A guerra contra os EUA e Israel encorajou militantes iranianos que estão enfraquecendo o controle de Teerã em uma província remota no sudeste do país.
Segundo alguns analistas, insurgentes chegaram a tomar o controle de territórios próximos à fronteira com o Paquistão.
Nos últimos meses, militantes sunitas na província iraniana de Sistão e Baluchistão intensificaram emboscadas, atentados a bomba em estradas contra as forças de segurança iranianas e ataques a instalações de segurança.
A Acled, organização que monitora conflitos ao redor do mundo, registrou 70 ataques armados cometidos por militantes sunitas na província entre janeiro e a primeira semana de outubro — um número que, segundo a entidade, "já atingiu o patamar anual mais alto em pelo menos uma década".
Paralelamente, a Human Rights Activists News Agency (HRANA) — uma organização de notícias sobre direitos humanos no Irã, sediada nos EUA — documentou 94 mortes decorrentes de ataques de militantes desde março.
No dia 23 de setembro, o brigadeiro-general Hossein Zarifi, um alto comandante da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã, foi morto durante uma operação de segurança em Saravan, cidade próxima à fronteira com o Paquistão.
Alguns desses ataques foram realizados por uma aliança denominada "Frente dos Combatentes do Povo", conhecida pela sigla em persa JMM. Segundo o “Long War Journal”, publicação especializada em segurança sediada nos EUA, o grupo reúne organizações como o Jaish al-Adl — a principal organização militante sunita balúchi —, o Movimento Balúchi PADA, o Harakat-e Nasr Baluchistão e o grupo Mohammad Rasulullah.
De acordo com o estatuto de fundação da JMM, que circula on-line, os objetivos declarados do grupo incluem o fim do atual sistema clerical iraniano no país — de maioria xiita —, a proteção dos direitos políticos, culturais e religiosos da população balúchi (majoritariamente sunita) e a promoção de mudanças políticas mais amplas.
A militância armada na província ganhou destaque no início dos anos 2000 com o surgimento do Jundallah — que significa "Soldados de Deus" —, um grupo militante separatista sunita liderado por Abdolmalek Rigi.
Após a execução de Rigi pelo Irã em 2010, o movimento fragmentou-se, e o Jaish al-Adl surgiu por volta de 2012 como seu principal sucessor, dando continuidade aos ataques contra as forças de segurança iranianas.
Dois analistas disseram ao “Nikkei Asia” que, com o aumento do número de ataques, o grupo militante poderia tentar tomar o controle de um território na província de Sistão e Baluchistão, caso os EUA lancem um ataque em larga escala contra o Irã após a eleição de meio de mandato nos Estados Unidos na próxima terça-feira, 3 de novembro.
"O conflito entre Irã e EUA deu, mais uma vez, aos insurgentes nesta região um incentivo para atacar as forças de segurança iranianas, já que estas estão agora também preocupadas com os preparativos para lutar uma outra guerra contra os EUA", afirmou Umer Karim, pesquisador associado do Centro Rei Faisal para Pesquisa e Estudos Islâmicos, sediado em Riad, referindo-se ao breve conflito de 2025 como precedente.
Karim acrescentou que, desta vez, os EUA poderiam concentrar-se em apoiar os insurgentes balúchis na tomada de território. "Isso colocaria o Irã diante de um desafio singular: uma guerra em seu próprio solo", disse ele, "dificultando que o país mantenha o foco total em seus ataques contra alvos em toda a região do Oriente Médio ou contra instalações dos EUA".
Alex Vatanka, pesquisador sênior do Middle East Institute — um centro de estudos sediado em Washington —, concordou, observando que os insurgentes enxergam uma oportunidade na preocupação de Teerã em confrontar os EUA e Israel. "Eles podem avaliar que a capacidade de segurança enfraquecida do Irã lhes confere maior liberdade de atuação", afirmou.
"A crescente instabilidade ao longo da fronteira com o Paquistão pode interromper rotas comerciais vitais e forçar o Irã a desviar recursos de segurança para o leste", disse Vatanka.
O maior perigo é que uma guerra prolongada possa transformar insatisfações localizadas em um desafio mais amplo à coesão nacional no Irã."A minoria étnica balúchi, na província de Sistão e Baluchistão, compõe cerca de 2% a 4% da população do Irã, segundo o International Crisis Group.
Vatanka, que também é autor de "Irã e Paquistão: Segurança, Diplomacia e Influência Americana", afirmou que as causas subjacentes da tensão são insatisfações de natureza étnica, econômica e sectária, além de ressentimento em relação às políticas de segurança de Teerã. "A guerra agravou essas tensões ao sobrecarregar o aparato de segurança do Irã e aprofundar as dificuldades econômicas em uma região já marginalizada", disse ele.
Uma deterioração na situação de segurança na província do sudeste do Irã poderia afetar negativamente o Paquistão.
Como muitos especialistas observam que a província paquistanesa do Baluchistão — que faz fronteira com a província iraniana de Sistão e Baluchistão — já se encontra desestabilizada, Karim alerta que Islamabad poderia perder um "parceiro de segurança" na região fronteiriça. "No caso de um aumento da violência no lado iraniano e de um enfraquecimento da autoridade do Estado iraniano", disse ele, "o Paquistão deixará de ter um parceiro de segurança com quem coordenar ações no lado iraniano."




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