Por que os jovens estão bebendo mais vinho? Dados inéditos mostram o avanço da geração Z no consumo da bebida no Brasil. De bares de vinho a harmonizações com chocolate, sorvete e comida asiática, a reportagem mostra como os consumidores de 18 a 24 anos estão redefinindo hábitos, quebrando protocolos e transformando a cultura do vinho no país.
VINHO NO BOTECO. Foto: Tiago Queiroz/Estadão Por Carol Almeida23/06/2026 | 06h30Atualização: 23/06/2026 | 13h55Por Carol Almeida23/06/2026 | 06h30Atualização: 23/06/2026 | 13h55Confira o resumo que a LE.IA, a IA do Estadão, fez pra vocêGerando resumo
Durante muito tempo, o vinho carregou uma imagem de bebida reservada a ocasiões especiais, que estampava os chamados “brindes mais maduros”. Exigia requinte e conhecimento entre os consumidores. O cenário se mostra bem diferente hoje. A geração Z, como mostram os dados, abraçou a bebida de Baco e inovou na forma de consumi-la: as taças estão no boteco, no happy hour, na lata e nos endereços considerados mais descolados.
Uma nova pesquisa nacional confirma a percepção entre os jovens. Dados do Instituto MDA Pesquisa, produzidos em convênio com o Consevitis-RS e o Sebrae Nacional indicam que os consumidores de 18 a 24 anos estão entre os que mais têm incorporado o vinho ao cotidiano, já que 70% dos entrevistados afirmaram ter consumido vinho brasileiro nos últimos seis meses e 66% realizaram alguma compra no período.
Paladar foi a campo e encontrou jovens adultos construindo, de fato, uma relação diferente com a bebida. E o número crescente dos chamados “bares de vinho” confirma a resposta à demanda.
Nas mesas, em vez de enxergar o vinho como um universo que exige conhecimento prévio, os mais jovem consumidores parecem interessados em experimentar primeiro e aprender depois. Vinhos em lata são levados para shows. “Harmonizações no boteco” que colocam pizza e chocolate na mesma mesa. Há mais espaço para a descontração.
Para o influenciador e entusiasta do vinho Juan Alba (@juanalba4), a Geração Z, pessoas nascidas entre 1997 e 2012, tem desempenhado um papel importante nessa transformação do consumo do vinho. “Eles não têm compromisso nenhum com essa tradição. Querem se divertir, provar coisas novas e gostam de vinhos mais leves, mais frescos e servidos em temperaturas mais baixas”, afirma.
Na prática, isso significa um interesse crescente por estilos menos convencionais, como os vinhos de baixa intervenção e os pét-nats, além de uma abertura maior para consumir vinho em contextos que antes eram associados a outras bebidas.
De fato, diferentemente de outras bebidas alcoólicas que registram queda no consumo, o vinho surpreendeu, está em alta e bateu recorde de consumo no Brasil.
Se o vinho já foi visto como um símbolo de sofisticação distante, hoje ele aparece em ambientes mais despojados e acessíveis. Para a relações-públicas Sophia Gaspar, de 22 anos, o vinho continua carregando certa aura sofisticada, mas deixou de ser algo restrito.
“Vejo o vinho hoje como uma bebida muito democrática. Ele pode ser acessível para quem quiser e mais caro para quem quiser também. Hoje existem muitos bares de vinho em São Paulo que ajudam a quebrar essa ideia de que vinho só se toma em restaurante ou em ocasiões especiais.”
A própria forma de escolher um rótulo segue uma lógica diferente diferente da que dominava gerações anteriores. Indicações de amigos, embalagens criativas e experiências compartilhadas nas redes sociais passaram a ter tanto peso quanto a região produtora ou a safra.
Não por acaso, o crescimento da oferta de vinhos no Brasil nos últimos anos coincidiu com a popularização de criadores de conteúdo especializados. Para Thomas Sampaio, idealizador do perfil no Instagram, @jovemdovinho, as redes sociais se tornaram a principal porta de entrada para quem deseja entender mais sobre a bebida.
“O jovem hoje está diante de uma abundância de informação sobre vinho. O desafio é separar o que realmente tem qualidade do que é apenas opinião.”
Antes cerveja e drinques dominavam os encontros após o expediente, agora, o vinho vem conquistando espaço nesse território e no horário, a partir das 17h30.
A mudança pode ser observada na rotina de estabelecimentos como o Vinho no Boteco, um bar de vinhos localizado em Pinheiros, em São Paulo. Segundo Alessandra Lembro, responsável pela comunicação da casa, o crescimento do público jovem aconteceu de forma natural.
“O público chegou atraído principalmente pelo preço acessível e pela ausência de formalidade. O vinho bom sem cerimônia sempre foi a nossa proposta”, diz. “Quando o cliente percebe que pode tomar uma taça de um rótulo interessante por um preço justo em um ambiente descontraído, o vinho deixa de ser intimidador e vira programa de semana”, explica Alessandra.
O happy hour tem sido um dos principais motores desse movimento, como endossa Leandro Mattiuz, restaurateur, sommelier e sócio-fundador do Elevado Bar, na Vila Buarque. Promções de taças, rodízios e cartas com opções acessíveis ajudam a transformar o vinho em uma escolha cotidiana, e não apenas para celebrações.
“Também vemos um consumo mais equilibrado, com pessoas que alternam com água, pedem opções sem álcool e não necessariamente estão buscando uma noite longa. Existe um olhar maior para a experiência como um todo”, afirma Mattiuz.
Para Juan Alba, os bares de vinho também cumprem um papel importante ao permitir que os consumidores experimentem diferentes estilos sem o compromisso de comprar uma garrafa inteira. “Você consegue provar coisas diferentes, criar repertório e descobrir novos produtores. Isso é muito democrático.”
A quebra de protocolos não acontece apenas na forma de consumir, mas também no que acompanha a taça.




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