Ao se ausentarem de debate da Band, Lula e Flávio repetem estratégia recorrente nas eleições brasileiras. Para especialistas, ação visa reduzir riscos à imagem, mas esvazia papel democrático dos confrontos.

https://p.dw.com/p/5JKyIAnúncioEm 2006, no auge de um escândalo que levou à prisão integrantes do Partido dos Trabalhadores (PT) por tentativa de compra de um dossiê falso, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva faltou ao debate promovido pela Rede Globo na véspera do primeiro turno. A emissora leu no ar a carta em que o petista justificou a ausência, alegando que o encontro viraria uma arena de agressões. A cadeira reservada ao candidato permaneceu no cenário, e os concorrentes foram autorizados a dirigir a ela as perguntas que fariam ao então presidente.

Nesta quinta (01/10), a TV Globo cancelou o debate presidencial após o candidato Flávio Bolsonaro (PL), desistir em cima da hora de participar do evento, na esteira de uma série de decisões judiciais que alteraram o formato inicialmente previsto pela emissora. Lula já havia anunciado que não iria ao debate.

Anteriormente, em 23 de agosto, um debate, na TV Bandeirantes, foi ignorado tanto por Lula quanto por Flávio. Posteriormente, dois debates, um da Record e outro de um consórcio de veículos, também foram cancelados após Lula e Flávio informarem que não participariam.

É o que a história mostra desde os primeiros debates televisionados. Mesmo antes do efeito das redes sociais nas campanhas, tornou-se quase lugar-comum o favorito evitar o confronto.

Em 2010, foi a vez de Dilma Rousseff (PT) evitar diversos confrontos televisivos. Já a eleição seguinte gerou ausências por divergências sobre o formato, com o cancelamento de três debates, ainda que o modelo tenha ganhado fôlego no segundo turno. Líderes nas pesquisas, Dilma e Aécio Neves (PSDB) protagonizaram confrontos intensos.

Em 2022, o roteiro se repetiu dos dois lados. Emissoras cancelaram debates ou realizaram sabatinas individuais após desistências dos dois principais candidatos, Lula e Bolsonaro.

"Existe um custo da imagem de fujão, de covarde? Sim, ele existe, mas tende a ser absorvido, especialmente quando o eleitor já decidiu o voto e essas pessoas estão na frente", argumenta.

Para o desafiante, o debate é a única chance de falar diretamente ao eleitorado do adversário; para o mandatário, o mesmo palco converte cada resposta em prestação de contas, dizem especialistas.

"O ponto que costuma passar batido é que uma estratégia racional para o candidato pode representar uma perda para a democracia. [...] Quem lidera não disputa apenas uma vantagem nas urnas; disputa a legitimidade para governar depois delas, e essa não se conquista fugindo da exposição pública", avalia.

Gabriela Rollemberg, da Abradep, indica risco no movimento. "Para a sociedade e as instituições, a ausência dos principais nomes e a assimetria na definição dos participantes são invariavelmente ruins, pois privam o cidadão do direito de comparar propostas e perfis em condições de equidade."

Outro ingrediente do caso atual é o crescimento das redes sociais como ferramenta eleitoral. Pesquisadores concordam que os debates são momentos únicos por permitirem o confronto direto e, por isso, uma fonte de informação distinta de todas as outras. Mas sua função mudou, ganhando uma segunda vida após perder o monopólio dessa arena.

"O debate transmitido via radiodifusão deixou de ser um evento isolado para se tornar o principal fornecedor de insumos para a disputa digital", lembra Rollemberg.

Os momentos televisivos passam a acontecer duas vezes: ao vivo e fragmentados nas redes. A inversão de lógica leva candidatos a pensar mais no recorte de 30 segundos que vai viralizar do que no argumento de dois minutos ou na apresentação de um plano de governo, argumenta Prando.

Assis também avalia que as redes não substituem o debate, mas mudam seu sentido. "As plataformas fragmentam o eleitor em bolhas: cada pessoa recebe uma versão editada da campanha, sob medida para o que já pensa. O debate televisivo é um dos últimos espaços verdadeiramente comuns que restam, o momento em que o país inteiro assiste à mesma coisa, ao mesmo tempo, sob as mesmas regras e diante das mesmas perguntas", diz.

O novo cenário muda o cálculo político. Não à toa, as últimas eleições viram crescer outsiders que ganham forte projeção nesses encontros e dobram a aposta no tom agressivo. Foi assim em 2022, com o padre Kelmon (PTB); em 2024, com Pablo Marçal na disputa pela prefeitura de São Paulo, atuação que lhe rendeu uma cadeirada ao vivo de José Luiz Datena; e agora, em 2026, com Renan Santos, do Missão, assumindo a figura de acusador de Lula e Flávio.

"Ainda que o debate possa não mudar o voto diretamente, ele acaba pautando o noticiário nos dias seguintes. Ele fornece, especialmente nos dias que correm, os cortes, memes, bordões, gafes e respostas mais agressivas que circulam além dos noticiários, nas redes sociais", diz Prando.

"É verdade que, numa sociedade tão polarizada, dificilmente um debate transfere votos de um campo para o outro. Mas julgar o debate só pela conversão de votos é enxergá-lo pela lógica estreita da campanha", diz Jamil Assis. "Num ambiente digital que fragmenta o eleitor e entrega a cada um uma versão editada da disputa, o debate se torna uma das raras oportunidades que um candidato tem de falar diretamente também para quem jamais lhe dará o voto; não para convertê-lo, mas para convencê-lo de que seu projeto não existe apenas para a própria base."

O formato brasileiro é herdeiro direto dos debates que ganharam notoriedade após o encontro entre John Kennedy e Richard Nixon na TV americana, em 1960. O Brasil importou a estética do confronto frente a frente em estúdio, com blocos cronometrados, mas não a arquitetura institucional.

Para os brasileiros, onde também não há obrigação de comparecer, a ausência é mais barata porque o número de competidores é maior. O roteiro de Collor em 1989 e de Lula em 2006 foi justamente o de deixar o confronto para o segundo turno, quando ele é inevitavelmente bilateral.

Em nota divulgada antes do debate na Band, a Rede Pacto pela Democracia, que reúne 17 organizações signatárias, como o Sivis, defendeu os encontros televisivos.