Roberta Luchsinger, lobista e amiga de Lulinha Reprodução/X A Polícia Federal identificou mensagens e comprovantes de depósito que mostram que a empresária Roberta Luchsinger, investigada por suspeita de tráfico de influência, teria ordenado o pagamento de ce…

A Polícia Federal (PF) identificou mensagens e comprovantes de depósito que mostram que a empresária Roberta Luchsinger, amiga de um dos filhos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e investigada por suspeita de tráfico de influência, teria ordenado o pagamento de cerca de R$ 60 mil ao secretário-executivo adjunto do Ministério de Desenvolvimento Social (MDS), Ranniêr Costa Ciríaco, e a José Martinho Ferreira de Araújo, coordenador do cerimonial do ministro do Desenvolvimento Social, Wellington Dias.

A informação foi revelada pelo jornal O Estado de S. Paulo e confirmada pelo Valor com fontes ligadas à investigação. O material faz parte do relatório de mais de 300 páginas da Polícia Federal usado para justificar a abertura de um inquérito que investiga Roberta, Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, e outras cinco pessoas por suspeita de tráfico de influência para tentar obter um contrato de fornecimento de canabidiol junto ao governo federal. O contrato não se concretizou.

No relatório, a PF lista várias mensagens encontradas no celular de Roberta no âmbito da Operação Sem Desconto e outros elementos encontrados pela investigação para embasar o pedido de investigação. Neste caso específico envolvendo os servidores do MDS, foram identificadas conversas entre a empresária e seu motorista, Ulisses Barbosa, nas quais ela manda ele pegar R$ 60 mil em espécie que estavam na casa dela e fazer os pagamentos aos servidores e a uma pessoa ligada a eles no dia 2 de junho de 2023.

Uma conta era a de Ranniêr Costa Ciríaco, atual número três do Ministério do Desenvolvimento Social. Outra era de José Martinho Ferreira de Araújo, que atualmente está lotado como coordenador do cerimonial da pasta e que já trabalhou como motorista do gabinete do ministro Wellington Dias (PT) quando ele era senador. A terceira conta, segundo a PF, pertenceria à mãe da filha de José Martinho.

“Esse montante de 60k tem que ser diluído para depositar.. pq o banco faz uma série de questionamentos”, disse o motorista a Roberta, que indicou que o pagamento seria em três contas.

Ao chegar no banco, Ulisses também alertou a empresária que movimentação de valores tão altos poderiam chamar atenção. “Já estou no banco. Acima de 50 mil por dia por CPF a moça disse que o Banco Central já fica de olho... já aciona tipo um alerta lá. Só avisando”, afirmou.

Apesar do alerta, Roberta falou que ele podia fazer os pagamentos e, na sequência, ele enviou os comprovantes de R$ 20 mil cada para ela. Nas mensagens não fica claro o motivo dos pagamentos. Além deste episódio, a PF identificou que Roberta chegou a manter malas com R$ 500 mil em espécie em casa para pagamentos que ela teria ordenado que o motorista realizasse.

Seis meses após esses pagamentos, em dezembro de 2023, o MDS firmou contrato com um empresário do setor de tecnologia, Cléber Ribas, que era representado por Roberta Luchsinger.

A contratação da 3Structure, por R$ 31,2 milhões, deu-se por meio de pregão eletrônico, isto é, quando as empresas apresentam suas propostas e a que oferecer o menor preço leva. Em novembro de 2025, houve um aditivo de R$ 2,7 milhões. Em abril deste ano, o ministério celebrou um novo contrato com a empresa, também por meio de pregão eletrônico, no valor de R$ 19,2 milhões.

Em nota, o MDS rechaçou que tenha havido qualquer favorecimento à empresa e disse que nenhum dos dois servidores mencionados nas mensagens possuíam competência sobre a área com a qual foi fechado o contrato com a 3Structure. “O Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS) rechaça a tese de que tenha havido qualquer tipo de favorecimento na licitação de serviços de backup de tecnologia, que foi realizada por meio de pregão eletrônico — modalidade em que vence a empresa a apresentar o menor preço durante disputa feita com absoluta transparência”, diz a nota. “Quanto aos dois servidores citados, cabe destacar que nenhum deles tem competência sobre essa área, logo não houve qualquer participação no processo licitatório em questão”, segue o texto.

Em nota, a 3Structure afirmou não ter conhecimento sobre os pagamentos. “A 3Structure não tem conhecimento sobre tais pagamentos. Todos os contratos firmados pela empresa com o governo federal foram assinados em estrito cumprimento das normas aplicáveis às contratações públicas e submetidos a inúmeras instâncias decisórias, análises técnicas dos órgãos contratantes e auditorias do TCU”, diz a empresa.

O advogado Roberto Podval, que defende de Roberta Luchsinger, informou que não iria se manifestar sobre “vazamentos ilegais e não necessariamente verídicos, claramente com intenções político eleitoreiras a véspera das eleições”. A defesa de Lulinha não se manifestou. O Valor não conseguiu localizar a defesa dos demais citados.

Em 2014, Martinho foi detido no interior da Bahia com R$ 180 mil em notas de R$ 100. À época, ele disse à polícia ser o dono do dinheiro e negou qualquer ligação da quantia com o senador.