Há temas que estão em alta e que direitistas souberam trabalhar melhor do que a esquerda

Economista, mestre em filosofia pela USP

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22.jun.2026 às 21h09

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Se o padrão ainda não era claro, agora, depois Colômbia e provavelmente o Peru elegerem líderes de direita, ele deve estar: uma onda de direita está varrendo a América do Sul. Quando Lula iniciou seu mandato, Argentina, Colômbia, Peru, Bolívia e Chile tinham líderes de esquerda. Hoje, ou já têm líderes de direita ou acabaram de os eleger.

É um movimento pendular. No futuro, veremos outras "ondas vermelhas". Por enquanto, o trabalho é tentar entender o que está por trás desse movimento à direita. Segurança, corrupção, economia, migração; temas que estão em alta e que a direita soube trabalhar melhor do que a esquerda.

Hoje, o indivíduo —o cidadão comum— está em alta. Este mesmo que ganhou espaço para se expressar com as redes sociais, almeja poder crescer e atingir seu sucesso e exige responsabilização e punição por crimes cometidos. Não aceita ver suas ideias e valores sendo descartados em nome do parecer de "especialistas" ou de uma elite cultural mais esclarecida. As pessoas querem agência, e não serem reduzidas a um sintoma dos processos sociais. E isso se alinha aos valores dos EUA, hoje mais assertivos do que no passado.

O grande exemplo da esquerda antiamericana no continente, a Venezuela —cujo regime era incensado por intelectuais progressistas do mundo todo até outro dia— produziu um desastre econômico, político e humanitário. Uma ditadura brutal, corrupta e miserável, mesmo em posse das maiores reservas de petróleo do mundo, que produziu fome e êxodo em massa. A esquerda ficou marcada como a má gestão econômica, inflação, excesso de gasto, corrupção e insistência na redistribuição de renda para países que ainda precisam crescer muito.

Já a direita tem um novo modelo para chamar de seu: o El Salvador de Bukele. Depois de anos de resignação frente ao flagelo da violência e do crime organizado, um país mostra que é possível reduzir drasticamente o problema. A América Latina é a região mais violenta do mundo e o povo está farto. Se governos democráticos e respeitadores dos direitos humanos não começarem a mostrar resultados similares, vai ser muito difícil convencer os eleitores de que esses valores valem mais do que a proteção da vida dos trabalhadores honestos.

No Brasil, esses temas também castigam a esquerda. Ela tem enorme dificuldade em defender algo básico como a prisão para um assassino de 17 anos. O tema da corrupção também não lhe desce bem. O petrolão e a necessidade posterior de defender Lula levou nossa esquerda em peso a desqualificar a Operação Lava Jato como se fosse um complô. E agora toda tentativa de combate à corrupção é desmerecida.

A julgar pelas prioridades dos eleitores brasileiros em 26 —segurança, combate à corrupção— o mesmo processo que favoreceu a direita no resto do continente está em operação aqui. A grande diferença para com os países aqui citados é Lula, que tem um vínculo com o eleitorado de baixa renda, especialmente no Nordeste, que lhe garantiu a vitória em 2022 e o mantém como favorito agora (ajudado, é claro, pelo pacote de bondades de R$ 215 bilhões). Lula é maior do que a esquerda brasileira. Mas 2026 é sua última eleição. O que ela fará depois dele?

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