Com grande alcance nas redes sociais, páginas voltadas ao entretenimento circulam temas políticos e podem influenciar voto de indecisos.

https://p.dw.com/p/5MzrbAnúncioEntre fotos de uma celebridade grávida, juras de amor de um casal de apresentadores e detalhes de um transplante capilar de um influenciador digital, um vídeo com teor político parece meio deslocado numa plataforma dedicada a fofocas do entretenimento.

Um levantamento exclusivo feito pelo Monitor do Debate Político no Meio Digital, da Universidade de São Paulo (USP), aponta uma grande diferença no alcance de conteúdos políticos publicados em contas mais voltadas para fofocas e veículos jornalísticos tradicionais.

"Esses sites estão falando de celebridades, mas no meio disso eles colocam uma coisa de política. E como eles têm muito engajamento, em geral, por serem conhecidos por publicarem mais fofoca, quando eles falam de política viram o primeiro lugar num dia quentíssimo", comenta Pablo Ortellado, coordenador do Monitor, referindo-se ao caso envolvendo o Master de Daniel Vorcaro.

A mistura da fofoca com a política virou uma ferramenta potente de marketing político. Originalmente voltados ao entretenimento e à vida dos artistas, esses perfis abordavam temas normalmente distantes da pauta política tradicional. Mas nos últimos quatro anos, essa dinâmica mudou.

"Como eles atuam em segmentos que não estão, vamos dizer, politizados, ideologizados, polarizados, eles têm um grande poder de penetração, principalmente em eleitores indecisos", analisa Cláudio Penteado, professor da Universidade Federal do ABC e coordenador do Observatório de Conflitos na Internet e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital.

Célia Xakriabá, primeira mulher indígena eleita em Minas Gerais, em 2022, já viveu em seu mandato os efeitos dos sites de fofoca. Em diversas ocasiões, foi atacada nessas plataformas por defender pautas políticas ligadas às mulheres e às pessoas LGBTQ+.

Em seus estudos, o professor Cláudio Penteado concluiu que a ideia de clima permanente de campanha tem efeito prático nos votos. Uma pesquisa recente publicada pelo grupo mostrou que os prefeitos de capitais reeleitos tinham um bom engajamento dentro das redes socias.

"Da mesma maneira que alguns sites fazem fofoca e o brasileiro é um público 'noveleiro', a internet também possibilita esse clima de campanha permanente, que é como se fosse uma novela permanente", comenta Penteado.

Na comunicação política, uma transformação importante ocorreu desde as últimas eleições presidenciais. A de 2018 foi marcada pela forte presença de temas de ordem moral entre Jair Bolsonaro (PL) e Fernando Haddad (PT). Vencedor daquela disputa, Bolsonaro deu pouco espaço à política social e econômica e focou sua comunicação em pautas como a oposição ao feminismo, aos movimentos LGBTQ+, e aos partidos tradicionais.

Em 2022, analisa Ortellado, a estratégia mudou: como presidente e candidato à reeleição, Bolsonaro incorporou à campanha um volume maior de propostas e realizações de políticas públicas. Luiz Inácio Lula da Silva (PT), por sua vez, também estruturou sua campanha em torno de políticas públicas e do legado de seus governos anteriores.

"Qualquer brasileiro consegue ver rapidamente que o que está sendo arrastado para as campanhas de 2026 são os escândalos de corrupção, que estão ganhando muito mais espaço nos veículos tradicionais e principalmente nos sites de fofoca", analisa Pablo Ortellado.