Influenciador Lito Sousa foi diagnosticado com a doença de Creutzfeldt-Jakob, condição neurodegenerativa rara, fatal e sem cura. Família busca inclusão urgente dele em estudos.

https://p.dw.com/p/5JMqBAnúncioO piloto e influenciador Lito Sousa, de 59 anos, trava uma batalha para ser incluído em um tratamento experimental sobre a doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ), com a qual foi diagnosticado recentemente. A esposa dele, Mila Seidl, revelou na sexta-feira (21/08) que o marido já perdeu parte da capacidade motora nas últimas semanas, mas continua lúcido.

Lito quer participar de um estudo com o medicamento ION717, desenvolvido pela farmacêutica americana Ionis Pharmaceuticals, que poderia ajudar a frear o avanço da DCJ.

Nas redes sociais, os perfis da farmacêutica e dos locais dos estudos foram tomados por pedidos de brasileiros para que o influenciador receba o tratamento experimental.

Os tratamentos experimentais costumam adotar critérios rígidos para definir os participantes. No entanto, estudos sobre casos raros e de rápido avanço, como o de Lito, podem usar estratégias diferentes, segundo especialistas.

Cada estudo clínico costuma adotar critérios específicos para definir os participantes. Isso pode incluir fatores como faixa etária, doenças previamente estabelecidas, estágio da enfermidade e outras características delimitadas pela equipe.

"O objetivo é selecionar pessoas para as quais o tratamento experimental faça sentido e possa ser avaliado com segurança", diz o neurologista Octávio Marques Pontes Neto, do departamento de Neurociências e Ciências do Comportamento da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP).

"Se a pesquisa envolver seres humanos, necessita demonstrar critérios de riscos mínimos a essas pessoas. Um risco mínimo absoluto praticamente não existe, mas o mínimo pode envolver alguma forma de desconforto ou incômodo com a pesquisa, sem necessariamente envolver riscos de danos maiores", explica Afonso Carlos Neves, professor da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp).

As escolhas dos participantes do estudo começam com uma triagem, geralmente feita pela equipe do centro de pesquisas, que avalia os documentos e o histórico dos candidatos. "Se o paciente parece potencialmente elegível ao estudo, aí ele passa por uma avaliação clínica com os exames previstos no protocolo", explica Neto.

Esses participantes podem chegar a essas pesquisas por meio de ambulatórios ou hospitais. Também é possível que o próprio voluntário se ofereça.

Caso seja considerado apto ao estudo, o voluntário recebe as informações sobre a pesquisa e assina um termo de consentimento.

"Esses critérios do estudo devem estar descritos no protocolo. Pesquisas envolvendo seres humanos precisam seguir normas éticas e regulatórias, além das boas práticas clínicas", diz o pesquisador Gustavo Alves Andrade, da Faculdade de Medicina FMRP-USP, que investiga temas relacionados ao Alzheimer.

Em muitos estudos, não é permitida a entrada de novos voluntários após atingir o número previsto de participantes ou depois que uma etapa é encerrada.

Esses estudos passam por quatro fases para garantir a segurança e eficácia de um tratamento. Na primeira, um grupo de pessoas saudáveis recebe o remédio experimental para avaliar a segurança e o papel dele no organismo.

Quando se trata de doenças raras, segundo especialistas, a fase 1 já pode contar com alguns pacientes.

Na terceira fase, o remédio é comparado a algum medicamento que já tem a eficácia conhecida. Nessa etapa, em que há mais de mil voluntários, os pacientes e os pesquisadores não sabem quais são os remédios e quais são do grupo placebo, substância que não tem efeito terapêutico algum.

Depois dessa fase, o remédio passa pela avaliação da Anvisa e, caso aprovado, pode ser comercializado.

Na quarta fase, são observadas as reações após a comercialização do remédio, para aprimorar o produto e garantir a segurança dos pacientes.

"Enquanto o estudo avança de fase, aumenta o número de pacientes e muda a pergunta principal. Então, primeiro a gente quer saber se o remédio é seguro. Depois, se existem indícios de benefício e, por fim, se esse benefício realmente se confirma na população maior", resume Neto.

Quando se trata de uma doença rara e com avanço rápido, como a DCJ, as fases tradicionais para um tratamento experimental podem ser diferentes.

O epidemiologista Paulo Lotufo, professor titular de Clínica Médica da Universidade de São Paulo (USP), afirma que os critérios para tratamentos experimentais não devem se aplicar a casos como a doença de Creutzfeldt-Jakob.