CEO para a América Latina da marca, Mauro Maggioni, conversou com a Coluna e falou sobre Brasil e uma novidade
A entrevista da Coluna com Mauro Maggioni, CEO da Golden Goose para a América Latina, aconteceu por videochamada em Nova York na semana em que o Knicks venciam a final do NBA, e os nova-iorquinos saiam às ruas para comemorar.
Enquanto isso, na maior cidade dos Estados Unidos a Copa do Mundo parecia mal existir: nenhum cartaz, nenhuma torcida, nenhuma fila de bar. “Ainda bem que estarei no Brasil para ver o jogo”, brincou Maggioni, que mora em Nova York, mas nasceu perto de Milão e passou anos gerindo os mercados asiáticos da marca, de Hong Kong a Xangai.
A marca de tênis artesanal surgiu em 2000, num distrito industrial próximo a Veneza, sem nada da estética que se esperaria de um produto de luxo. Os fundadores misturaram essa origem crua a uma influência japonesa que carregavam desde sempre, e o resultado foi um tênis que já nascia gasto, marcado – um contrassenso para uma indústria então obcecada por exclusividade.
“Perfect imperfection”, resume Maggioni, repetindo a frase que funciona na marca como mantra interno, não como slogan de vitrine.
“A vida não é perfeita. Então, tentamos injetar vida no que fazemos – no produto, na experiência da loja. É aceitar quem você é e carregar suas memórias, sejam elas boas ou tristes, para sempre.” Para ele, a diferença é de origem: “É genuíno para nós. Não é uma tendência que adotamos agora – nascemos assim porque somos de uma área industrial de Veneza.”
A estética criativa usada pela Golden Goose desde 2000 se mostra atual no mundo das marcas de alto luxo em 2026. A italiana Prada apresentou, em seu último desfile masculino, roupas com aspecto de usadas, desgastadas e até sujas.
Numa rejeição à perfeição do luxo intocado, a marca defende que o envelhecimento das peças deve ser desejado, e não escondido – a “estética do desgastado”, como chama a moda.
Na Rimowa, onde uma mala de viagem pode custar até R$ 15 mil, o dano físico também foi transformado em símbolo de luxo. A marca enaltece a seus clientes que amassados, arranhões e cicatrizes são status de quem viaja pelo mundo.
Enquanto o varejo tradicional de calçados enfrenta desaceleração, inflação e fadiga do consumidor, a Golden Goose cresce – e Maggioni evita explicar esse crescimento pela lente do setor.
“Nunca começaria a resposta pela indústria de calçados, porque tecnicamente não somos uma empresa de calçados. Começamos como marca de prêt-à-porter – muito mais um estilo de vida do que uma categoria de produto.” A geração mais nova, segundo ele, é o motor dessa expansão: “Conquistamos a Gen Z porque permitimos que ela exerça a própria identidade e criatividade. Deixamos as pessoas consertarem, refazerem, cocriarem suas peças – e isso é algo que a indústria mais tradicional ainda não enxergou como motor de crescimento. Qual é o sentido de correr atrás do próximo design se o cliente nem está buscando isso? Quantas bolsas cabem num armário?”, indaga.
Cerca de 80% da base de clientes da marca é formada por Gen Z e millennials, mas Maggioni não vê isso como estratégia fechada. “Acontece organicamente: somos uma marca que atravessa gerações. Não é uma questão de idade – é sobre como você quer se sentir.” Para ele, os jovens chegam mais rápido a essa percepção; os demais públicos levam mais tempo e, no fim, “se apaixonam também”.
Sobre o Brasil, Maggioni é cauteloso e otimista. A marca tem hoje apenas quatro lojas no País – incluindo o espaço que abriu na última semana dentro do Cidade Matarazzo, em São Paulo, escolhido, segundo ele, pela conexão cultural e histórica do local – e uma ativação pontual no Rio. Para Maggioni, o crescimento brasileiro virá de fora para dentro: “O que importa para nós é que o brasileiro ama a marca – vemos isso no nosso CRM global. Por isso estamos aqui: para começar essa jornada e, aos poucos, deixar que o mercado local cresça também.”
A conversa termina com um anúncio: a marca vai abrir, entre novembro e dezembro deste ano, um novo flagship de 2,5 mil metros quadrados em Milão. Não será uma simples expansão de produto, adianta Maggioni, mas a estreia de uma linha de fragrâncias personalizadas e novos formatos de cocriação.
“Você vem, define quem você é, como se sente naquele momento e a fragrância nasce disso.” Apesar de quase 30 anos de história, a marca segue evitando o peso do próprio legado. “Toda marca de sucesso corre o risco de transformar a herança em fardo. Nós não negamos a nossa, mas olhamos para frente. Você ama a Golden Goose porque ama a si mesmo e quer se expressar. É assim que, naturalmente, alguém se torna um apaixonado pela marca.
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