Estudo mostra divisão entre preferência por Messi, à esquerda, e Cristiano Ronaldo, à direita

Escritor, doutor em ciência política pela Universidade Católica Portuguesa

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22.jun.2026 às 16h30

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João Pereira Coutinho Futebol é política. O Brasil sabe disso. Durante anos, a direita bolsonarista sequestrou a camisa da seleção para se apresentar como mais nacionalista, mais patriótica, mais popular. A esquerda permitiu esse roubo e só recentemente resgatou a camisa das mãos dos Bolsonaro. Já era tempo.

Não é caso único. O Financial Times dedicou algum espaço à guerra das camisas na América Latina. Na Colômbia, por exemplo, a questão chegou mesmo a um tribunal de Bogotá: será que Abelardo de la Espriella, o candidato presidencial de direita, pode aparecer em campanha com as cores da seleção colombiana?

Não pode, decidiu um tribunal do país. A sentença foi revogada por uma instância superior e Espriella continua de amarelo, azul e vermelho. O seu principal adversário, Iván Cepeda, passou a usar as mesmas cores.

Há algo de cômico nessas guerras. Há também algo de totalizante —e, num sentido mais forte, algo que recorda a ambição totalitária de transformar tudo em sinal político.

Nos regimes fascistas, o esporte não era apenas esporte. Era afirmação política do regime. A Copa do Mundo de 1934, na Itália, ou os Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936, são exemplos extremos de manipulação do esporte para consagrar o poder.

Durante a Guerra Fria, o bloco soviético fez o mesmo: seus atletas não eram apenas atletas, mas soldados de uma guerra simbólica contra o Ocidente capitalista.

Além disso, a contaminação de todas as áreas da vida —esporte, cultura, comportamentos, amizades, etc.— pela ideologia é uma das facetas da lógica totalitária e da sua ambição de dominar integralmente a vida humana.

A única diferença é que, hoje, esse contágio não é exclusivo de regimes autoritários. As democracias também o praticam voluntariamente.

E quem fala de democracia fala de universidade. Soube pela imprensa brasileira de um estudo fascinante sobre Lionel Messi e Cristiano Ronaldo. Fui lê-lo. Recomendo. O título é "Political Identity Beyond Politics: The Messi-Ronaldo Preference Across 26 Countries". A tese está no título: a política quer escolher até nosso craque favorito.

Pessoas de inclinação progressista tendem, em média, a escolher Messi. Pessoas de inclinação conservadora tendem a ficar com o meu compatriota.