Bompard, do Carrefour: “Redução de custos no país melhorou rentabilidade” Nathan Laine/Bloomberg Grandes grupos de varejo de capital internacional têm se saído melhor da fase atual de desaceleração do varejo, enquanto as redes nacionais crescem menos e desemb…
Grandes grupos de varejo de capital internacional têm se saído melhor da fase atual de desaceleração do varejo, enquanto as redes nacionais crescem menos e desembocam em recuperações judiciais. Isso tende a causar maior desequilíbrio na participação de mercado das redes no bolo total do varejo, ampliando a força das operações estrangeiras na receita total gerada no país.
A conclusão faz parte de um levantamento do Valor que compara desempenho de empresas nacionais e estrangeiras nas mesmas áreas de atuação no acumulado deste ano. As discrepâncias são sentidas num momento de maior proteção à venda de produtos internacionais de baixo valor no país.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou no último dia 10 de setembro a lei que zera o imposto de importação para compras internacionais de até US$ 50, tributo que ficou conhecido como "taxa das blusinhas". Ao se considerar a renúncia em arrecadação federal com a medida em R$ 5 bilhões a R$ 6 bilhões em 2026, segundo a IFI (Instituição Fiscal Independente), órgão ligado ao Senado, para um imposto que anteriormente era de 20%, é estimado que entrem no país neste ano, no mínimo, cerca de R$ 25 bilhões em produtos estrangeiros de até US$ 50, calculou o Valor. Isso equivale à duas vezes a receita líquida de vestuário da Renner em 2025, a maior rede de moda no país.
A aprovação no Congresso foi uma das prioridades da agenda de Lula antes das eleições de outubro, e considerada medida eleitoreira, disseram na época as associações do setor.
Ao se analisar o desempenho dos grandes grupos que permitem comparação de suas receitas, há fatores macroeconômicos, e da própria gestão do negócio, comprometendo as vendas das companhias nacionais nos últimos tempos. Esses fatores pesaram mais contra os números do que a existência de aspectos positivos favoráveis relevantes aos negócios das redes estrangeiras, a ponto de desequilibrar esse jogo.
Somado a isso, ainda há o fato de que há redes nacionais dependentes da venda no Norte e Nordeste, praças que têm sentido de maneira mais forte o desaquecimento no comércio em geral. Mesmo a medida do governo federal de elevar em 15% o Bolsa Família, que dará impulso extra ao bolso do consumidor nessas regiões, havia dúvidas entre analistas de bancos na sexta-feira (18) se esses recursos não irão inicialmente para redução de endividamento e inadimplência.
Pesquisa Mensal do Comércio, publicada pelo IBGE na terça-feira (15) mostra que, de janeiro a julho, a venda no comércio cresceu 1,8% em volume. Há uma desaceleração no consumo, já que até março, a alta era de 2,4%.
Ao mesmo tempo, no entanto, os dados também mostram que os grupos estrangeiros não estão completamente isolados dos efeitos negativos da perda de vigor do consumo das famílias, reflexo da alta do endividamento neste ano, mas que parecem, até o momento, equilibrar melhor as pressões.
Com base no levantamento, os franceses do grupo Carrefour têm tido melhor desempenho em vendas “mesmas lojas” (pontos em operação há mais de 12 meses) do que o Grupo Mateus, rede maranhense, forte no Norte e Nordeste, e com portfólio de lojas diverso como o concorrente. Ambos operam no atacarejo e no varejo alimentar.
As vendas mesmas lojas servem como termômetro ao descontar o efeito de eventuais inaugurações que sempre elevam a receita.
De janeiro a junho, o Carrefour manteve praticamente a estabilidade nas vendas em relação ao ano passado (em moeda local), com leve queda de 0,1% nas vendas versus o ano anterior, enquanto o Mateus recuou 7,7% — um ano antes, a rede brasileira havia crescido 5,7%.
Se o lucro operacional do Carrefour no país subiu 0,9% de janeiro a junho, em reais, no Mateus isso recuou 22,3%, para R$ 888,5 milhões. “No Brasil, mercado ainda complexo, nossos planos de adaptação e iniciativas de redução de custos nos permitiram melhorar ainda mais a rentabilidade e retomar o crescimento das vendas no segundo trimestre”, escreveu em sua mensagem no balanço o CEO global do Carrefour, Alexandre Bompard.
Da mesma forma, os chilenos do grupo alimentar Cencosud, mesmo com as dificuldades em estabilizar os negócios de algumas de suas redes regionais, conseguiram apurar números menos pressionados que o Mateus. A empresa brasileira priorizou deliberadamente a lucratividade em detrimento da participação de mercado, abandonando uma estratégia comercial agressiva adotada nos últimos anos.
Controladores de cadeias como Giga Atacado, Prezunic e Perini, a chilena Cencosud tem sentido efeito em suas vendas da remodelação e fechamento de lojas, mas mesmo com esse impacto, o recuo nas vendas mesmas lojas foi menor que o verificado no Mateus.
De janeiro a março, o grupo estrangeiro recuou 1,4%, e no segundo trimestre o tombo avançou para 8% — índices menos pressionados, porém, que o da rede brasileira — negativo em 7,3% e 8%, respectivamente. Analistas de bancos projetavam queda menor para Mateus de abril a junho, de 5% a 7%.
Na visão de Ana Paula Tozzi, CEO da AGR Consultores, grandes grupos internacionais facilitam o acesso de suas operações no Brasil à estrutura de dados, sistemas e gestão, além do acesso às linhas de recursos no exterior, fatores que pesam favoravelmente em momentos mais conturbados. “Não é que sejam negócios que estejam vivendo num cenário perfeito, mas que operam com plano de longo prazo, com cultura de visão perene, e isso é fundamental em momentos mais turbulentos”, disse ela. “É bom saber que se tem para onde correr, para a empresa mãe, quando a situação complica”, afirma.
Enquanto o Carrefour fez a deslistagem de sua subsidiária no Brasil em 2025, e Cencosud não tem ações em circulação no país, Mateus fez sua oferta de papapéis na B3 em 2020.
Sobre o assunto, o Mateus afirma que as suas vendas têm refletido “um cenário de consumo ainda pressionado, marcado pelo elevado nível de endividamento das famílias e pelas mudanças no perfil da cesta de consumo da população”, diz em seu balanço de resultados de abril a junho.
Ainda afirma que tem defendido a defesa da lucratividade, e que essa postura tem dado resultado — a margem bruta foi de 23,2% de janeiro a junho, alta de 0,1 ponto.
Para João Soares, analista do Citi, o que ocorreu é que a rede é mais exposta ao Norte e Nordeste, onde é uma das líderes do varejo alimentar, e a região tem recuado mais o consumo no país. E a cadeia manteve a sua estratégia de priorização da rentabilidade, o que afetou receita. Um terço dos nove Estados onde a cadeia atua cresce abaixo da média nacional do varejo, segundo dados do IBGE até junho (os três Estados são Piauí, Alagoas e Pará)




0 Comentário(s)
Deixe seu comentário