Psiquiatra Adiel Rios alerta para isolamento, vícios e sofrimento emocional frequentemente ignorado
Embora a saúde mental tenha ganhado mais espaço no debate público nos últimos anos, um tema continua recebendo atenção menor do que sua gravidade exige: o sofrimento emocional masculino.
Dados do Ministério da Saúde e do DATASUS mostram que cerca de 78% a 79% das mortes por suicídio registradas no Brasil ocorrem entre homens, um índice que acende o alerta para questões que muitas vezes permanecem invisíveis ou são tratadas de forma superficial.
Para o Dr. Adiel Rios, médico com atuação em neuromodulação em São Paulo, membro titular da Associação Brasileira de Psiquiatria e fellow em Transtorno Bipolar pelo Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP, existe uma crise masculina que precisa ser discutida com mais seriedade.
"Existe uma crise masculina que recebe pouca atenção pública. Ignorá-la não fortalece nenhuma outra causa. Pelo contrário. Quando alguns sofrimentos são considerados ilegítimos enquanto outros são descartados, toda a sociedade perde", afirma.
Segundo o especialista, reconhecer as dificuldades enfrentadas pelos homens não significa questionar ou diminuir a importância das conquistas femininas. Pelo contrário.
Trata-se de compreender que diferentes grupos podem enfrentar desafios específicos e que uma sociedade equilibrada deve ser capaz de acolher múltiplas formas de sofrimento sem transformá-las em disputa.
"O movimento feminino foi e continua sendo essencial para avanços relacionados a direitos, proteção contra a violência, participação social e autonomia. Admitir que homens também enfrentam dificuldades específicas não reduz a importância dessas conquistas", destaca.
Além dos índices de suicídio, outros indicadores ajudam a compreender a dimensão do problema.
Homens costumam procurar menos os serviços de saúde preventiva quando comparados às mulheres e frequentemente demoram mais para buscar atendimento psicológico ou psiquiátrico.
Essa resistência pode contribuir para diagnósticos tardios e para o agravamento de transtornos mentais.
Outro dado que preocupa especialistas é o crescimento do isolamento social masculino.
Pesquisas internacionais têm apontado um aumento no número de homens que relatam não possuir amizades próximas ou redes de apoio emocional consistentes.
A solidão prolongada tem sido associada ao aumento do risco de depressão, ansiedade, abuso de substâncias e comportamentos autodestrutivos.
Para o Dr. Adiel Rios, um dos principais desafios está na forma como muitos homens foram educados ao longo da vida.
"Desde cedo, muitos aprendem que pedir ajuda é sinal de fraqueza e que devem enfrentar tudo sozinhos. Mais tarde, quando surgem problemas emocionais, as consequências acabam sendo tratadas como surpresa. O resultado é que muitos chegam à vida adulta sem ferramentas emocionais suficientes para lidar com perdas, frustrações, inseguranças e sofrimento psíquico", explica.
Segundo o médico, o sofrimento masculino nem sempre se manifesta da forma tradicionalmente associada à depressão.
Em muitos casos, ele aparece através de comportamentos de risco ou mecanismos de compensação.
"A depressão masculina muitas vezes não chega chorando. Ela pode se manifestar por irritabilidade, isolamento, abuso de álcool, excesso de trabalho, impulsividade, vícios, agressividade ou vergonha de pedir ajuda", alerta.
Nesse contexto, especialistas também observam o aumento de problemas relacionados à dependência de apostas online, pornografia, jogos eletrônicos, sexo compulsivo e consumo excessivo de conteúdo digital.
Embora essas situações possam afetar qualquer pessoa, elas frequentemente aparecem como estratégias de fuga diante de dificuldades emocionais não elaboradas.




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