“O que fazemos não tem glamour, mas alguém tem de o fazer - e bem!”, diz Pedro Badoni, fundador da DeathClean, cujo outdoor “Limpamos locais de crime” é um caso de sucesso de marketing.

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O número de casos que vocês recebem, eu estou aqui a lembrar que nos anos 80, anos 90, por exemplo, homicídios, é mais de um por dia, a média era 400 por ano, ainda era bastante nessa altura. Hoje em dia, em 2024, houve 89, 2025 houve 108 homicídios em Portugal. Como dizia o Carlos Aveiro, numa conversa contigo, dizia: "89 é um fim de semana animado no Rio Tejo".

"Limpamos locais de morte" é certamente o outdoor mais macabro das estradas portuguesas e o que mais tem intrigado todos aqueles que por ele passam. O principal responsável por estes cartazes está comigo, Pedro Badoni, fundador, CEO e porta-voz da Death Clean, a empresa portuguesa de limpezas técnicas especializadas, pioneira em Portugal e única, certificada e acreditada internacionalmente na Europa. O Pedro é engenheiro do ambiente, foi bombeiro sapador 16 anos e trabalhou na área da proteção civil, até criar esta empresa e especializar-se na intervenção e gestão de incidentes em cenários contaminados por agentes químicos e biológicos em contextos de terrorismo e de guerra. Desde então, tem prosseguido lá fora a sua formação na área NRBQE, nuclear, radiológica, biológica, química e explosiva. Vamos falar com alguém cujo negócio de vida lida de perto com o sangue e a morte, a equipa que limpa o que mais ninguém quer e deve limpar. Fica o aviso, arranca aqui uma conversa no mínimo imprópria para a hora de jantar. Olá, Pedro, e bem-hajam por ter aceitado este meu convite. Bem-vindo à Rádio Observador.

Olá, João, obrigado, com muito gosto.

É um grande prazer estar aqui a falar contigo. Tu és setubalense, da cidade do Sado, onde estudaste toda a vida, até vires cá para Lisboa estudar ciências do ambiente, engenharia do ambiente. E é engraçado, porque tu desde pequeno querias ser bombeiro. Quando as pessoas diziam aos miúdos: "O que é que queres ser?" E tu: "Bombeiro" era assim um sonho, até que entraste aos 26 anos no teu trabalho de sonho, que era ser bombeiro, bombeiro sapador, lidar com estas coisas.

É verdade, é o trabalho de sonho. Consegui entrar. Não é fácil entrar para os sapadores. É muito exigente a parte de entrada, a recruta também, mas consegui realizar o meu sonho.

E foste 18 anos. E depois é curioso, porque foi aí, enquanto sapador bombeiro, que fizeste esta formação em TAT, SBV, isto é suporte básico de vida, imagine.

Sim. Foi nesta situação e neste trabalho que viste os teus primeiros cadáveres. Portanto, foram mortes, acidentes, mortes em casa.

Isso mesmo. Nós, na altura, a companhia de bombeiros sapadores de Setúbal, fazia o levantamento de cadáveres. Após ocorrer uma morte, o corpo era necessário ser removido para a geração de medicina legal e era a companhia em Setúbal que fazia essa remoção. Passado uns anos, deixou de o fazer e foi entregue a outras entidades. Aí foi a primeira vez que lidei com situações de morte, algumas até traumáticas, porque nem todas são situações de morte natural em casa.

E despertou um pouco. Mas mesmo assim, nessa altura, quando despertou, não foi o suficiente para partir para este projeto que nasceu em 2008.

Entretanto, tenho um amigo meu sapador também, que diz que cada vez mais, Pedro, se defronta com isto, a solidão, as mortes em casa. A casa cheira mal, os vizinhos dizem e há de fato um velhote que morreu sozinho, estava há uma semana e tal morto, já em estado avançado de decomposição, tu sabes disso melhor que ninguém. Mas por que aconteciam muitas mortes em casa? Porque não têm família que os acolha e que os queira?

E continua a acontecer.

Cada vez mais. Há muitos casos.

Nós no verão temos mais situações de trabalho para nós, não quer dizer que hajam mais mortes. Há mais decomposições, porque o calor aparece, aumenta e um corpo, estando dois, três dias, entra em decomposição e dá o alerta aos vizinhos a nível do odor. No inverno, demora mais tempo.

Aprendi contigo que o odor a morte é um odor específico, como o sangue, cheira a ferro. E aprendi contigo que o pior odor de todos, mais do que um corpo em decomposição, é aquelas arcas frigoríficas com carne e peixe.

Carne e peixe, é verdade.

Quando aquilo deixa de funcionar e se misturam os cheiros e apodrece.

É verdade, bem pior.

É pior do que um corpo em decomposição. Eu lembro-me de fazer um trekking na serra de Castro Laboreiro e ver uma vaca meio comida por lobos, com o buraco aberto, já cheia de vermes e coisas e que dava um cheiro que à distância se sentia.

Mas no exterior, o cheiro também é um pouco mais intenso, apesar de nós não termos esse tipo de coisas no exterior, mas o cheiro é mais intenso. E o cheiro de animal também no exterior torna-se um pouco mais intenso. É um cheiro diferente. Ambos, seja um cadáver humano ou de um animal, são odores muito desagradáveis. Mas no exterior e no animal é bem mais intenso do que dentro de uma casa, um corpo.