Quem compra um carro de R$ 150 mil financiado em cinco anos pode desembolsar, no fim do contrato, dinheiro suficiente para pagar não apenas aquele veículo, mas outro carro zero-quilômetro além dele.A conta mostra o peso dos juros no financiamento de ve

Quem compra um carro de R$ 150 mil financiado em cinco anos pode desembolsar, no fim do contrato, dinheiro suficiente para pagar não apenas aquele veículo, mas outro carro zero-quilômetro além dele.

A conta mostra o peso dos juros no financiamento de veículos no Brasil. Considerando entrada de 20%, prazo de 60 meses e a taxa média de 1,98% ao mês registrada pelo Banco Central em julho, um carro de R$ 150 mil termina exigindo um desembolso próximo de R$ 236 mil, cerca de R$ 86 mil a mais do que o preço original.

Para efeito de comparação, esse valor é suficiente hoje para comprar à vista alguns dos carros zero-quilômetro mais baratos do país. O Renault Kwid, por exemplo, é anunciado pela própria montadora a partir de R$ 71.190 em promoção válida neste mês.

O juro atual não é recorde, mas permanece em um patamar elevado na comparação histórica. Antes do ciclo de alta iniciado em 2021, a taxa para financiar veículos chegou a ficar abaixo de 1,5% ao mês. Desde então, passou longos períodos ao redor de 2% e atingiu 2,18% em janeiro de 2025.

Um carro de R$ 150 mil está longe de ser um veículo de luxo no mercado brasileiro atual. O Hyundai Creta Comfort, por exemplo, tem preço promocional de R$ 150.990 neste mês; o preço de tabela é R$ 156.590. O Nissan Kicks parte de R$ 159.990, enquanto versões intermediárias de SUVs compactos como Chevrolet Tracker também circulam nessa faixa, a gama atual do modelo vai de R$ 119.990 a R$ 178.990.

É nessa faixa que está o preço médio pago por um veículo novo no país. Levantamento da Bright Consulting aponta preço médio de transação próximo de R$ 152 mil.

Na simulação realizada pelo UOL Carros, o comprador dá R$ 30 mil de entrada e financia os R$ 120 mil restantes. Com juros de 1,98% ao mês e prazo de cinco anos, a prestação fica próxima de R$ 3,4 mil mensais.

Segundo a Trillia/B3, porém, o prazo médio dos financiamentos de veículos novos no Brasil estava em 42,5 meses em junho, ante 41,6 meses um ano antes. Arredondando esse prazo para 43 meses e mantendo a mesma entrada de R$ 30 mil e a taxa de 1,98% ao mês, a prestação sobe para cerca de R$ 4.171. Ao final, o comprador teria desembolsado aproximadamente R$ 209,4 mil, já considerando a entrada.

A taxa de 1,98% usada na conta é uma média das novas operações de financiamento para pessoas físicas calculada pelo Banco Central e ponderada pelo valor efetivamente concedido em crédito.

Na prática, o consumidor pode encontrar condições bastante diferentes. Dados do próprio BC para operações realizadas entre 19 e 25 de agosto mostram taxas médias por instituição que iam de 0,52% a 2,26% ao mês.

Entre bancos de grande varejo, por exemplo, Banco do Brasil e Bradesco apareciam com 1,77% ao mês, Santander com 1,78%, C6 e Bradesco Financeira com 1,94% e Itaú com 2,06%.

Há também taxas muito mais baixas oferecidas por bancos ligados às próprias montadoras, muitas vezes associadas a campanhas comerciais, entrada elevada ou condições específicas.

A própria Renault, por exemplo, anuncia neste mês uma condição para o Kwid com taxa de 0,49% ao mês, mas exige 50% de entrada.

Apesar dos juros elevados, o financiamento continua sendo uma peça central do mercado brasileiro de automóveis.

No primeiro semestre deste ano, 51,3% dos veículos novos vendidos tiveram financiamento, segundo levantamento da Trillia/B3.

Ao mesmo tempo, a inadimplência entre pessoas físicas avançou. Em maio, 6,46% da carteira de financiamento de veículos estava com atraso superior a 90 dias, contra 5,15% um ano antes.

Nesse cenário, a redução da parcela obtida ao alongar o prazo pode tornar o carro aparentemente mais acessível no mês a mês. A conta completa, porém, mostra outra dimensão: no caso de um veículo de R$ 150 mil, cinco anos de financiamento podem acrescentar ao desembolso final o equivalente ao preço de outro carro zero-quilômetro.

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