Por que pessoas sozinhas estão criando as comunidades mais humanas da internet Confira a matéria completa!

Durante anos, a internet nos prometeu conexão. Amigos sem fronteiras, comunidades infinitas, relacionamentos instantâneos e a possibilidade de nunca mais estarmos sozinhos. A promessa era simples: se o isolamento era um problema humano, a tecnologia seria sua solução. Duas décadas depois, o resultado parece mais ambíguo. Nunca estivemos tão conectados e nunca falamos tanto sobre solidão.

Talvez por isso um dos fenômenos mais curiosos das redes sociais recentes seja o surgimento dos chamados “loneliness influencers”, criadores de conteúdo que documentam a própria vida solitária. Muito provável o seu algoritmo já te entregou isso: são vídeos de jantares feitos para uma pessoa, noites silenciosas em apartamentos pequenos, passeios ao cinema desacompanhados e rotinas ordinárias embaladas por legendas como “uma sexta-feira de alguém sem amigos” ou “você mora sozinho e sua noite é assim”. O que poderia parecer triste para alguns se tornou aspiracional para milhões. E isso diz muito menos sobre os criadores e muito mais sobre quem assiste.

Existe algo profundamente reconfortante em descobrir que a própria experiência não é uma exceção. A solidão, quando compartilhada, deixa de ser apenas ausência e passa a ser reconhecimento. Os comentários desses vídeos rapidamente se transformam em pequenos fóruns sobre livros, receitas, cachorros, séries e rotinas domésticas. Paradoxalmente, pessoas sozinhas estão formando comunidades em torno da experiência de estar sozinhas, o que particularmente parece mais uma cura do que um problema.

Reside aqui uma diferença fundamental em relação ao outro grande fenômeno da década: os “companheiros” de inteligência artificial.

O Brasil oferece um retrato particularmente interessante desse cenário. Uma pesquisa da Market Analysis mostrou que mais de um em cada três brasileiros, ou 35,2% da população, afirma sentir solidão sempre ou com muita frequência. O dado desafia o velho imaginário do brasileiro naturalmente gregário e traz um detalhe ainda mais revelador: os entrevistados que se sentem mais sós também relatam ter menos controle sobre a própria vida digital e experimentar a conectividade como um peso, não como libertação.

A promessa da conexão permanente parece ter produzido algo inesperado: a tão presente exaustão social.

Não surpreende, então, que o vazio emocional esteja começando a ser ocupado por novas tecnologias e não por pessoas. Estudos recentes mostram que 72% dos adolescentes americanos já utilizaram companheiros de IA e cerca de um terço afirma considerar essas conversas tão ou mais satisfatórias do que interações com amigos reais. O que é preocupante, afinal, IA não rejeita, não existe, não se relaciona. Mas ainda assim, a maioria continua preferindo relações humanas e 80% relatam passar mais tempo com amigos de verdade do que com seus companheiros artificiais.

No painel “Love A(I)ctually”, Sarah Turner, líder de produto do Feeld, resumiu o dilema de maneira elegante: sem a possibilidade de julgamento, rejeição ou decepção, não existe verdadeira vulnerabilidade. E sem vulnerabilidade, talvez não exista intimidade. Exista apenas um espelho. IA não é relacionamento, relação, nem nada próximo disso.

Retomando, é aqui que os influenciadores da solidão parecem ocupar um lugar inesperadamente muito mais saudável do que o GPT que te acha brilhante e/ou o Claude que resolve várias tarefinhas pra você. Porque, apesar da mediação algorítmica, eles continuam sendo pessoas, vulneráveis, reais e normatizando algo que não precisa ser velado e escondido.

Quando assistimos alguém preparando o jantar sozinho numa sexta-feira à noite, estamos diante de uma existência real, com desejos, medos, frustrações e limites próprios. Existe alteridade. Existe um outro. Existe a possibilidade do desconforto, da identificação e até da discordância. O criador não existe para nos agradar. Ele simplesmente existe, e saber isso é confortante, principalmente se também experimentamos isso em algum momento.

Uma IA, por outro lado, foi construída precisamente para responder, adaptar-se e permanecer 100% disponível. Entretanto, ela não sente nossa falta, não depende de nós e não sofre com a nossa ausência. A relação acontece em uma única direção. Como argumenta o pesquisador James Muldoon, parte da experiência humana consiste justamente em sermos importantes para outras pessoas. Máquinas não precisam da gente, tipo, o GPT não é seu fã.

Talvez seja por isso que os influenciadores da solidão sejam menos um sintoma de isolamento e mais uma tentativa coletiva de humanizá-lo. Eles não substituem vínculos; eles lembram que outras pessoas atravessam as mesmas ausências.

A ironia é extraordinária, afinal, a mesma internet que ajudou a criar uma epidemia de hiperconexão parece estar produzindo seus próprios antídotos, feito por humanos. Primeiro vendeu a ideia de que deveríamos estar disponíveis o tempo todo. Agora monetiza vídeos de pessoas desligando notificações, jantando sozinhas e aprendendo a conviver consigo mesmas.

No fim, talvez a disputa não seja entre solidão e companhia, nem entre humanos e máquinas. Talvez seja entre relações reais, imperfeitas e arriscadas, e versões algorítmicas de nós mesmos. Porque um influenciador da solidão ainda aponta para o mundo e para outras pessoas. Um companheiro de IA, em última instância, aponta de volta para nós mesmos. E espelhos, por mais confortáveis que as vezes sejam, só refletem uma única verdade, e se relacionar é se compor de outros, de desconfortos e adaptações.