O texto de August Strindberg transforma uma disputa sobre o futuro de uma filha numa luta pelo poder dentro de casa.
«A Laura não quer que a Berta se vá embora e eu não quero que ela fique nesta casa de loucos», dispara o Capitão, antes de garantir que «não tolera» que «ninguém, seja mulher ou criança» se atravesse no seu caminho. A dureza destas palavras convive, contudo, com uma incapacidade crescente para transformar autoridade em controlo. É precisamente aqui que Gonçalo Waddington encontra a personagem.
«Quando digo que [o Capitão] é um mau casting para exercer autoridade, é no sentido de que vive numa sociedade em que ele é o homem, é ele que recebe o dinheiro, é militar, tem uma posição e tem de exercer autoridade», explica o também encenador. No quartel, esta hierarquia funciona, porque está «institucionalizada», mas, com a família, em casa, é diferente: «Ele acha que tem de exercer autoridade completamente, mas está sempre a ser ludibriado por todas as mulheres».
Quanto mais o Capitão reclama autoridade, mais evidente se torna a dificuldade em exercê-la. «Porque é que todas as mulheres tratam os homens como se fossem meninos?», pergunta a certa altura. A frase pode soar a um protesto contra as mulheres que o rodeiam, mas também denuncia, precisamente, aquilo que ele tenta esconder: a distância entre a imagem de homem que a sociedade espera dele e aquilo que realmente consegue ser.
Nem sequer a misoginia frequentemente associada a Strindberg parece passível de uma leitura «sem contradições». Gonçalo Waddington lembra que o dramaturgo escreveu afirmações «profundamente misóginas», mas também «defendeu os direitos das mulheres, desde o voto à possibilidade de terem uma carreira».




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