Durante vinte anos eu fui o sobrinho. Não por sangue, mas por função. Toda família brasileira tem um. Aquele parente que entende de máquina e, por isso, vira o tradutor oficial entre a família e qualquer coisa com botão. No Brasil dos anos 2000, o símbolo dessa profissão era o DVD travado na sala, eternamente, [...] O post O fim da (in)dependência dos sobrinhos apareceu primeiro em Folha BV .

Durante vinte anos eu fui o sobrinho. Não por sangue, mas por função. Toda família brasileira tem um. Aquele parente que entende de máquina e, por isso, vira o tradutor oficial entre a família e qualquer coisa com botão. No Brasil dos anos 2000, o símbolo dessa profissão era o DVD travado na sala, eternamente, até o sobrinho chegar no Natal.

Nenhum deles era incapaz. O problema nunca foi a pessoa. O problema era a língua. Para fazer a máquina obedecer, você precisava falar a língua dela: menu dentro de menu, configuração dentro de configuração, um vocabulário que ninguém escolheu aprender. Quem não falava, dependia de intérprete. E o intérprete era eu, de plantão, sem contrato.

Aí o telefone parou de tocar.

Isso é a independência que a IA trouxe. Não das pessoas. Da sintaxe. Pela primeira vez, tecnologia complexa deixou de exigir intermediário para as tarefas do cotidiano. O DVD destravou sem o sobrinho precisar ir lá.

O sobrinho não foi demitido. Foi promovido. Deixou de ser manual de instruções ambulante e virou conselheiro. E o que vale para a família vale para a empresa: a IA liberou todo mundo de pedir ajuda para operar a ferramenta. O que ela não faz, e ninguém deveria querer que fizesse, é decidir por você se aquilo que está na tela merece confiança.

Independência é isso. Não é dispensar quem pensa. É parar de precisar de quem aperta.