anos. Tive a chance de fazer lá com Ângela Diniz e Ibrahim Sued um personagem que eu me recordo e tudo mais.
Então, foi interessante. Novas possibilidades, novos espaços de contação de história. Mas, acima de tudo, a origem da minha jornada está um pouco na TV. Me sinto relativamente em casa quando eu volto para contar a história nas novelas.
Coluna – Você interpreta Gabriel, um homem que foi abandonado pelos pais e cresceu numa casa de acolhimento. Quando se torna pai, ele procura oferecer à filha justamente o afeto que não recebeu. Você enxerga a paternidade dele como uma forma de reparação? E como se representa uma ferida que o personagem talvez passe a vida inteira tentando esconder?
Tiago Lacerda – É essa beleza que a arte tem: de servir como um canal de reflexão, de transformação, de cura mesmo. A novela trata de temas muito profundos. A novela trata de traumas, trata de rejeição, de abandono, de distanciamento. Essa coisa da figura masculina dos pais — a distância das figuras masculinas — é recorrente na nossa história.
Ele tem a oportunidade de trazer uma maneira de se relacionar com a filha que passa por esse trauma pessoal, essa jornada que ele carrega com ele, esse trauma da rejeição.
E, de uma certa maneira, a relação da filha é reparação afetiva, é uma reparação emocional que esse personagem busca em si mesmo. E, com isso, traz pra gente e para o espectador uma oportunidade bonita sobre essa relação pai e filha, ainda que permeada por tanta dor, pelos traumas do personagem.
O Gabriel reencontra a Bela, um grande amor da juventude. Eu mesmo já vivi momentos em que reencontrei um amor da juventude e sei como isso mexe com a gente, com a memória, com aquilo que a gente foi e até com a imaginação do que poderia ter sido aquela relação. Como você leva essa experiência tão humana para o Gabriel? O que esse reencontro desperta nele?
Fico muito interessado por essa pergunta, Mateus. Poxa vida, como teria sido se tivesse sido diferente? Fico pensando que existe um desencontro muito importante na relação do Gabriel com a Bela. O fato é que a vida sugeriu algumas escolhas, algumas decisões. O Gabriel tomou decisões e vive e convive com as consequências dessa decisão.
Faz parte da discussão da novela: como teria sido? Como seria possível esse reencontro? Será que a vida vai ser generosa com os dois? Essa dúvida e essa pergunta são um pouco o que permeia essas relações. Agora sim, é um personagem que traz essa chaga afetiva, essa chaga amorosa. Vamos ver como o público vai responder, como os autores vão conduzir a história. Mas acho muito bonita essa investigação. Eu estou muito curioso para ver como o Gabriel e a Bela vão se reencontrar. Como isso pode ser possível num debate em dias de hoje.
Coluna – Thiago, quando você fez o Matteo de Terra Nostra, eu estava no colégio. Matheus ainda não era um nome tão popular quanto é hoje, e eu virei Matteo também. Meus colegas me chamavam assim, embora logo esclarecessem que a semelhança terminava no nome, porque eu não tinha a sua beleza. Foi quando percebi que aquele personagem tinha saído da televisão e entrado na vida das pessoas. Quando você percebeu que Matteo havia mudado a sua vida?
Tiago Lacerda – Me dei conta do que havia nas minhas mãos logo que recebi o convite pro personagem. Tinha tido uma busca por ele, para fazer o teste. Pedi para fazer o personagem sem saber que seria o teste propersonagem. Quando passei no teste e o convite me foi feito pelo Jayme Monjardim, tive muita clareza do que aquilo significava na minha vida, de que aquela era a grande oportunidade profissional que eu tinha naquele momento e que isso só dependia de mim. Alcançar êxito ali, se eu conseguisse chegar na história dele, seria uma experiência única. E foi.
Acho que eu me dou conta, de forma concreta, do sucesso que o personagem faria, do sucesso que a Ana faria, que o casal faria. No réveillon de 1999 para 2000, eu me lembro de passar por uma banca de jornal e me vi na capa de sete das oito revistas que haviam na banca. Me dei conta de que aquele momento era um momento único, era um momento delicado. Precisava buscar compreender e, acima de tudo, devia me proteger dessas coisas que vêm a reboque, que vêm junto com uma profissão exposta. Sucesso de estar na televisão: as pessoas gostam de você. Precisava, de alguma maneira, me proteger daquilo, porque eu precisava trabalhar. Eu não tinha tempo de me deslumbrar com aquilo, de acreditar naquilo tudo.




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