O Japão enfrenta dificuldades para ser incluído em um plano de incentivo a veículos elétricos da União Europeia (UE), o que ameaça reduzir as vendas das montadoras japonesas na região.
Em uma reunião realizada na quarta-feira, em Tóquio, com o chanceler alemão, Friedrich Merz, a primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, defendeu alterações na Lei de Acelerador Industrial (IAA, na sigla em inglês) da União Europeia.
Proposta pela Comissão Europeia em março, a IAA prevê a concessão de subsídios e outros tipos de apoio a empresas que fabriquem veículos elétricos e obtenham componentes dentro da União Europeia.
No dia 16 de outubro, Alemanha e França anunciaram um acordo para estender as regras de origem "Made in EU" (produzido na UE) a países parceiros que integravam o mercado único europeu em 1º de janeiro de 2020 — além dos 27 Estados-membros —, desde que determinadas condições sejam atendidas.
Embora haja expectativa de que o Reino Unido seja incluído, o Japão e a Coreia do Sul não foram mencionados.
O anúncio da IAA gerou preocupação no governo e na indústria automotiva do Japão. Os veículos elétricos representam cerca de 5% do volume de vendas da Toyota na Europa (incluindo o Reino Unido), o que equivale a mais de 50 mil unidades.
Tanto o governo japonês quanto empresas do setor privado, incluindo a Toyota, têm solicitado a inclusão do Japão entre os países elegíveis aos subsídios da IAA.
Em junho, durante a cúpula do G7 na França, Takaichi reuniu-se com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e expressou sua preocupação com a possível exclusão das montadoras japonesas.
O ministro da Economia, Comércio e Indústria, Ryosei Akazawa, também buscou alterações na IAA durante uma visita a Bruxelas, em maio, na qual se reuniu com seu homólogo europeu, Stephane Sejourne — vice-presidente executivo da Comissão Europeia para a Prosperidade e Estratégia Industrial.
No entanto, essas iniciativas preliminares não obtiveram sucesso. Um dos desafios para o Japão foi o volume limitado de vendas, na Europa, de montadoras japonesas que não a Toyota, o que dificultou a formação de uma frente unificada pelo setor privado. A França, em particular, tem insistido em subsídios para veículos elétricos fabricados na Europa. Ao contrário das montadoras alemãs, que possuem uma presença expressiva nos mercados internacionais, a Renault e outras empresas francesas dependem fortemente das vendas na EU. Por isso, a França tem se inclinado a proteger sua indústria nacional.
Na Europa, é comum que empresas ofereçam veículos aos seus funcionários por meio de regimes de locação, como parte de seus pacotes de remuneração. Esses "carros de empresa" são elegíveis a benefícios fiscais e subsídios para aquisição. Eles representam cerca de 60% do mercado europeu e constituem uma fonte fundamental de vendas para as montadoras japonesas.
Segundo algumas previsões, os veículos elétricos representarão mais de 90% do mercado europeu na década de 2030. A Toyota planeja fabricar elétricos em uma unidade na República Tcheca até 2028; contudo, por ora, a empresa depende majoritariamente de exportações provenientes do Japão.
"A Toyota não é uma 'convidada' na Europa", afirmou Yoshihiro Nakata, executivo-chefe (CEO) da Toyota Motor Europe, argumentando que a companhia desempenha um papel relevante na indústria automotiva europeia.
As montadoras japonesas começaram a exportar veículos para a Europa na década de 1960. Em 1968, a Toyota iniciou a montagem do modelo Corolla em Portugal, em parceria com uma empresa local. Nas décadas de 1980 e 1990, Toyota, Nissan e Honda estabeleceram fábricas no Reino Unido, enquanto a Suzuki inaugurou uma unidade na Hungria. Nesse período, as fabricantes japonesas geraram cerca de 170 mil empregos na Europa, além de estruturarem cadeias de suprimentos e redes de vendas.
Com base no acordo firmado entre a Alemanha e a França, as instituições da União Europeia darão início aos trâmites finais da proposta do IAA. Existe a possibilidade de que o projeto de lei sofra alterações parciais ao longo desse processo.
Em julho de 2025, o Japão e a União Europeia lançaram uma "Aliança de Competitividade", voltada a fomentar o comércio, os investimentos e o fortalecimento das cadeias de suprimentos — uma resposta ao protecionismo dos Estados Unidos, ao excesso de capacidade produtiva da China e a outras preocupações compartilhadas. Resta saber como o desfecho das discussões sobre o IAA impactará essa cooperação.




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