As recentes renúncia e morte de Jason Arday, jovem professor negro da Universidade de Cambridge, constituem o capítulo mais recente de uma disputa secular sobre originalidade e propriedade intelectual
Após uma ascensão meteórica aos mais altos escalões do meio acadêmico britânico, Jason Arday foi encontrado morto em sua casa em Londres, em 14 de agosto de 2026.
Arday passou semanas se defendendo de acusações de plágio. A maneira como essas acusações ganharam vida própria no ecossistema da mídia é um forte lembrete do alto preço que as pessoas podem pagar em uma cultura que transformou a originalidade em uma espécie de virtude moral.
Em 2023, aos 38 anos, o acadêmico havia sido nomeado professor de sociologia da educação na Universidade de Cambridge, tornando-se o professor negro mais jovem nos 800 anos de história da instituição.
Nove dias antes de sua morte, Arday havia renunciado ao cargo de professor. Ele enfrentava críticas crescentes sobre detalhes improváveis e inconsistentes que apareciam em suas memórias, com lançamento previsto para as próximas semanas pela editora Simon & Schuster. A editora de Arday o apoiou, elogiando o "profissionalismo e a integridade" do acadêmico.
Mas a originalidade da tese de Arday e de seus outros trabalhos acadêmicos também estava sendo questionada, levando a várias acusações de plágio.
Arday negou veementemente as acusações, sugerindo que quaisquer erros fossem resultado de seu autismo. Ele também alegou que seus acusadores eram motivados por racismo.
A controvérsia em torno do trabalho de Arday reflete uma tendência contínua de opositores ideológicos lançarem acusações de plágio para se prejudicarem mutuamente. Acho que também vale a pena explorar por que tais ataques continuam sendo tão atraentes - e tão eficazes.
O plágio pode ser definido como a apropriação das palavras ou ideias de outra pessoa sem reconhecimento ou compensação.
No mundo antigo, o plágio era visto de forma bastante negativa: a palavra "plágio" significa, na verdade, "sequestrador" em latim, e o poeta romano Horácio descreveu o roubo literário como um corvo que se enfeita com penas roubadas.
Mas no meu livro de 2026, "Strikingly Similar" ("Incrivelmente Similar", em tradução livre, e ainda não publicado no Brasil), exploro como, ao longo do período medieval, do Renascimento e até o início da era moderna, prevaleceu um ethos de "imitatio" ("imitação" em latim). Chaucer, Shakespeare e Milton são exemplos de autores que seguiram de perto os escritores que os precederam. Esses escritores tomavam emprestados livremente enredos, personagens e recursos retóricos a serviço de suas próprias obras.
A verdadeira originalidade passou a ser vista sob uma luz positiva apenas gradualmente e, com o tempo, evoluiu para o conceito moderno de propriedade intelectual, no qual os produtos criativos da engenhosidade humana são considerados ativos tangíveis. Tratar as obras criativas como propriedade, por sua vez, criou o marco jurídico para protegê-las.
O artista alemão Albrecht Dürer deu início a um dos primeiros processos judiciais conhecidos relacionados à propriedade intelectual. Em 1506, ele solicitou ao governo veneziano que impedisse o gravador italiano Marcantonio Raimondi de copiar suas xilogravuras. Dürer teve apenas sucesso parcial: Foi decidido que Raimondi poderia continuar copiando a obra de Dürer, mas foi proibido de copiar também o monograma característico do artista.
No século XIX, como resultado da pressão de autores como Charles Dickens, o Parlamento britânico promulgou a Lei de Direitos Autorais de 1842. Essa lei ampliou consideravelmente as proteções concedidas aos autores. No entanto, levaria mais 50 anos para que autores estrangeiros como Dickens passassem a desfrutar de proteções semelhantes sob a legislação de direitos autorais dos Estados Unidos.
Hoje, a situação que existia durante o Renascimento se inverteu quase totalmente.
Na Europa, grupos de estudiosos se uniram para investigar alegações de plágio. Utilizando técnicas de crowdsourcing, o VroniPlag Wiki na Alemanha e o Dissernet na Rússia revelaram inúmeros casos de plágio cometidos por servidores públicos em suas dissertações e publicações acadêmicas.
Somente o trabalho do VroniPlag Wiki já levou várias universidades alemãs a revogarem títulos de doutorado que haviam concedido a autoridades governamentais eleitas e nomeadas.
Hoje, acusações de plágio se tornaram uma forma potente de minar a credibilidade de alguém. Se uma alegação for comprovada, o plagiador é visto, na melhor das hipóteses, como descuidado ou preguiçoso e, na pior, como fundamentalmente desonesto.
Como resultado, partidários da esquerda e da direita política usam rotineiramente alegações de plágio para difamar seus adversários ideológicos. Isso serve aos seus objetivos de desvalorizar tanto o trabalho de seus alvos quanto as instituições que eles representam.
Em 1991, Nina Totenberg, da NPR, divulgou a notícia das alegações de assédio sexual de Anita Hill contra o indicado à Suprema Corte, Clarence Thomas, atraindo a ira da direita. À medida que a controvérsia tomava conta do processo de confirmação, o Wall Street Journal, de tendência conservadora, ressuscitou uma acusação de plágio contra Totenberg, de quase duas décadas atrás, que remontava à época em que ela era repórter do National Observer.
O exemplo recente mais notável seria a denúncia de 2023 feita pelo ativista conservador Christopher Rufo de que Claudine Gay, então reitora de Harvard, teria cometido vários atos de plágio.




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