“NAZA”, o documentário dirigido por Yuval Abraham e Rachel Szor, recebeu o recorde de ovação no Festival de Veneza: 24,5 minutos de aplausos de pé. Provoca indignação, revolta e desprezo pelo governo de Israel e pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Mas …
“NAZA”, o documentário dirigido por Yuval Abraham e Rachel Szor, recebeu o recorde de ovação no Festival de Veneza: 24,5 minutos de aplausos de pé. Provoca indignação, revolta e desprezo pelo governo de Israel e pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Mas causa também uma sensação mais profunda e perturbadora: a de que a humanidade pode ter perdido a esperança.
São depoimentos de 24 integrantes da inteligência das Forças de Defesa de Israel (IDF) que descrevem o funcionamento do sistema de massacre contra civis na Faixa de Gaza desde 7 de outubro de 2023. Os assassinatos foram realizados de maneira sistemática, deliberada e com o uso de tecnologia avançada de vigilância e inteligência.
Um dos próprios oficiais israelenses entrevistados utiliza o termo “genocídio” para definir o que estava acontecendo.
Nesse sentido, “NAZA” se aproxima de “Shoah”, o monumental documentário de Claude Lanzmann sobre o Holocausto. Os dois filmes são construídos a partir de entrevistas rigorosas com pessoas envolvidas nos acontecimentos. A diferença fundamental é que “Shoah” concentra-se nos sobreviventes e nas vítimas, enquanto “NAZA” coloca diante da câmera os responsáveis pela máquina militar.
As comparações com o Holocausto também aparecem nos próprios depoimentos. Um dos entrevistados afirma: “Nós apagamos a história”. Outro lembra uma viagem escolar aos campos de concentração na Polônia e diz: “Eu ainda vejo aqueles nazistas como maus, mas o que isso mostra que eu sou?”.
Para proteger os entrevistados, Abraham conduz as conversas em terraços de Tel Aviv durante a noite. As vozes e os rostos são alterados digitalmente, e até a caligrafia dos participantes é borrada para impedir sua identificação. O diretor permanece visível, enquanto Rachel Szor atua como diretora de fotografia, acompanhada por uma equipe não identificada.
Os prédios de aço e vidro ao fundo contrastam permanentemente com os relatos sobre a destruição em Gaza.
Segundo os depoimentos reunidos pelo filme, a inteligência israelense desenvolveu um sistema altamente automatizado para localizar e atacar pessoas consideradas integrantes do Hamas. Telefones eram monitorados e rastreados, enquanto drones e algoritmos de inteligência artificial eram utilizados para determinar com precisão a localização dos alvos.
Os oficiais explicam que os ataques noturnos são considerados especialmente eficientes. Era nesse horário que suspeitos de integrar o Hamas costumavam estar em casa, dormindo ao lado de suas famílias.
Um dos entrevistados define o sistema como uma “fábrica de alvos”.
O sistema demonstrava pouca ou nenhuma preocupação com as mortes de civis. Pelo contrário: em determinados casos, a presença de mulheres e crianças parecia ser incorporada ao cálculo do ataque.
O próprio título do filme vem da sigla usada pela inteligência israelense para designar esse tipo de dano colateral. Um alvo do Hamas aparece marcado em um apartamento acompanhado de cinco “NAZA”, isto é, cinco mulheres e crianças consideradas inocentes que seriam mortas junto com ele.
Em um dos relatos, um oficial afirma que 500 pessoas classificadas como “NAZA” foram mortas para atingir um único suspeito de terrorismo. Outros entrevistados descrevem ataques contra quarteirões inteiros e operações de destruição completa de áreas urbanas.
A lógica, segundo um dos depoimentos, era clara: “o objetivo era quantidade, não qualidade”.
Outro entrevistado compara o processo a um videogame. Em determinados momentos, afirma, a experiência poderia até produzir uma sensação de excitação.
“NAZA” também mostra como a banalização da morte pode ser acompanhada pela transferência de responsabilidade. Quando Abraham tenta obter dos entrevistados algum reconhecimento sobre a dimensão dos crimes cometidos, alguns recorrem a justificativas semelhantes à ideia da “banalidade do mal”, conceito formulado por Hannah Arendt ao analisar o comportamento de responsáveis pelo Holocausto.
“Sou apenas uma pequena engrenagem”, afirma um dos oficiais. “Outra pessoa teria feito isso.”
Outro resume sua participação dizendo: “Essa é a missão”.
É justamente durante uma dessas entrevistas que surge um dos relatos mais perturbadores: o uso de atiradores contra palestinos que tentavam desesperadamente conseguir comida.
Os depoimentos também mencionam as chamadas “zonas de aniquilação” em Gaza, nas quais qualquer ser vivo poderia ser considerado alvo — inclusive um adolescente que simplesmente entrasse em determinada área.




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