Professora da UEMG explica por que não existem animais 'sujos', quais insetos oferecem maior risco de contaminação e como proteger os alimentos
Ver uma mosca pousar sobre a comida, uma barata ou um rato na cozinha costuma causar repulsa imediata. Já uma formiga caminhando na bancada ou uma abelha próxima da mesa normalmente desperta menos preocupação. Mas será que alguns insetos são realmente mais "sujos" do que outros?
Segundo a professora da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) Karen Cristine Santos Galvão, engenheira de alimentos e especialista em microbiologia aplicada, higiene e legislação de alimentos, a resposta é mais complexa do que parece.
"O uso do termo 'sujo' é incorreto. Se observarmos pelo âmbito da ciência, não há essa distinção entre animais limpos e sujos. Alguns são apenas mais propensos a carregar microrganismos e parasitas por causa dos ambientes onde vivem e dos hábitos que possuem", explica.
Em outras palavras, o risco não está no animal em si, mas nos locais por onde ele circula e nos microrganismos que pode transportar até os alimentos.
Entre os insetos encontrados com mais frequência dentro de casa, moscas, baratas e formigas são os que mais merecem atenção.
Karen explica que as baratas vivem em esgotos, caixas de gordura e locais com grande quantidade de matéria orgânica em decomposição.
"Elas vivem em esgotos, comem lixo e têm contato constante com ambientes altamente contaminados", afirma.
As moscas também representam risco elevado porque costumam pousar em lixo, fezes e alimentos deteriorados antes de chegar à cozinha.
Segundo a especialista, durante esse percurso elas podem transportar bactérias, fungos e outros microrganismos aderidos ao corpo e às patas, contaminando alimentos prontos para consumo.
Entre as bactérias que podem ser carregadas estão Salmonella, Escherichia coli (E. coli) e outros agentes capazes de provocar intoxicações e infecções alimentares.
Uma dúvida comum é se o alimento ainda pode ser consumido quando uma mosca pousa rapidamente sobre ele. Para Karen, o ideal é descartá-lo.
"Mesmo um contato muito rápido já pode ser suficiente para que a mosca deposite ovos ou transfira bactérias para o alimento", explica a professora.
Ela lembra ainda que o famoso mito da "regra dos cinco segundos" não tem respaldo científico.
"Assim que o contato acontece, se houver microrganismos na superfície, eles podem ser transferidos imediatamente."
Por esse motivo, alimentos expostos à ação de moscas ou baratas, principalmente aqueles consumidos crus, não devem ser reaproveitados.
Apesar de muitas pessoas considerarem as formigas praticamente inofensivas, elas também podem transportar microrganismos. Isso acontece porque circulam por ralos, lixeiras, frestas e outros locais contaminados antes de chegar aos alimentos.
"As formigas podem carregar diversas bactérias e fungos ao longo do corpo e das patas", afirma Karen.
Outro mito bastante conhecido é a crença de que comer formigas faz bem para a visão. Segundo a pesquisadora, essa ideia surgiu de um ditado popular.
"Na verdade, o ditado significa apenas que quem consegue enxergar formigas pequenas provavelmente está com uma boa visão. Não significa que consumi-las faça bem."
Segundo Karen, as abelhas normalmente vivem em ambientes naturais, alimentam-se de néctar e pólen e possuem diversos mecanismos que reduzem a presença de microrganismos capazes de causar doenças em seres humanos.




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