Ocala atrai grandes negócios e tem moradores como o astro de Hollywood John Travolta
Priorize VEJA no Google Durante décadas, falar de investimento imobiliário na Flórida para brasileiros significava quase sempre falar de Miami ou Orlando. Mais recentemente, cidades como Fort Lauderdale, West Palm Beach e Tampa passaram a disputar essa atenção. Mas existe uma região no centro-norte do Estado que ainda é relativamente desconhecida no Brasil e que vem passando por uma transformação econômica e imobiliária importante.
Ocala é conhecida como a capital mundial dos cavalos e um dos mais importantes territórios equestres do planeta, com centenas de fazendas, centros de treinamento, criadores, veterinários, competidores e empresas cuja atividade econômica está direta ou indiretamente relacionada a esse universo equestre. Uma das explicações está, literalmente, debaixo da terra. A região possui uma formação geológica rica em calcário que favorece pastagens com elevada presença de minerais, característica considerada especialmente adequada à criação de cavalos. Condições semelhantes são encontradas em alguns dos grandes territórios equestres internacionais, como Lexington, no Kentucky, Estados Unidos, Newmarket, na Inglaterra, e Chantilly, na França.
Mas o acontecimento que mudou definitivamente a dimensão de Ocala foi a inauguração, em 2021, do World Equestrian Center, o WEC. É difícil compreender a escala do empreendimento sem vê-lo pessoalmente. São mais de 800 hectares ocupados por uma estrutura que funciona quase como uma cidade dedicada ao universo equestre. O WEC possui 29 arenas, sendo 23 externas e seis cobertas e climatizadas, além de áreas de treinamento e aquecimento e quase 3 mil baias permanentes.
Como comparação para ajudar a entender esses números, a Sociedade Hípica Paulista, uma das mais importantes e tradicionais instituições do hipismo brasileiro, possui estrutura permanente para aproximadamente 340 cavalos em sua Vila Hípica. Em grandes competições, essa capacidade pode ser ampliada com instalações temporárias. No WEC, estamos falando de uma estrutura permanente para quase nove vezes esse número.
Mas reduzir o World Equestrian Center às suas pistas e baias seria não entender o projeto. O empreendimento possui dois hotéis, o sofisticado The Equestrian Hotel, com 248 acomodações, e o The Riding Academy Hotel, com 390 studios e suítes. Há ainda casas para hospedagem, estrutura para motorhomes, lojas, spa, restaurantes, cafés, espaços para eventos e uma enorme infraestrutura de apoio. Tudo isso aberto ao publico. Uma das arenas externas principais tem arquibancadas para milhares de espectadores. Em determinadas épocas do ano, competidores, proprietários, treinadores, famílias e visitantes passam semanas na região.
O WEC não nasceu de um grande fundo imobiliário ou de uma incorporadora listada em bolsa. Por trás do empreendimento está a família Roberts, dona da R+L Carriers, uma das grandes empresas americanas de transporte e logística. A família já mantinha uma operação equestre em Ohio e decidiu criar em Ocala um projeto muito mais ambicioso. O desenvolvimento foi realizado com capital privado da própria família e continuou recebendo investimentos e expansões depois da inauguração. O total gasto até agora no empreendimento bate na casa do bilhão de dólares. E a família segue ampliando sua atenção para a região com o desenvolvimento do maior centro esportivos dos Estados Unidos, que será instalado ao lado do WEC.
Ocala não é importante apenas para cavalos. Sua posição praticamente central dentro da Flórida e o acesso à Interstate 75 transformaram a região em um ponto estratégico para logística e distribuição. Grandes empresas instalaram centros e operações na região, aproveitando a possibilidade de alcançar rapidamente boa parte do mercado consumidor do Estado.
O WEC ampliou enormemente a visibilidade dessa indústria e trouxe uma nova camada de dinheiro para a cidade. E dinheiro, evidentemente, acaba chegando ao mercado imobiliário. Ocala reúne propriedades equestres milionárias, grandes fazendas, condomínios fechados e clubes privados que misturam residência, hipismo e golfe. O Golden Ocala Golf & Equestrian Club é um dos exemplos dessa combinação de imóveis de alto padrão com esporte e estilo de vida.
Há também situações que parecem quase caricaturas da riqueza americana. No Jumbolair Aviation Estates, um condomínio aeronáutico da região, os moradores têm acesso a uma pista privada capaz de receber grandes aeronaves. As propriedades possuem estruturas que permitem aos donos guardar seus aviões praticamente em casa. Seu morador mais famoso é John Travolta. Além de ator, o astro é piloto e há anos mantém aeronaves em sua propriedade.
Talvez o fenômeno mais interessante para o mercado imobiliário esteja justamente nas oportunidades menos óbvias. Uma delas é a locação de baias. As milhares de baias existentes dentro do WEC atendem apenas os cavalos relacionados às competições e atividades realizadas no complexo todos os finais de semana. Mas toda essa movimentação gera uma demanda paralela por locais para alojar animais na região. Segundo profissionais que atuam nesse mercado, uma baia bem localizada e com infraestrutura adequada pode alcançar cerca de US$ 2 mil mensais em determinadas situações. A operação de locação de baia exige espaço, pois é preciso considerar áreas para os cavalos caminharem, paddocks, pastagens, circulação de trailers, armazenamento, manejo e toda a infraestrutura necessária para os animais.
E brasileiros já começaram a participar desse mercado. Um deles é Alexandre Fraga, empresário e investidor imobiliário brasileiro radicado na Flórida e fundador da NextFraga Real Capital. Corretor de imóveis licenciado no Estado, Fraga atua também como incorporador e gestor de investimentos imobiliários. Sua trajetória começou em Orlando, em 2014, inicialmente com investimentos e administração de imóveis de temporada. Em 2019, ele identificou em Ocala uma oportunidade diferente e começou a desenvolver casas residenciais em Marion Oaks. Desde então, sua operação participou da construção e conclusão de mais de cem residências na região. Com o crescimento de Ocala, o negócio avançou para terrenos, propriedades rurais, fazendas equestres, residências de alto padrão e projetos de desenvolvimento imobiliário.
“Minha relação com Ocala começou como uma oportunidade imobiliária, mas se transformou em algo muito maior. Hoje existe uma conexão verdadeira com o estilo de vida, com a cultura equestre e com a comunidade local”, diz Fraga. A empresa criou também a NextFraga Equine, divisão voltada ao universo dos cavalos de corrida e esporte. A operação está instalada na GoldMark Farm, tradicional propriedade equestre de Ocala, onde o empresário colocou seu novo escritório de frente para a pista de corrida.
É uma história que sintetiza bem o que está acontecendo na cidade. O investidor chegou procurando casas. Depois vieram terrenos. Dos terrenos, passou às fazendas. Das fazendas, aos cavalos. Ocala está criando uma economia imobiliária própria, bastante diferente daquela que tornou a Flórida conhecida pelos brasileiros. Não há praia. Não há a verticalização de Miami. Tampouco existe a dependência dos parques de Orlando. O que existe em Ocala é abundância de terra, localização logística estratégica, uma população equestre extremamente qualificada, clubes privados, grandes propriedades e uma infraestrutura que transformou a cidade em destino internacional.




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