A virada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no segundo turno da eleição presidencial , fora do radar das pesquisas, foi construída pela queda forte da abstenção, a menor desde 2006, isto já está claro e devidamente radiografado pelas análises pós-eleitorais. Participar do processo eleitoral, contudo, não é um ato que dependa unicamente da vontade do eleitor, há um limite para isso.
Parte da abstenção é estrutural, e continua concentrada nos bolsões mais tradicionais de voto do lulismo: nas áreas com mais pobreza rural, a mobilidade é menor. Nos 200 municípios com renda média abaixo de R$ 1.102 por pessoa acima de 14 anos, de acordo com dados do Censo de 2022 compilados pelo Valor Data, houve uma queda de apenas 2,5% no total de eleitores ausentes em relação ao primeiro turno. Lula ganhou em todos os 200. Mas a sua votação percentual neste microcosmo diminuiu em relação ao segundo turno da eleição presidencial de 2022, embora continue largamente hegemônica ( de 81% para 78%).
O que fez a diferença este ano foi o aumento da participação eleitoral na outra ponta, a dos 200 municípios com renda média mais alta, acima de R$ 3.379. Nesta outra bolha a abstenção caiu 11,6% entre o dia 4 de outubro e o dia 25. É um microcosmo bolsonarista, com Flávio vencedor em 185 deles, mas a votação de Lula cresceu um pouco em relação ao segundo turno de quatro anos atrás, de 45% para 47%.
O grupo de municípios com renda mais alta está concentrado na região Sul (142 dos 200) mas é integrado também por cidades grandes, como Brasília, São Paulo, Niterói, Campinas, Santo André, Belo Horizonte e Curitiba. É muito mais heterogêneo, portanto.
A queda da abstenção ocorreu com mais força nas áreas mais pobres destas cidades ricas. No bairro do Barreiro, em Belo Horizonte, por exemplo, caiu 16,5%. No aristocrático bairro de Lourdes, recuou 10%. Em São Mateus, na extrema Zona Leste de São Paulo, houve uma queda de 15% nas ausências. No Jardim Paulista, o recuo foi de 11%.
Média sempre é um conceito enganoso. A cidade com a maior renda do Brasil (R$ 6.929) é Nova Lima (MG), vizinha a Belo Horizonte, e que abriga diversos condomínios de alto padrão e até um clube de golfe. Lá, Lula ganhou no segundo turno, e de virada. Mas Nova Lima abriga também bolsões de pobreza e 23% de seus habitantes estão inscritos no CadÚnico.
Nas cidades de renda alta com população pequena, onde não há tanta disparidade social, a votação obtida por Flávio foi acachapante. Na pequena Vespasiano Corrêa (RS), na região do Vale do Taquari, por exemplo, teve 88%. Lá, na contramão da tendência nacional, Flávio ampliou a vantagem sobre Lula entre um turno e outro. É um colégio eleitoral de 2,5 mil eleitores.
Nas cidades em que a renda baixa impera o padrão é muito mais uniforme e o predomínio do lulismo, total. Em Bacurituba (MA), na baixada maranhense, Lula teve 89%.
A redução da abstenção como fator impulsionador da votação do PT desaparece. Na mais pobre do Brasil, Cachoeira Grande (MA), onde a renda média era de R$ 758 por maior de 14 anos, o total de eleitores que se ausentaram contrariou a tendência nacional e subiu de um turno para outro. No dia 4 de outubro, 1.991 eleitores não compareceram. Em 25 de outubro, faltaram 2.555. Lula conseguiu por lá 81% dos votos.
O cadastro eleitoral de pequenos municípios no Nordeste deve ser visto com cautela. Cachoeira Grande tem 9 mil eleitores aptos e 10 mil habitantes. A segunda mais pobre, Caraúbas do Piauí, tem 5,3 mil eleitores e 5,6 mil habitantes. É muito usual na região existir municípios com mais eleitores do que habitantes. Trata-se de uma manipulação política, como já foi tratado nesta coluna.
Estes municípios em geral foram emancipados recentemente, e estão próximos de cidades polo. Candidatos a vereador interessados em um mandato incentivam eleitores a transferirem o registro para estes locais, mesmo não sendo os de sua moradia, para melhorarem suas chances de obter uma vaga. Mas mesmo onde não existe este tipo de manipulação persiste as dificuldades da mobilidade.




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